Caranaval: tempo de grandes sofrimentos para Nosso Senhor!

Qual é o melhor programa que um católico pode fazer nesse Carnaval!? Duas coisas muito importantes a filhos de Deus: de todos os modos  possíveis desagravar os pecados cometidos nesse tempo e procurar a sua santificação pessoal preparando-se da melhor forma para iniciar o tempo quaresmal com boa disposição espiritual. Mas antes de explorar esses dois itens, vamos recorrer as referências que temos na tradição dos santos sobre o polêmico tema da mundaneidade do Carnaval.

Não são poucas as citações dos santos sobre o trágico cenário espiritual do tempo do Carnaval.

A tradição da santidade

– São Francisco de Sales –  “O carnaval: tempo de minhas dores e aflições”.

– Santo Afonso Maria Ligório – “Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação, Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto, os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer e por um divertimento momentâneo. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm vergonha de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra o Santo Nome de Deus. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus. Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes”.

– São Vicente Ferrer – “O carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição”.

– Santa Margarida Maria – “Certa vez, em tempo de Carnaval, Jesus se me apresentou após a santa comunhão na figura de um “Ecce Homo” (“eis aqui o homem”, Jo 19,5), carregando sua Cruz, todo coberto de chagas e contusões. E brotando, de todo o seu corpo, seu Sangue adorável. Com uma voz dolorosamente triste, dizia: ‘Não haverá ninguém que tenha piedade de Mim e queira compadecer-se e tomar parte em minha dor vendo o lastimoso estado em que Me põem os pecadores, sobretudo neste tempo de Carnaval?”

– Santa Faustina – “Terça-feira gorda. [Nestes] dois últimos dias de carnaval tive a experiência da enorme torrente de castigos e pecados. O Senhor me deu a conhecer, num instante, os pecados do mundo inteiro cometidos neste dia. Desfaleci de terror e, apesar de conhecer toda a profundeza da misericórdia de Deus, me admirei que Deus permita que a humanidade exista. E o Senhor me deu a conhecer quem sustenta a existência da humanidade: são as almas escolhidas. Quando se completar o número dos escolhidos, o Mundo cessará” (Diário nº 926).

– Santa Gertrudes – “Se desejas aliviar minha dor, deves suportar uma dor e colocar-te à minha esquerda”(…) “meu coração como figura visível do meu amor pelos homens. Agora dou Minha face como figura visível da minha dor pelos pecados da humanidade (…) quero a comunhão reparadora na terça-feira do carnaval”.

– Santa Catarina de Sena – “Caranaval! Óh! Que tempo diabólico!”

– João Foligno, Servo de Deus – “O Carnaval é a colheita do Inferno”.

– Irmã Lúcia (Pastorinha de Fátima) – “(…) Nosso Senhor está descontente e amargurado com os pecados do Mundo e com os de Portugal, queixando-se da falta de correspondência, vida pecaminosa do povo, em especial da tibieza, indiferença e vida demasiado cômoda que levam a maioria dos sacerdotes, religiosos e religiosas. É limitadíssimo o número das almas com quem se encontra na oração e no sacrifício. Em reparação por si e pelas outras nações, Nosso Senhor deseja que em Portugal sejam abolidas as festas profanas nos dias de Carnaval, e substituídas por orações e sacrifícios, com preces públicas pelas ruas.” Nosso Senhor Jesus Cristo ainda falou essas palavras na alma da Irmã Lúcia: “Se o Governo português, em união com o Episcopado, ordenasse, para os próximos dias de carnaval, dias de oração e penitência, com preces públicas pelas ruas, suprimindo as festas pagãs, atrairiam, sobre si e sobre a Europa, graças de paz”.

– Santa Maria Cecília – “O mundo ofende-me no Carnaval. Os religiosos esquecem-me (…) sua piedade é superficial (…) seu amor, sem profundeza. Sou tão sensível a um amor desinteressado! Procuro amor. Sou tratado como um ser ausente (…) Deixa-me dar-te todo o meu amor. Tenho necessidade de dar-me todo inteiro”.

– São Carlos Borromeu – Jamais podia compreender como os cristãos podiam conservar este perniciosíssimo costume do paganismo. Nos dias de Carnaval, o santo castigava o seu corpo com disciplinas e penitências extraordinárias.

– Santa Teresa dos Andes – “Nestes três dias de carnaval tivemos o Santíssimo exposto desde a uma, mais ou menos, até pouco antes das 6h. São dias de festa e ao mesmo tempo de tristeza. Podemos fazer tão pouco para reparar tanto pecado” (Carta 162).

– São Pedro Claver – “Um oficial espanhol viu um dia São Pedro Claver com um grande saco às costas. — Padre, aonde vai com esse saco? — Vou fazer Carnaval; pois não é tempo de folgança? O oficial quer ver o que acontece: acompanha-o. O Santo entra num hospital. Os doentes alvoroçam-se e fazem-lhe festa; muitos o rodeiam, porque o Santo, passando com eles uma hora alegre, lhes reparte presentes e regalos até esvaziar completamente o saco. — E agora? – pergunta o oficial. — Agora venha comigo; vamos à igreja rezar por esses infelizes que, lá fora, julgam que têm o direito de ofender a Deus livremente por ser tempo de Carnaval.

– Santa Maria Madalena de Pazzi – “Carmelita e grande mística, passava as noites inteiras diante do Santíssimo Sacramento, oferecendo a Deus o sangue de Jesus Cristo pelos pobres pecadores.

– Beato Henrique Suso – “guardava um jejum rigoroso a fim de expiar as intemperanças cometidas”.

– São Felipe Néri – “convocava o povo para visitar com ele os santuários e realizar exercícios de devoção”.

Observação importante às citações

Estas são apenas algumas citações. E agora podemos prosseguir à nossa reflexão, e em primeiro lugar concluindo: ninguém tem maior autoridade que Nosso Senhor e os santos para opinar numa matéria tão relevante ao debate da fé. No caso, quem quiser contrariar alguma das coisas elencadas pelos santos, na verdade estará acusando-se a si mesmo de desautorizar as revelações particulares reconhecidas pela Igreja como legítimas e também a idoneidade dos santos como modelo de vida.

Ora, se assim era naqueles tempos dos santos, que comparado ao Carnaval de hoje não chega nem aos pés, o que diriam os santos e Jesus sobre a baderna dos carnavais da sociedade moderna hedonista mergulhada em luxúria e vícios de toda espécie. É de se pensar a gravidade desse tema. Por isso, devemos agora ir adiante refletindo sobre o desagravo, a santificação pessoal, o contexto, a exposição ao pecado e a omissão dos pastores mediante esta realidade.

Contexto

E tão triste ver a juventude se entregando a obscenidades no Carnaval. Muitos vivendo o sexo loucamente se jogando sobre um primeiro e qualquer que se vê por aí.

Quantos irmãos nossos que trabalham com o serviço de prevenção ao aborto recebem um mês, dois, três meses depois, meninas desesperadas por estarem grávidas e nem saberem elas quem é o pai, pois beberam tanto que mal lembram a quem se entregaram, e mesmo que lembrasse, lhe era apenas um desconhecido que passou pela sua vida levando junto aos blocos e micaretas a sua dignidade.

É vendável ao turismo sexual o Carnaval. Quantos vêm até o Brasil nesses tempos para consumir prazer.

A mídia vende isso, os governos fazem políticas públicas que implicitamente incentivam a pansexualidade, as ONGs colaboram que todos possam se prostituir ao seu modo preferido. Camisinhas são distribuídas, anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte são dados gratuitamente.

Infelizmente é um grande terror espiritual que a sociedade vive nesses dias, mas poucos vêem ou mesmo não fazem questão de ver pois não lhe é conveniente por algum motivo.

A exposição ao pecado

Muitos até apelam para dizer: “Há coisas boas e praticadas legitimamente no Carnaval”. E, acaso, negamos isso? Não. É bem verdade que diversas pessoas vão a determinados lugares até de boa intenção, mas se expõe a estímulos viciosos que levam ao pecado, seja pela vista não guardada, seja pelo que se dança ou se canta, ou mesmo por ter que ser conveniente com coisas que são ofensas a Deus.

Nós somos filhos de Deus. “Vós estais no mundo, mas não sois do mundo” (Jo 15, 19). Muitos cristãos portam-se como pagãos nesse tempo e dão mau testemunho aos seus irmãos ao invés de edificar pelo seu porte virtuoso.

Entre as alegrias mundanas e fazer companhia a Nosso Senhor que sofre, é nobre dar o tempo a Cristo, desprezando e renunciando até o que é lícito.

Ademais, sobre isto já nos advertira São Paulo: “Tudo nos é permitido, mas nem tudo convém” (I Cor 6, 12). Tudo o que? Tudo que é bom e legítimo nos é permitido. Porém, de tudo isso, muitas coisas devemoa renunciar porque não convém a filhos de Deus por alguma circunstância que pode tornar-se danosa ao testemunho de bons cristãos.

A omissão e a covardia no anúncio

Escandaloso também torna-se o fato de que muitos religiosos sejam convenientes com determinadas práticas sob o título de aproximação. Até conseguem fazer justificações bíblicas belas e poéticas, embora distorcidas de seu sentido verdadeiro.

A omissão dos pastores por medo ou por interesse ofende muito a Nosso Senhor chagado e ferido pelos pecados humanos. Entre os pecados dos mundanos que vivem na sombra da ignorância e a omissão dos pastores, gravidade maior tem o pecado dos religiosos que têm a missão, não só de orar para que o mundo se salve, mas de bradar em praça pública, tal como Jonas em Nínive para que a sociedade não seja deatruída e devastada por seus pecados.

Baseado no princípio profético de Ezequiel, os pastores serão julgados com maior gravidade pela Boa-Nova de Cristo que do mundo fora escondida. “O machado está posto” (Lc 3, 9).

O desagravo

Fica claro o convite de Cristo e dos santos a viver de desagravo nesse tempo. E o que é desagravo? Para explicar, vamos citar o exemplo da oração de Abraão suplicando pela vida das cidades de Sodoma e Gomorra. Milhares eram os habitantes dessas duas cidades (Gn 18, 22-33). Diante da ameaça divina, o patriarca tenta de todas as formas impedir a destruição das cidades argumentando com Deus: “Senhor, e se eu encontrar cinquenta justos, ainda assim destruiria a cidade?”; E Deus lhe respondeu: “Não, Abraão. Se encontrar cinquenta justos, não as destruirei”; Insistia Abraão diminuindo ainda mais o número de justos a ser encontrado em compensação dos pecados, e assim barganhou com Deus até chegar a conta final de dez justos. Mas sabemos que não foi encontrado o número suficiente e as cidades foram destruídas. O que Abraão fez foi uma audaz oração de desagravo, pois ele desejava que Deus retirasse a gravidade dos pecados daquelas duas cidades considerando a justiça de alguns. E já ali o desagravo era uma espécie de tentativa de expiação dos gravíssimos pecados da sociedade. Esse principio teológico inclusive permeia o conceito evangélico da redenção em Cristo, uma vez que Ele é o único justo necessário para salvar nossas vidas, expiar nossos pecados, desgravar as penas do mundo e evitar a sua destruição.

Então se Cristo já é o único justo que nos é necessário para desagravar os pecados do mundo, por que temos nós que desagravar os pecados cometidos pela humanidade? Porque isso para Cristo é um consolo em meio às suas dores na sua Paixão e Morte. Cada pecado é um espinho cravado, um açoite, uma tortura feita a Nosso Senhor, pois “Ele carregou sobre si nossos pecados e nossas enfermidades” (Is 53,4). Fazer obras de justiça é um modo de agradá-lo portando-se como as mulheres que choravam a sua dor, Verônica que enxugava seu rosto ensanguentado, o cirineu que ajudou levando uma Cruz que não era sua nos ombros, Maria e João que permaneceram até o fim com Ele em seu suplício.

Ninguém há de negar entre nós que os pecados da luxúria, da sexualidade desenfreada, das bebedeiras, e de que tantos outros vícios humanos sejam vividos à exaustão nesse tempo do Carnaval. Que “Via Crucis” para Nosso Senhor. Enquanto o Senhor padece com tantos pecados, o que haveremos de fazer? O que festejar? Como conseguimos nos esquecer Dele deixando-O a sós nesse sofrimento terrível. É verdade que também nossos pecados têm parte nesse sofrimento. Mas não queremos mais que o Senhor sofra sem consolação, seja pelos nossos pecados passados, seja pelos dos outros. E passamos a viver aquilo que desde Fátima ouvimos e recitamos em oração: “Amar por quem não te ama, te adorar por quem não adora, esperar por quem não espera em ti, e crer por quem não crê em ti”. E nisto haveremos de fazer como pela humanidade fez Abraão, e com maior fruto porque o fazemos em Cristo e Dele obteremos o fruto da nossa oração.

A santificação pessoal

Muitos nesse tempo aproveitam para fazer recolhimento espiritual, fazer uma atividade de meditação, tempo de oração e de vida sacramental, buscam a confissão. Com efeito Cristo lhes diz: “Escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42).

Estas práticas são muito adequadas ao bom propósito da Quaresma que é iminente neste tempo do Carnaval. Quantos cristãos dão o mal exemplo de cair na farra nestes dias, e vir ao dia tão singelo e penitencial de Cinzas como se nada tivesse acontecido antes. Alguns se duvidar viriam carregados e até mesmo com seus abadás suados de tanto pular. O espírito ainda parece eufórico e os sentidos dispersos. Quanto tempo levará para entrar verdadeiramente no espírito calmo, sereno e silencioso da penitência? O zunido do mundo certamente não lhe sairá do coração como que por um estalo, até porque uma memória de um homem em seu estado mental normal, ainda estará embriagada de imagens, sons e fatos que lhe marcaram naqueles dias anteriores. Talvez os hits da folia ainda esteja ritmando o seu incosciente. Sem dúvida alguma, um tempo tão importante e forte à nossa conversão merece melhor preparação e boas disposições.

Os exercícios pessoais servirão tanto para desagravar os pecados da humanidade quanto para santificar-se pessoalmente.

Enfim, cada um poderá fazer a sua escolha nesse Carnaval: fazer companhia às euforias do mundo e aos seus vícios, ou estar na presença de Nosso Senhor que sofre, junto Dele rezando pela conversão dos pecadores e para que a sociedade não pereça em suas paixões desordenadas.

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