Catequese: Qual é o remédio para a violência e a nossa missão num mundo violento?

Desde ontem, vinha avisando em minhas redes sociais que iniciaria uma catequese dividida em sete partes sobre o tema proposto pela Campanha da Fraternidade: “A Superação da Violência”. Hoje é a primeira, e ao contrário do que havia prometido que falaria da “violência contra a fé e a verdade”, começo tratando das origens da violência, da sua repressão, inadmissibilidade e dos caminhos para a paz. A próxima catequese portanto será dedicada ao tema com o qual me comprometi. Com esta teremos fundamentos indispensáveis para ir afundo nesse trabalho catequético.

As origens da violência

A violência é um dos maiores males da humanidade e que está presente em sua cotidianidade desde as suas origens. Ela foi tornada visível pela primeira vez com o fratricídio de Caim contra seu irmão Abel (Gn 4, 1-16), como nos narra a Escritura.

Ela perpetrou o mundo pelo orgulho do homem que pecou contra Deus no Paraíso. E de tal modo, a desobediência ao Criador em si já foi uma forma de violência à criação e aos propósitos divinos quando a humanidade entrou em luta contra o seu Senhor. Por outro lado, Cristo pacifica a criação pelo seu Sangue reconciliando o mundo com o Pai. Mas não sem violência! Pois Ele mesmo o diz: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele” (Mt 11, 12)! Que quer dizer, que não sem fazer força, oposição ao mal e combatê-lo é que chegaremos à salvação, que é a nossa paz. E, por assim dizer, nos encontramos num intenso combate entre a carne e o espírito desde aquele momento da queda de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Daí entender que entre o céu e o inferno há uma dura guerra travada em favor de nossa salvação. E se resistirmos no Senhor, seremos vitoriosos.

Ora, ao longo da história, a violência se estabeleceu de muitos modos na relação entre os homens demandando inclusive que as leis dos povos, nações e comunidades sujeitassem à punição aqueles que agridem, ferem, matam ou ameaçam outrem com o estigma da violência. A punição dada por certa convenção nesse sentido sempre foi inibidora dos instintos passionais dos homens. Não só as sociedades clamam às consciências para que se siga essa ordem impelida pela lei natural como fundamento da preservação da própria espécie: “não matarás”; mas também o próprio Deus põe isto em seu direito divino por meio de seus mandamentos. Este direito já se vê manifesto na punição severa imposta a Caim após o homicídio de seu irmão, e mais tarde também ele é posto no Decálogo nas tábuas da Lei dadas a Moisés. E de muitos outros modos, Deus pela Revelação procura encaminhar o homem ao caminho da “vida e da bênção”, rejeitando os caminhos da “morte e da maldição” (cf. Dt 30, 19).

A repressão da violência e a legitimidade do uso da força

O mecanismo da punição reprime e educa para a virtude propiciando um equilíbrio, racionalidade e proporcionalidade no uso da força em situações legítimas. A violência injusta é passional, irracional, impulsiva, viciosa, odiosa. Contudo, mesmo arriscando ser mal interpretado, podemos dizer que haja uma espécie de “violência justa”, que seria o emprego da força para o bem comum dotada de qualidades superiores e possuidora de um “éthos”, isto é, de princípios e valores. Por exemplo, um bombeiro que para salvar alguém do suicídio lhe imobiliza e o carrega à força a um isolamento que lhe proteja de tal loucura, ou um policial que para salvar civis emprega a força de uma arma de um modo hábil e ético mesmo que isto resulte na morte do criminoso não sendo essa a sua finalidade, e sim de preservar a vida de pessoas inocentes.

A moral da Igreja tem ampla exposição magisterial sobre os princípios norteadores do uso da força, como se pode conferir no Catecismo nos números 2263 a 2267, dos quais destaco a seguinte citação:

“Se, para nos defendermos, usarmos duma violência maior do que a necessária, isso será ilícito. Mas se repelirmos a violência com moderação, isso será lícito […]. E não é necessário à salvação que se deixe de praticar tal acto de defesa moderada para evitar a morte do outro: porque se está mais obrigado a velar pela própria vida do que pela alheia”.

Santo Agostinho, grande padre e doutor da Igreja, foi quem melhor estabeleceu no período primitivo a compreensão moral de alguns conceitos como “guerra justa”, “o direito de defesa”, “o princípio de soberania”, etc. Tais aprofundamentos podemos encontrar em sua obra “De Civitate Dei” onde ele amplia a sua análise crítica sobre a vida do Império.

Ora, então, o que constitui a inadmissibilidade da violência? O emprego injusto, passional, irracional, vicioso, imoral e pecaminoso da força. Pois se ela se fizer necessária para conter os violentos, ela deverá ser usada, tal como nos confirmou um dia em sua locução o Papa Francisco ao tratar sobre o Estado Islâmico, este que com sua violência cruenta matou milhares de civis, cristãos e inocentes: “É preciso travar o injusto agressor”. Por mais que as palavras do Papa sejam prudentíssimas, o princípio moral defendido é claro. Como se trava a violência do Estado Islâmico? Com flores? E ainda, como se travaria a violência nazista que estava para pisar com suas botas de assalto o mundo inteiro? Dialogando com um insano que mandava crianças, idosos, mulheres inocentes para a câmara de gás? Infelizmente, por mais doloroso que seja dizê-lo, algumas vezes realmente “não há paz sem guerra”.

Mas isto significa que a violência pode ser desejável? Não! Ao contrário, é exatamente por causa dela que a força é praticada para cessá-la. Resta-nos saber quais são os limites do seu uso segundo critérios racionais que constituam um direito justo.

Os fundamentos da violência

A violência deve ser combatida desde as suas bases. De onde nasce a violência? O próprio Jesus responde a essa pergunta: “Porque do coração é que procedem os maus intentos, homicídios, adultérios, imoralidades, roubos, falsos testemunhos, calúnias, blasfêmias” (Mt 15, 19). Ele portanto nos aponta a raiz de todo mal: a intencionalidade.

Se a violência nasce das fraquezas interiores do homem, isso nos lega uma missão peculiar de educar os homens para a paz. E tal educação só pode ser construída sobre os alicerces de valores, princípios morais e virtudes humanas que sejam integrais compreendendo desde a primeira fase da educação do indivíduo até a sua vida adulta, para isto estabelecendo um programa de virtudes que forjará homens de paz, que sabem almejá-la, defendê-la, e até mesmo lutar por ela se preciso for.

A violência como sintoma das enfermidades morais da sociedade

Uma sociedade adoecida que não consegue instruir os mais jovens para a virtude não conseguirá construir uma cultura de paz. Só conseguirá guerras e sucessivas perdas na qualidade moral, dignidade, resultando num déficit no desenvolvimento social.

Portanto, se uma sociedade não se mobiliza para que a longo prazo, isto sem eximi-la das tarefas de curto prazo acerca da violência, solucione os problemas culturais e da educação moral da sociedade, principalmente da juventude, ela só viverá de apagar incêndios.

A destruição moral que se dá pela mídia, pelos meios “culturais”, bem como por políticas públicas acompanhadas de um ensino precário, prepara uma alcateia, não homens, e sim uma sociedade de lobos selvagens, que irá depôr toda ética, criar o caos, a instabilidade, a perda de sentido que vão sustentar um regime da violência.

Portanto, a difusão da violência se deve a um esvaziamento moral da sociedade, que quanto mais se esvazia, mais violenta se torna. E a questão do ensino moral é a matéria grave com a qual se deve trabalhar a longo prazo até que se torne um hábito da sociedade formar homens virtuosos pondo em funcionamento um ciclo renovado de valores entre as gerações, assim criando uma espécie de tradição de virtude e paz.

Uma ferramenta fundamental para isso é a disciplina, a lei e a ordem, e não só, mas também a orientação do homem ao seu sentido último pela dimensão religiosa, na qual as religiões exercerão um papel fundamental nesta educação.

A missão da paz

Nossa missão é de paz, como Cristo mesmo a principia: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz” (Jo 14, 27). Devemos ser amantes da paz, não como pessoas românticas ou como hippies que vivem num mundo de poesia, flores e pura estética, mas como construtores de uma sociedade ética e sólida capaz de gerar a paz como fruto de todo seu trabalho por um arcabouço moral resiliente às intempéries dos tempos. Pois se assim semeiam a paz, colherão a paz, do contrário, se semeiam os vícios, colherão a guerra.

A missão da paz começa na família que deve ser protegida pelo Estado afim de formar indivíduos saudáveis social, mental e espiritualmente. E o Estado muito longe de interferir no papel dos pais ou furtá-los de seus direitos se lhes opondo e coagindo, deve dar todas as condições a eles para que forjem a identidade cidadã de seus filhos.

Por fim, construir a paz não é uma utopia, é heroísmo. Ainda que difícil, não nos é impossível. Por isso, unidos em Cristo devemos nos esforçar por estabelecer meios de pacificar o mundo dilacerado pela violência.

E concluo esta primeira das sete catequeses sobre “A Superação da Violência”, invocando sobre nós o poder intercessor da Virgem Maria, Rainha da Paz, para que ela nos eduque por seu modelo à busca da verdadeira paz e nos ponha seguros no esconderijo do Altíssimo por suas mãos maternais.

Padre Augusto Bezerra

 

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