O que São João Crisóstomo pregaria sobre o Carnaval hoje? Leia atentamente o sermão!

São João Crisóstomo, o mais conhecido dentre os Padres da Igreja grega. Natural de Antioquia, ali passou a mocidade, vivendo monasticamente, tendo como mestre Deodoro de Tarso e colega Teodoro de Mopsuéstia. Ordenado presbítero em 386, tornou-se famoso pregador e mais tarde patriarca de Constantinopla. Sua eloqüência lhe valeu o título, dado pela posteridade, do Cristianismo (= boca de ouro). No exercício zeloso das funções pastorais atraiu irritações na corte. Falsas suspeitas sobre sua ortodoxia levaram-no ao exílio, na Armênia. Morreu em Comana, no Ponto. O papa são Pio X proclamou-o padroeiro dos pregadores. Tem especial valor o que escreveu sobre a Eucaristia. É autor de Comentários a vários livros bíblicos, de Sermões, de um tratado sobre o sacerdócio, e de obras pastorais.

Observação importante à leitura: como o contexto de São João Crisóstomo era distinto do nosso, e os espetáculos os quais criticava eram até menos graves do que o espetaculo do Carnaval contemporâneo, devemos na leitura considerar os princípios morais que perpassam o seu sermão, e totalmente aplicáveis às nossas circunstâncias por via análoga. Perceba que algo acontece antes dos espetáculos: uma tragédia pelo furor de uma tempestade. Isso aumenta a indignação do santo. Pois já não bastava que cometessem graves pecados, ainda por cima desprezavam o tempo trágico que viviam. Por analogia, podemos aplicar ao tempo de crise política, econômica, moral, espiritual e cultural que vivemos nesses tempos qual tempestade que nos arrebenta e dispersa nossos pedaços para todo canto. Muitos vivem esses dias como se nossa nação não estivesse moribunda. É como alguém que festeja o seu próprio fim, sendo que ele é destruição, pobreza, só misérias e morte. De fato, tudo é apenas fantasia. E todos serão novamente despidos dela para cair na realidade. Além dos pecados, a indiferença com os tempos graves que vivemos é um escândalo. Festajam o que afinal? Exatamente, festajam o nada, festejam sem sentido, festejam vazios.

O santo denuncia as concupiscências carnais destas festas e as chagas que espiritualmente são geradas nas pessoas. Ele ainda adverte no seu sermão sobre os omissos, da importância de sua missão de salvar almas pela pregação, e da sua disposição em perder amizades e prestígios humanos por esta causa, revelando um grande desprendimento a um amor próprio excessivo e de querer preservar a sua imagem. Garante privar os que depois de pecarem gravemente pretendem receber indignamente os mistérios de Deus. Mas mostra que essas medidas duras são na verdade uma via de cura para os pecadores.

Desejo-lhe portanto uma boa e proveitosa leitura espiritual.

SERMÃO “CONTRA OS ESPETÁCULOS” (P.G. 56, 264-270)

– É isto tolerável? É isto permissível? Quero que sejais vós mesmos os juizes. Também Deus agiu assim com os judeus, quando os interpelou: “Povo meu, que te fiz eu, em que te fui molesto? Responde-me” [Mq 6.3]. E no livro de Jeremias perguntou-lhes de novo: “Que injustiça encontraram em mim vossos pais?” [Jr 2.5] Imitarei, pois, o exemplo de Deus, interrogando-vos:

– É isto tolerável? É isto permissível? A despeito de prolongados e reiterados discursos, a despeito da grande e recente lição [O bispo refere-se a uma calamitosa tempestade ocorrida dias antes, por motivo da qual se tinham feito procissões e súplicas na célebre igreja dos Apóstolos em Constantinopla], alguns houve que, abandonando-nos, foram ao espetáculo de corridas de cavalo e se entregaram ao delírio das ovações, enchendo a cidade com gritos, berros e risadas. Isto é para chorar!

Eu estava em minha casa e, ao ouvir a algazarra, mais sofria do que se fosse atingido por uma tempestade. Como os náufragos que se percebem em perigo, vendo as ondas baterem com furor contra os flancos do navio, era assim que me sentia, como se desabassem, sobre mim as ondas dos gritos irritantes, e me encolhia, cabisbaixo de vergonha, enquanto uns nas arquibancadas e outros, no meio da ágora, torciam delirantemente pelos carros em corrida. Que poderia responder, que desculpas haveria de alegar, se um forasteiro, presenciando tal loucura, me perguntasse:

– É esta a cidade dos apóstolos? Esta é a cidade que acolheu um mestre como santo André? Este é aquele povo amante de Cristo, auditório seleto e espiritual?

Nem mesmo quisestes guardar o dia em que se consumaram os símbolos da Redenção de nossa estirpe! Na próxima sexta-feira, no dia em que o Senhor foi sacrificado e o Paraíso reaberto, no dia em, que o ladrão foi reconduzido à Pátria e nós fomos resgatados da maldição, no dia em que nossos pecados foram anulados e terminou a guerra dos séculos, no dia em que Deus se reconciliava com os homens, mudando tudo para o bem, no dia destinado ao jejum, à oração e à ação de graças Àquele que derramou seus benefícios sobre o mundo, vós não vos importáveis com igreja, Sacrifício, comunidade fraterna, dignidade do jejum, e corríeis para o teatro, como que escravizados e arrastados pelo demônio. Dizei-me: – É isto tolerável? É isto permissível?

Não me cansarei de repeti-lo, pois aliviarei minha dor, que não se há de sufocar pelo silêncio, mas se há de considerar de frente e se há de manifestar diante de vossos olhos.

Como iremos agora pretender que Deus seja propício para conosco? Faz três dias que terríveis aguaceiros desabaram aqui, inundando e arrasando, arrancando, por assim dizer, o pão da boca dos lavradores, abatendo as espigas de trigo e destruindo tudo o mais pela umidade. Recorremos a ladainhas e rogações, e nossa cidade em peso acorreu à igreja dos Apóstolos e imploramos a proteção de são Pedro e de santo André, dos inseparáveis apóstolos Paulo e Timóteo. E depois de aplacada a ira divina, atravessamos o mar, arrostamos as ondas, lançando-nos aos pés dos corifeus: Pedro, a rocha da fé, e Paulo, o vaso de eleição; tecemos-lhes um panegírico espiritual, enaltecendo seus sofrimentos e suas vitórias contra os demônios. Ora, não vos intimidas por acontecimentos assim tão recentes? Não vos deixais instruir pelos sublimes exemplos dos apóstolos? Pois mal decorreu um dia após isso e já vos entregáveis às danças e gritos, já vos deixáveis arrastar pelas paixões? Se tanto vos agradava assistir à corrida de animais, por que não subjugastes vossos afetos animais, vossa ira e concupiscência? Por que não lhes impusestes o jugo suave e leve da sabedoria? Por que não os dirigistes com as rédeas da reta razão, em direção ao prêmio da vocação celeste, isto é, da terra para o céu, não do circo para o teatro? Pois é essa corrida que conjuga a alegria ao proveito.

Negligenciastes, porém, vossos próprios interesses, fostes ter pela vitória de outros e empregastes mal um dia tão grande.

Não sabeis que Deus nos pedirá contas de como empregamos todos os dias da vida, assim como também pedimos contas até do último centavo a quem confiamos nosso dinheiro?

Que diremos, que desculpas alegaremos, quando chegar nossa hora?

É por vós que nasce o sol, que a lua ilumina a noite e as es- trelas brilham. Por vós os ventos sopram, os rios correm, as se- mentes brotam e as plantas crescem. Por vós a natureza perfaz seu curso, o dia amanhece e a noite passa. Tudo isso foi feito por vossa causa. Vós, porém, enquanto as criaturas vos servem, satisfazes a cobiça do demônio e não pagais o aluguel dessa casa, que é o mundo, e que de Deus alugastes?

E não vos bastou a profanação de um dia, quisestes ainda profanar o seguinte! [Na sexta-feira tinham ido ao circo e no sábado foram ao teatro.] Em vez de ao menos descansar um pouco do mal realizado, enchestes novamente o teatro, como quem corresse da fumaça ao fogo, lançando-se num abismo mais profundo! Anciãos desonraram suas cãs, jovens aviltaram sua juventude, pais consignam os filhos atirando-os desde os tenros anos nos precipícios do mal, de modo que já não seria erro chamar de infanticidas tais pais que malvadamente levam as almas de seus filhos à perdição.

Em que consiste vossa maldade? Nisto: já não percebeis que cometeis pecados. Nisto está precisamente minha dor! Afligi-me porque não sentis vossa doença e assim não procurais remediá-la.

Cometeis adultério e me perguntais de que mal sofreis? Não ouvistes a palavra de Cristo: “Todo aquele que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já adulterou com ela no seu coração?” [Mt 5,28]

– Mas que mal há nisso, dizeis, se não olhamos para cobiçar?

Como se essa objeção pudesse cenvencer-me! Quem não é capaz de privar-se do teatro, mas procura os espetáculos com tamanha paixão, como se encontrará depois do espetáculo? Vosso corpo é por acaso de pedra ou de ferro? Sois de carne humana, que com facilidade é arrebatada pela paixão da concupiscência!

Aliás, por que falar em teatro, se já é o bastante encontrarmos uma mulher na praça para ficarmos perturbados? Vós, porém, sentado no teatro, onde tanta coisa incita à torpeza, vedes a mulher que entra no palco, de cabeça descoberta e maneiras impudicas, com roupas douradas e gestos voluptuosos, a cantar canções obscenas, a dizer as coisas mais sensuais que se pudessem imaginar, às quais vos inclinais para melhor prestar atenção, e vindes agora dizer-me que nada sentis? Sois porventura de pedra ou de ferro? Não me cansarei de perguntar-vos: sois porventura mais sensatos do que os grandes e nobres varões que caíram só com a visão do pecado?

Não conheceis as palavras de Salomão: “Pode caminhar alguém sobre brasas sem que seus pés se queimem? Pode alguém esconder fogo no seio sem que suas vestes se inflamem? Assim o que vai para junto da mulher do seu próximo” [Pr 6,28.27.29]. Pois mesmo que não vos juntásseis com a meretriz, já pecastes com ela pelo desejo, já pecastes no coração!

E isso não só durante, mas também após o espetáculo, visto que a figura da mulher se aninhou em vossa memória, como também suas palavras, atitudes, olhares, andares, danças e canções obscenas. Vereis com quão inúmeras lesões tereis deixado o teatro.

Não é porventura daí que se originam a destruição da vida familiar, o adultério, os divórcios, as inimizades e brigas, os desgostos da vida? Fascinados por aquela mulher, vós vos tornais seus escravos, de sorte que vossas esposas passam a parecer desagradáveis, vossos filhos importunos, vossos servos insuportáveis, vossa casa fastidiosa, vossas responsabilidades molestas e tudo o mais pesado e aborrecido.

A razão dessa mudança é que não voltais sozinhos para casa, mas acompanhados de uma meretriz – não abertamente, o que aliás seria mais tolerável, pois vossas esposas logo a expulsariam – mas escondida em vossa mente, em vossa consciência, avivando lá dentro o fogo babilônico, o que é muito mais funesto, porque não são mecha, óleo e peixe que alimentam tal fogo, mas são as palavras de mulher que provocam total incêndio.

Assim como os que estão com febre, embora não tenham de que se queixarem dos outros, tornam-se, pela moléstia, ásperos para com todos, recusando alimentar-se, vituperando os médicos e enfurecendo-se com os enfermeiros, do mesmo modo se alteram e se contrariam os que sofrem da terrível moléstia do adultério, em toda parte enxergando a meretriz.

O lobo, o leão, os animais fogem do caçador quando feridos. O homem, todavia, sendo racional, eis que persegue teimosamente aquela que o fere, expondo-se de boa vontade a ser atingido por suas flechas de modo mais perigoso e comprazendo-se na ferida!

É isso o mais doloroso e o que faz incurável a doença. Pois quem procura o médico se não odeia a ferida nem deseja livrar-se dela? Aflige-me ver-vos sair assim tão lesados por um prazer de breve duração. Antes do inferno pareceis querer antecipar aqui os piores castigos! Ou não é isto o que fazeis, fomentando tal paixão, deixando-vos arder e envolver sem a chama de um absurdo amor? Ainda assim tendes coragem de transpor os umbrais da Casa de Deus e de tocar na Mesa celeste? Como escutareis os sermões sobre a continência, assim cobertos de chagas e com a mente de tal modo escravizada pelo vício? Será preciso acrescentarmos algo ainda?

Vejo, porém, que vos entristeceis pelo que ocorreu (o castigo ocorrido). Percebo que alguns se percutem em sinal de tristeza, enquanto estou falando e fico-vos muito penhorado ao ver-vos assim compadecidos. Penso que muitos dos que não pecaram também se entristecem, afligindo-se pelas feridas dos irmãos. É por isso mesmo que tanta pena me dá a idéia de que a tal rebanho venha o demônio fazer qualquer mal!

Se quiserdes, podemos fechar-lhe a entrada! De que modo? Se cuidarmos que os doentes recuperem a saúde, se abrirmos as redes da doutrina e procurarmos envolver os que sucumbiram às feras, se os arrancarmos da própria goela do leão!

Não me digais: “São poucos os que foram roubados ao rebanho!” Pois mesmo que fossem apenas dez, a perda não seria insignificante; mesmo que cinco, dois ou até um! O Bom Pastor deixou as noventa e nove ovelhas e foi em busca de uma, não regressando senão quando a pôde reconduzir e completar o número desfalcado de seu rebanho. Não deveis dizer: “trata-se de apenas um”! Pensai que se trata de uma alma, de algo que motivou a criação do mundo visível, a existência das leis, dos castigos, das disposições e dos inúmeros milagres e das obras de Deus; de uma alma, por quem Deus não poupou seu próprio Unigênito. Pensai quão grande preço foi pago por cada pessoa, não desprezeis sua salvação! Saí a sua procura, reconduzi-a, convencendo-a a não mais cair no mesmo vício! Se, porém, o pecador não voltar, a despeito de meus conselhos, de vossas exortações, farei então uso do poder que Deus me deu, para edificação e não para destruição vossa.

Por isso advirto-vos e digo em alta e clara voz que se alguém, depois desta minha exortação e ensinamento, voltar à perniciosidade dos teatros, não o receberei dentro destas paredes, não lhe administrarei os sacramentos, não lhe permitirei que se aproxime da sagrada mesa. Assim como os pastores afastam das sãs as ovelhas infestadas de sarna, para não as contagiarem, da mesma forma o farei.

Outrora o leproso tinha de ficar fora do acampamento e até, sendo rei, perdia seu diadema. Muito mais nós baniremos fora deste recinto sagrado aquele que for leproso na alma! Se no princípio usei de exortações e conselhos, enfim me verei na necessidade de recorrer à amputação. Já faz um ano que governo vossa cidade e não deixei de continuamente vos exortar. Permanecendo alguns na corrupção, recorrerei à amputação. Embora não tendo instrumento de ferro, tenho a minha palavra mais cortante do que o ferro. Embora não use o fogo, valho-me de uma doutrina mais ardente e comburente que o fogo.

Não desprezeis nossa advertência. Somos insignificantes e míseros, mas recebemos da divina graça uma dignidade que nos habilita a tais medidas.

Sejam expulsas, pois, tais pessoas, a fim de que os sãos tenham uma saúde mais robusta ainda e os doentes se restabeleçam de sua grave moléstia.

Se estremecestes ao ouvir esta sentença – pois vejo que vos afligis e compungis – convertam-se os culpados e a sentença estará suspensa. Pois assim como recebi o poder de ligar, recebi o de absolver.

Não queremos esmagar nossos irmãos, mas apenas defender a Igreja contra o opróbrio. Sim, porque os pagãos e judeus riem de nós quando não nos importamos com os pecados, e ao contrário nos elogiam e admiram a Igreja, ao verem e respeitarem nossa disciplina.

Portanto, quem quiser continuar na vida impura não entre na Igreja, mas seja censurado por vós, seja nosso inimigo comum. “Se alguém não obedecer ao que ordenamos por carta, observai-o e não tenhais relações com ele” [2Ts 3,14]. Fazei assim, não converseis com tal pessoa, não a recebais em casa, não comais com ela, evitai sua companhia nas viagens, passeios e negócios. Desta maneira será reconquistada com facilidade.

Assim como os caçadores costumam acossar de todos os lados as feras mais difíceis, também encurralemos os transviados, nós de um lado, vós de outro, e em pouco tempo os apanharemos nas redes da salvação.

Para isso indignai-vos, juntamente comigo, também vós! Condoei-vos, por amor às leis de Deus e separai do convívio os doentes e transgressores, a fim de recuperá-los para sempre. Não seria pequeno vosso pecado se negligenciásseis proceder assim, ficaríeis réus de grave castigo. Se já na vida civil não se pune somente o empregado apanhado em roubo de ouro ou prata, mas também se punem os que, estando a par do crime, não o denunciaram, muito mais na Igreja! Deus mesmo vos dirá: Como pudestes silenciar, vendo que se tira de minha casa, não ouro ou prata, mas a observância? Como pudestes silenciar vendo que alguém, após receber meu precioso corpo e participar do Sacrifício, se encaminha para tão grande pecado? Como silenciastes e suportastes isso? Como não o denunciastes ao sacerdote, para escapardes de castigos não leves?

Assim também eu, embora com tristeza, não pouparei a nenhum dos que me são caros! Antes afligir-vos agora e resguardar-vos da condenação futura do que agradar-vos e ser depois castigado convosco.

Suportar em silêncio tal corrupção seria imprudência e perigo, pois se cada um de nós tem de prestar contas de seus atos, eu sou responsável pela salvação de todos.

Não me calarei, pois, e farei até o impossível, mesmo com o risco de vos afligir, de parecer molesto e desagradável, para que possa apresentar-me sem mácula nem ruga diante do terrível Tribunal.

Oxalá os que pecaram se convertam, pela prece dos santos, e os que se mantiveram, ilesos cresçam em brilho e observância, para assim conseguirdes vós a salvação, nós a alegria, e ser Deus glorificado agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Comentários

Comentários