“Paulo, Apóstolo de Cristo”: sua missão é ver esse filme. E fica de boa, não há heresias!

O que você espera do filme “Paulo, Apóstolo de Cristo”: uma super-produção com toques hollywoodianos? Um Paulo (James Faulkner) exuberante e trovador dos enunciados do Evangelho? Cenas de intrepidez e santos com discursos retóricos em praças públicas encantando massas? Sinto informar que não é bem isso que encontrará.

Para quem conhece as cartas de São Paulo, revivendo os versículos da Escritura presentes no roteiro do filme, e para quem também pôde estudar ao menos um pouco de exegese bíblica sobre a sua figura, o filme acaba por se apresentar uma descrição mais conexa com a realidade ordinária da vida deste grande apóstolo.

A sua produção dá muita importância ao que é escrito e testemunhado por palavras apontando para o mundo bíblico. Acaba por ser um chamamento a ir ao encontro das Sagradas Escrituras para saber mais sobre a sua pessoa e a importância que tem para o cristianismo primitivo. Em certo sentido, o filme não se encerra ao seu próprio roteiro, mas aguça o espectador a visitar a história escrita do apóstolo. Se não conhecesse as cartas paulinas e todo seu testemunho, eu sem dúvida sairia dali querendo saber quais são os escritos os quais o filme faz questão de pôr em relevo ao longo da narrativa.

Uma coisa que se percebe logo nos primeiros minutos é que o filme não centraliza a figura do apóstolo. Para quem espera uma trama exclusiva da vida de Paulo, isso não é muito satisfatório. Passa uma idéia de descontinuidade, como se tivessem vários núcleos na história toda. Creio que isso foi proposital na produção e não é um erro na sua elaboração. O mundo periférico à vida de Paulo ganha máxima importância desde a apresentação inicial da personagem do evangelista Lucas (Jim Caviezel), que torna-se o seu secretário pessoal, o mesmo que também um dia serviu a Pedro em algumas ocasiões na composição de seus escritos. Além dele, é posta em relevo a vida da comunidade dos cristãos romanos, que é a primeira a sofrer com o estigma da perseguição do Império através da dissimulação e crueldade de Nero que criou uma farsa acusando os cristãos de incendiarem Roma quando ele foi o autor desta sandice. Como sabemos pela história, ele usa os cristãos como bodes expiatórios para seus projetos de poder.

Quando aparece pela primeira vez o apóstolo, mostra-se um homem recatado, contido, sem rompantes retóricos, não como muitos o imaginam pela “tradição”, um homem que mostra-se resiliente e aceita os sofrimentos “como ovelha ao matadouro” (Rm 8,36) à imitação de Cristo, com aquela mesma mansidão sua. Paulo traz consigo um olhar convicto, rosto impassível, um semblante sem muitos vacilos de um homem amadurecido pelo tempo, sem passionalidades.

Por incrível que possa parecer para muitos cristãos, a personagem de Paulo corresponde quase que exatamente ao que a exegese mais atual conclui pelos numerosos dados que se recolhem do mundo bíblico: um homem que tinha escritos enérgicos de grande retórica, mas que pessoalmente chegava a ser decepcionante para os que o conheciam só de ler suas cartas, pois, ao que tudo indica, não era um grande orador tais como algumas imagens tradicionais sugerem ele ser como que um trovador na pregação do Evangelho. Daí aquele lamento de São Paulo nas Escrituras ao dizer que ‘uns se diziam de Paulo, outros de Apolo, e ele reclama todos a se voltarem à unidade em Cristo’ (cf. I Cor 3). Porque na verdade Apolo é que era o grande orador que envolvia a todos com sua pregação e retórica. Muitos então vinham a preferi-lo por essas suas qualidades. Já o apóstolo, homem de baixa estatura, calvo, com uma mancha (deficiência ou ferida) visível numa das vistas, tal como concluiu alguns estudos mais recentes e que inclusive se confirmam numa análise mais minuciosa do mais antigo ícone do apóstolo Paulo descoberto nas catacumbas de Santa Tekla em 2009.

Em outras palavras, o apóstolo era atraente pelas palavras escritas, mas muitos quando o conheciam pessoalmente eram decepcionados pela figura de um homem simples. Não sei se essa simplicidade da personagem foi planejada pela produção ou se foi um providencial acidente que vai de encontro ao estudo sobre a pessoa do apóstolo.

Não é nenhum segredo e todos sabem que São Paulo morreu mártir e decapitado. Então não há spoiler em dizê-lo aqui, certo? Alguns não se agradam com a simplicidade da cena do seu martírio no final do filme. A insatisfação é normal para aqueles que estão acostumados com os panegíricos do martírio cristão que é uma narrativa marcada pelo heroísmo em gestos e palavras da morte dos grandes santos primitivos pela tradição comum dos fiéis. Ora, o martírio é extraordinário por si mesmo, não precisa de discursos, palavras ufanantes, grandes gestos que lhe acresçam algum sentido, e com efeito diz a Escritura que no testemunho fiel até o fim “seu som ressoa e se espalha em toda terra, chega aos confins do universo a sua voz” (Sl 18,5). A força do martírio está justamente na fraqueza, donde se pode aplicar o que diz São Paulo de si mesmo: “Prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo” (II Cor 12, 9). Para o mundo o martírio é loucura e mera fraqueza de alguém que não venceu uma força maléfica, mas para os homens de fé é glória morrer por Cristo, com Cristo e em Cristo!

Portanto, a força do apóstolo Paulo está em sua fé, sua esperança inabalável, sua convicção sobre a pessoa de Cristo e a caridade ardente pelos irmãos no serviço da salvação.

Enquanto o apóstolo se encontra prisioneiro, a vida continua para a comunidade cristã em Roma. Priscila e Áquila, representados por  Joanne Whalley John Lynch, auxiliam na condução dos cristãos instruindo-os e mantendo contato frequente com Paulo através do acesso que Lucas tinha ao cárcere devido a sua respeitável cidadania grega e por ser também um médico proeminente.

O espinho na carne

As lembranças de Paulo o atormentam. Muitos podem entender que o filme insinuasse que o apóstolo sofria com alguma espécie de escrúpulos com seus pecados passados. Só que em minha visão a tentativa é mostrar que o espinho na carne do qual ele reclama em seus escritos eram as culpas que carregava pelas vidas afetadas pela sua dura perseguição aos cristãos em Jerusalém e em outros lugares do Oriente. O diabo o acusa e esbofeteia com as lembranças do passado. A voz de Cristo que ao mesmo tempo o chamou é uma memória da perseguição: “Saulo, Saulo, por que me persegues”? Carrega consigo uma eleição da qual é convicto, um amor de Cristo do qual tem certeza, mas entende as dores que causou a Deus com seus pecados. É a consciência habitual de um santo que padece diante do Senhor pelo que chamamos o dom das lágrimas, a capacidade de chorar as nossas culpas do passado que nos familiarizam com a misericórdia infinita de Deus, pois “onde superabundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20).

Os dilemas de um oficial romano

O prefeito Maurício, representado por Olivier Martinez, é um romano consciente da crueldade de Nero e de que os cristãos são meros bodes expiatórios, mas está cumprindo o seu dever. Não pode permitir rebelião e fugas no cárcere, perder um prisioneiro seria a sua sentença de morte. Ao mesmo tempo, ele vive uma tensão ao longo de toda trama com a doença de sua filha. Recorre aos deuses que não respondem, os médicos romanos não sabem o que fazer, e a sua saga será escolher entre seguir a soberba do seu coração ou pedir ajuda à Lucas mesmo sob a pena de trair seus deuses ao deixar um discípulo do Deus dos cristãos passar pela porta da sua casa.

A perseguição romana e a vivência comunitária

A perseguição que bate à porta a cada momento deixa forte apreensão entre os membros da comunidade. Lucas, Priscila e Áquila entram na intermediação dos fatos em busca de soluções que pudessem preservar a vida de tantos inocentes. O evangelista também se abala em alguns momentos, vacila no discernimento e a indignação quase lhe cega em dadas circunstâncias.

O desespero quase ameaça à vida comunidade que oscila entre o zelo imprudente de alguns jovens e o testemunho fiel até o martírio.

Quando a indignação toma o grupo mais jovem, logo começam aparecer idéias revolucionárias em querer agir contra o Império com a força das armas e tirar os cristãos da submissão àqueles terríveis sofrimentos. De outro lado, os homens mais maduros  da comunidade romana procuram conter essa onda de reatividade evocando os irmãos ao testemunho fiel e manso seguindo o modelo de Cristo.

Uma insatisfação para os cristãos triunfalistas

Os cristãos triunfalistas certamente não gostarão dessa versão da história que acaba prevalecendo. Contudo, o que fez a Igreja ser o que ela foi na primitividade foi a Boa-Nova fecundada pelo sangue dos mártires e na fraqueza experimentada pelos primeiros cristãos, e não por uma hegemonia histórica e cheia de êxitos. O cristianismo nasceu do sangue, da fraqueza, da pobreza, da simplicidade, das catacumbas, do escondimento, e não de uma revolução armada ou projeto social de hegemonia histórica numa luta carnal. Como vai dizer São Paulo: “Não é contra homens de carne e sangue que lutamos, mas contra os principados e as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal, que habitam as regiões celestes” (Ef 6, 12).

O Império se rende ao cristianismo mais tarde sem a força humana revolucionária, se rende mediante ao anúncio fiel e resiliente da Boa-Nova. O Evangelho tem força própria e a Providência Divina tem tudo em suas mãos. Porém aos triunfalistas isto é muito difícil de se entender. Acham que o curso da história depende mais do seu zelo extremado que da graça de Deus e dos seus desígnios. Acaso, a história dos cristãos era pra ser diferente? Certamente não! Pois tudo fora profetizado por Cristo, a perseguição, o martírio, as tribulações por causa da fé: “Porque se fazem assim no madeiro verde, que será no madeiro seco?” (Lc 23, 31).

Os escritos apocalípticos revelam o controle que Deus tem da história, apesar do mistério da iniquidade continuar a se desenvolver, do joio crescer ao lado do trigo, das ovelhas ao lado dos cabritos. No fim, como diz São Paulo: “tudo concorrerá para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

O grande erro dos cristãos triunfalistas é achar que o cristianismo precisa muito deles. Não! O cristianismo não precisa de ninguém mais, pois Ele está fundado numa pessoa: Cristo. Ele não precisa de reino histórico, das coisas seculares, armas, revolução, domínio e hegemonia social. Se tiver tudo isso por meio da atividade secular dos cristãos isso é um favor a Cristo, e não uma necessidade para seu Reino. É um favor que se faz também aos homens. Governar em favor do Evangelho não é tornar a Igreja numa ONG, movimento social ou grupo contra-revolucionário. A Igreja é Cristo e não precisa de nada disso. ‘O seu Reino não é deste mundo’ como Ele atestou (cf. Jo 18, 36). Mas se alguém quiser fazer algum favor a Cristo, faça, mas com legitimidade e bondade, sem apelar à injustiça, às paixões humanas e a erros tolos de homens soberbos!

Alguns podem achar que o filme quer impôr a idéia de um cristianismo pacifista. Na verdade, ele só foi fiel ao que foi a história real das comunidades primitivas: o triunfo pelo martírio!

Uma insatisfação aos adeptos do materialismo utópico do Reino

De outro lado, os cristãos que trazem consigo uma visão materialista da fé podem se decepcionar também. Pois, mesmo o filme mostrando o serviço dos cristãos aos pobres, viúvas e órfãos, em nenhum momento isso furta a dimensão sobrenatural do Reino de Deus e a centralidade da exposição da Boa-Nova não se deixa levar pelo messianismo histórico do materialismo, que em tese se assemelham em princípios ao triunfalismo.

A tentativa de transformar a religião numa comunidade revolucionária com fins materialistas é algo bem anterior ao cristianismo, que já era presente no judaísmo através do conceito do messias-rei, o que em algum momento tentam impôr a missão de Jesus e ele se esquiva frequentemente disso. Essas tendências materialistas também são experimentadas no cristianismo sob novas formas, e todas elas são preocupantes quando tiram a centralidade da Boa-Nova para ocupar-se de um projeto de poder e triunfo histórico de qualquer natureza.

Considerações finais

O filme me agradou bastante. Não é fácil fazer um filme bíblico. E só a preocupação em fazer um roteiro que não fira a verdade bíblica, já faz a produção ganhar numerosos aplausos, ao contrário de filmes como Noé, Maria Madalena, cheios de coisas inventadas e que não fazem menor sentido com a conjuntura bíblica, esses tipos de filme apelativos para fazer fila em bilheteria.

Depois, a descentralização da figura de Paulo, mesmo sendo desagradável para alguns, resulta numa maior exploração do mundo periférico ao apóstolo, o qual ele já não podia mais ajudar em muita coisa enquanto estava preso e condenado à morte. Era um homem imobilizado, mas que continuava vigoroso na oração, na instrução por seus escritos e em suas convicções de fé.

As citações bíblicas abundantes ajudam ao espectador cristão se familiarizar com o roteiro. Enquanto eu assistia no cinema, muitos a minha volta reconhecendo os versículos completavam a fala do evangelista Lucas que se animava com as palavras de Paulo e do próprio apóstolo que as ditava.

Quanto ao final do filme, acho que poderia ser diferente. Cada um vendo, poderá fazer a sua crítica. Poderia ser mais entusiasta o final. Na minha avaliação, faltou um clímax. Só que para um filme que se desenvolve sem quaisquer apelações, não sei se deveríamos esperar algo diferente.

De uma nota de 0 a 10, dou 9,3 por causa desse final e dos leões do circo romano que não apareceram, dos quais só se ouvem os rugidos numa cena do martírio dos cristãos. Faltou um pouco mais de realismo nesse momento. Acho que deveriam alugar uns leões da próxima vez.

E fica o aviso: se for ver filme da Marvel, e não ver este bom filme bíblico, você merece a mais severa a penitência. Você tem a missão de ver!


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