“Quanto custa a missa? Nada”, respondeu o Papa – Entenda sem encrencas!

Nas últimas semanas, durante as audiências de quarta-feira, o Papa tem tratado da Eucaristia como o tema principal. Em cada catequese, as partes da Missa são destacadas uma a uma.

Na catequese da última quarta-feira, que pode ser lida integralmente neste link, foi a vez da Oração Eucarística, e o Papa referiu-se aos estipêndios de culto, isto é, as taxas estabelecidas pelas autoridades eclesiásticas e que os fiéis pagam quando querem que o sacerdote ofereça a Missa por qualquer intenção que desejem.

O Papa Francisco disse nesta catequese que “ninguém e nada são esquecidos na Oração Eucarística, mas tudo é trazido à presença de Deus, como a doxologia que a conclui faz recordar”.

“Ninguém é esquecido” e acrescentou que, ‘se você tem alguém, um parente ou amigo que estão em necessidade ou que já passaram deste mundo para outro podem ser ali nomeados de modo silencioso em seu interior, ou se pode pedir para pôr o seu nome nas intenções comunitárias afim de serem citados’.

Ele deixou no ar a pergunta: “Quanto eu tenho que pagar para ter o nome na intenção da Missa?” Ao que ele respondeu categoricamente: “Nada. Você entendeu? Nada! A Missa não é paga. A Missa é o sacrifício de Cristo, que é livre. A redenção é gratuita. Se você quer fazer uma oferta, faça, mas não pague. É importante entender isso“.

Note-se! Ao dizer, “se você quer fazer uma oferta, faça”, o Papa quis expressar o verdadeiro significado da contribuição dada pela intenção, que não é o de paga e sim de generosidade para com o serviço sagrado prestado a Deus. Sabendo assim que a Igreja vive materialmente disso e não tem outros meios.

No Código de Direito Canônico (código de leis eclesiásticas), em seu livro IV, na sua primeira parte, encontramos um capítulo chamado “Do estipêndio oferecido para a celebração da Missa”. Nele se diz que ‘cada sacerdote celebrante ou concelebrante da missa pode receber uma oferta para aplicá-la para uma intenção específica’. Recomenda-se que a Missa seja celebrada ‘ainda que não se receba qualquer oferta’ e pede para evitar “até a menor aparência de negociação ou comércio”.

Em outras palavras, os estipêndios de culto e as ofertas pelas intenções segundo a diretriz de cada diocese são um direito do qual se pode abrir mão em vista da gratuidade da graça de Deus e da dispensação dos mistérios sagrados aos católicos como parte de sua obrigação missionária que não faz distinção de pessoas.

O fiel deve entender que os sacramentos não são um produto que se possa comprar e consumir como numa espécie de comércio mundano, o que inclusive muitos não o entendendo até mesmo abusam dos sacramentos ao tentar usar da sua oferta para exigir todo tipo de personalização nas celebrações gerando deste modo dificuldades ao não aceitar o que diz a Igreja sobre a sua aplicação segundo o que os ritos sagrados determinam.

A oferta é um modo de ajudar a Igreja em sua própria manutenção, pois é uma Instituição que não trabalha com atividades lucrativas ou empresariais que lhe gere rentabilidade, dependendo assim dos fiéis para a sua sobrevivência digna perante às obrigações civis e eclesiásticas que tem, tais como pagar funcionários, encargos sociais, conta de luz, água, telefone, internet, que serve à comunicação nos tempos atuais, material de manutenção, consertos, reparos, material de secretaria, gasto com documentações e demandas jurídicas, obras, materiais litúrgicos, manutenção da casa paroquial e de seus sacerdotes, gasto com o transporte paroquial de uso dos mesmos em suas atividades pastorais no atendimento dos fiéis, bem como de suas atividades diocesanas, a manutenção da Mitra Diocesana, que também não tem outra fonte de ajuda, a não ser a que vem das paróquias, entre muitos outros gastos de acordo com as circunstâncias próprias de cada comunidade.

Se não for por meio dos fiéis, afinal de contas, de onde a Igreja tiraria o seu sustento!? Será que os sacerdotes teriam que deixar o ofício da pregação e o exercício de seu ministério diário na celebração dos sacramentos para adquirir uma profissão civil afim deles próprios tentarem ajudar à igreja, que se veria nesse caso sem missa, confissão, batismo, casamento e o atendimento pastoral, algo inerente a sua vocação, pois desta maneira não restaria sequer tempo para o serviço paroquial!? Ainda que ele trabalhasse para auxiliar a sua igreja, não conseguiria sustentá-la na sua receita de muitos dígitos. Talvez o sacerdote conseguiria sustentar-se numa hipótese dessa, mas não à igreja.

Por isso, tenho o hábito de dizer que o sacerdote administra uma paróquia como alguém que lida com a economia equivalente a muitas famílias. Pensem um pai ou mãe de família o quanto gastam mensalmente para as contas da sua casa,  e depois multipliquem essa conta por muitas famílias, e talvez isto sirva de referência para entender um pouco em números a coisa toda.

A responsabilidade econômica de uma paróquia é grave, o que demanda tempo, esforço e inteligência na administração. Ou seja, além de se ocupar de seu ministério, ele ainda deve gastar outra parte do seu tempo com assuntos de natureza econômica e jurídica.

Ora, a Igreja é Santa, o Corpo Místico de Cristo, vive do mistério divino e da graça, e para que seja o que Ela realmente significa isso que lhe é essencial, porém, enquanto milita na terra em vista da missão que tem, a sua estrutura institucional se mantém materialmente como qualquer organização humana que tem suas obrigações e responsabilidades para com os seus assistidos, nesse caso, os fiéis e os mais pobres, e com os encargos próprios da manutenção da estrutura institucional sem a qual os fiéis não poderiam, ao menos em parte, serem assistidos ou mesmo a Igreja perderia parcialmente a eficácia pastoral no atendimento às suas muitas demandas.

Às vezes me impressiona – e é um escândalo – que tenham pessoas para se queixar da ajuda que a Igreja pede para a realização de uma cerimônia. Porém estes mesmos estão dispostos a gastar muitos milhares de reais com uma casa de festa entre as mais caras e melhores da sua cidade enquanto acha demais qualquer auxílio à Igreja, aquela que lhe dará o sacramento que é o motivo de toda a celebração festiva posterior, como quando acontece um casamento ou missa em ação de graças por datas comemorativas.

A mesquinhez no auxílio às coisas de Deus, quando se pode ajudar, pode chegar a ser pecado, principalmente na circunstância em que se gastará muitíssimo com coisas que são secundárias, não essenciais, negando um auxílio necessário à Casa de Deus, que nos importa muito mais que uma casa de festa com um buffet requintado.

O auxílio dos leigos dá dignidade à Igreja permitindo-a servir melhor a Deus e aos homens. Exatamente por isso que não se deve entender como pagamento de um produto aquilo que se dá em vista dos sacramentos, e sim como um pedido de auxílio para o sustento da comunidade paroquial e retribuição grata a Deus por sua providência que dá aos homens o fruto do seu trabalho, tal como prescreve o mandamento da Igreja sobre o dízimo.

É portanto responsabilidade grave, insisto, grave, dos católicos manter o serviço da Casa de Deus. Assim é desde o Antigo Testamento quando os judeus ofereciam tudo que era necessário à manutenção do Templo de Jerusalém, bem como ao serviço diário dos sacerdotes. Assim como também os irmãos sustentavam as comunidades primitivas muito pobres como se vê no Novo Testamento em Atos dos Apóstolos e nas cartas escritas por eles.

O Papa também deixa um apontamento implícito aos pastores em suas palavras que não só evitem abusos ao propôr “taxas” e valores dos estipêndios de culto, como também ajudem os fiéis a se darem conta de que isto não diz respeito a uma comercialização dos sacramentos. Na verdade, trata-se do auxílio necessário à Igreja sob a forma de generoso e piedoso donativo.

Infelizmente muitos tomam frases soltas do Papa fora de contexto para interpretar como bem lhe interessa. E outros têm preguiça de se aprofundar para sair da ignorância sobre aquilo que diz a Igreja sobre coisas tão importantes.

Por fim, nesta matéria tratada pelo Papa, tanto pastores quanto fiéis têm muito o que refletir e talvez até mesmo converter em suas vidas. Cada um assuma sua parte nos propósitos de conversão.

Padre Augusto Bezerra

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