Carta de apelo ao clero brasileiro, aos padres e bispos da Terra de Santa Cruz

“Concede-me a vida — eis o meu pedido! — e a vida do meu povo — eis o meu desejo!” (Est 7,3).

Ao clero brasileiro, às vésperas da Solenidade de N.S Aparecida. Paz em Cristo!

Caros irmãos em Cristo, pertencentes ao clero do nosso Brasil, padres e bispos, que juntos compartilhamos do único e mesmo sacerdócio, o de Cristo. Antes de mais nada, justifico o motivo de dirigir-me a vós. Alguém pode se perguntar: “Quem é esse padre para falar a todos nós?” Não tenho pretensão alguma de falar coisas que já não sabeis ou viveis. Sou somente um padre entre outros, e que vivi junto a nossa gente os sofrimentos políticos, econômicos, a perseguição aos nossos valores e o padecimento de nossas famílias.

Atualmente estou fora do Brasil fazendo especialização em Comunicação em Roma, e aqui tenho contato com muitos irmãos sacerdotes da América Latina.

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Como esta gente é sofrida, meus irmãos! O povo e as autoridades eclesiásticas de países vizinhos ao nosso sofrem muitíssimo, sim, os padres e bispos que foram designados por Deus para serem seus servos em meio a ditaduras socialistas perversas, como na Nicarágua, Venezuela, Bolívia, e em tantos outros lugares onde impera a miséria mais radical. Cresce o número de igrejas atacadas, e em meio ao Sínodo da Juventude, como não lembrar dos jovens mortos por essas ditaduras comunistas, se não mortos na carne, mortos no espírito, mortos na esperança, mortos em seus ideais mais profundos de liberdade e de paz. Este é o velho projeto bolivariano do comunismo ateu ou anticatólico que durante quase duas décadas se alimentou do sistema financeiro brasileiro. Nossa pátria tem parte no sangue de nossos irmãos latino-americanos, porque o nosso dinheiro financiou ditaduras. Igrejas e homens de bem são presos, perseguidos e mortos também porque a corrupção brasileira foi a fonte da manutenção do poder desses perversos que oprimem seu próprio povo.

Que vamos fazer enquanto pastores do povo de Deus? Que esperamos nós? Se muitos de nossos irmãos latino-americanos tivessem visto os dias de hoje que passam na própria carne teriam feito algo a mais para impedir tudo isso, afim de salvar a sua gente, a sua liberdade e a sua paz. Eles e nós queremos a paz para celebrar o nome de Deus e viver como cristãos. Eles já não a tem, nós ainda um pouco, e, acaso, pensamos que a Terra de Santa Cruz escapará das mãos dos sanguinários se nada fizermos?

Daqui de onde estou, eu sei que o mundo espera do Brasil uma solução para a América Latina. Se nós perdermos nesse perigoso contexto político ainda haverá muito sangue no Brasil e na América Latina.

O perigo não nos é suficiente para agir? Ou é necessário ver o sangue correr pelas ruas quando já é tarde demais, quando já imobilizados pelos tiranos? Se alguém pensa ser a minha visão exagerada, deveria conhecer as aparições de Nossa Senhora das Graças em Pesqueira no Estado de Pernambuco em 1936, revelações particulares reconhecidas pelo ordinário local daquela época. Na mensagem aos pequenos videntes a Virgem Maria anuncia três castigos para o Brasil, dentre eles uma Guerra Civil. A maneira de evita-la seria a penitência, a oração do rosário e a conversão do povo brasileiro. Logo, não sou eu a especular um mau presságio sobre o nosso país, mas isto saiu da boca de Nossa Senhora. Embora uma revelação particular não seja uma obrigatoriedade de fé aos católicos, como sabemos, não convém e é estúpido arriscar o nosso futuro com a incredulidade!

Confesso que na verdade relutei muito em fazê-lo. Só depois de discernir durante os últimos dias, tomei a decisão de executar essa inspiração que me veio durante uma missa votiva ao Espírito Santo, na qual angustiado com a situação do nosso país, me perguntava: “Que mais posso fazer para ajudar a minha pátria?” Longe disso ser uma ânsia megalomaníaca, é apenas um desejo de fazer uma pequena parte, que somada ao todo dos homens de boa vontade, resulta numa maior glória para Deus, pois se suplicamos no Pai-Nosso: “Seja santificado o vosso nome”, e não nos preocupamos em fazer a nossa parte por menor que seja, ao invés de santificá-lo, o negamos.

Também, alguns pensam que por sermos religiosos, estamos alienados da realidade do povo. E não é verdade. Um sacerdote vem de uma família, tem uma história e foi tirado do meio do povo, não para se distanciar dele, mas para servi-lo. Vós bem sabeis.

Sei que ao nos pronunciarmos sobre qualquer assunto sensível da sociedade muitos julgam os nossos interesses pessoais, quando na maioria das vezes apenas nos interessa o bem comum mesmo a custa do sacrifício pessoal. Em outras palavras, não ganho nada pessoalmente fazendo isso, e talvez só venha perder o pouco que tenho.

Muitos já nos acusaram, por sermos contra um partido corrupto específico, de irmos contra os pobres ou de defender a violência e o discurso de ódio. Eu pessoalmente já fui atacado desta maneira. Mal sabem que sou de origem pobre, de pais nordestinos, criado numa favela do Rio de Janeiro e que conheço a violência brutal desde os meus primeiros dias de vida.

A situação nacional é gravíssima. E não sei o quanto as pessoas percebem os limites aos quais chegamos e os perigos que se avizinham.

A corrupção denunciada e punida no Brasil revela muito mais do que simplesmente o assalto dos bens nacionais, e mostra para nós uma ânsia de poder e um projeto político que não leva em consideração os indivíduos, e sim uma visão ideológica a ser implantada a qualquer custo, mesmo mediante ao massacre da economia, da empregabilidade, da saúde, da educação, dos pobres e do sangue inocente do nosso simples povo.

Os crimes perpetrados por membros do Partido dos Trabalhadores (PT) são um claro anúncio que eles são capazes de muito mais maldades e estão dispostos a tudo. A irreverência perante à justiça, aos valores e ao bem público é um introito de uma ópera que vai terminar da maneira mais trágica possível, é o preâmbulo da desgraça.

As circunstâncias pedem sim uma posição contra-partidária. Isto é, não uma via afirmativa sobre em quem se deve votar, mas sim uma negativa e uma posição de rechaçamento de um grave mal que tenta se insurgir mais uma vez em nosso meio para a nossa destruição.

Do contrário, o pecado da omissão enquanto pastores do povo de Deus que somos pesará sobre os nossos ombros e o Senhor pedirá conta do sangue de nossa gente por se suprimir dentre nós a parresia profética, uns por medo e outros para preservar-se.

Se nos calamos, os lobos devoram. Porém, se proclamamos, a escuridão, da qual se servem os lobos para atacar, se vai. Logo virá o dia, e Cristo apascentará os nossos corações como o nosso Bom Pastor, ele mesmo que é o Rei e Senhor do Universo ao qual todos convém se submeter por toda eternidade, “seja nos céus, na terra ou nos abismos” (Fl 2,10).

Termino dizendo: a nós compete profetizar nesses tempos difíceis, e vós sabeis o que dizer para salvar o povo de Deus e a nossa pátria, pois o Espírito Santo está em vós para confessar e sois os ministros do Altíssimo, Aquele mesmo que todos conhecerão como Juiz no último dia.

Desejo um feliz pastoreio a cada um de vós, e peço-vos a vossa bênção fraterna!

Roma, 11 de outubro de 2018, às Vésperas de Nossa Senhora Aparecida, Padre Augusto Bezerra.

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