Desabafo aos pastores: “o povo perece por falta de conhecimento”!

“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento” (Oséias 4, 6).

Hoje, no  4° Domnigo do Tempo Comum, o Evangelho nos fala sobre a autoridade de Jesus no seu modo de falar e também em suas obras. Esta mesma autoridade foi delegada à Igreja quando disse aos apóstolos: “ide e fazei discípulos meus todos os povos” (Mt 28, 19).

O que mais lamento é que muitos, que deviam usar a autoridade da Palavra como porta-vozes da Igreja, se escondem como crianças assustadas. O que temem? Temem gastar a vida? Perder as boas estimas do mundo? Perder os aplausos e os louros da glória? Ou ainda, não amadureceu o suficiente na fé para entender que “não se pode agradar a Deus e ao mundo ao mesmo tempo, ou servir a dois senhores”? Já não nos advertiu São Paulo: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial?” (II Cor 2, 14-15). Ainda não se convenceu de que não se pode ser amigo de todos? Pois ou somos amigos de Deus ou amigos de seus inimigos, muito embora devamos amá-los a todos sem lhes omitir a palavra que deve ser anunciada, renunciando inclusive a todo medo de ser taxado em pouca conta ou não ser amado pelos mundanos. Importa que para nós verdade é amor, pois a Verdade salva, uma vez que é Cristo mesmo.

Por causa destes é que a Igreja vem perdendo autoridade diante do mundo, exatamente por deixarem o mundo entrar na Igreja sem fazer nada e ela ser confundida como uma instituição que deve homologar uma vida de pecado sem qualquer aval do Evangelho. A perda da autoridade compromete seriamente o serviço a Cristo Jesus tendo um duplo efeito: a perda da eficácia apostólica, isto é, a esterilização do anúncio, e a infidelidade em massa entre os fiéis como causa desta carência da verdade.

Urge fazer tudo que pudermos para ela recuperar esta capacidade de conduzir as consciências através da autoridade na verdade que se fundamenta pelo testemunho coerente, intrépido, ousado e animado pelo espírito profético dos pastores. Só assim os apriscos não serão mais infestados de lobos sanguinários que fadigam e destroem o rebanho.

De fato, tentando instruir de modo fiel o povo santo de Deus, temos carregado um fardo que muitos pastores não se importam em carregar. O pior é que agem igualzinho aos fariseus do tempo de Jesus: “Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens. No entanto, eles próprios não se dispõem a levantar um só dedo para movê-los” (Mt 23, 4). E daí algum destes poderia nos perguntar: “Mas que fardo lhes atei?” Eu responderia: o teu silêncio é um fardo, a tua covardia e a tua falta de coragem são um fardo que mata a salvação de numerosas almas. Não percebes que uns estão sobrecarregados no anúncio porque muitos andam a calar-se? E pior é que além deste silêncio atar fardos pesados a tão poucos que ousam abrir a boca, estes fariseus modernos não movem um dedo sequer para amparar os que o fazem. E mais, quando alguém faz qualquer coisa para ajudar os fiéis, e, os santifica, ajuda na conversão, fortalece, reanima, procura lhes dar esperanças, repetem aquilo que já havia repreendido Jesus das atitudes dos religiosos de seu tempo: “Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo” (Mt 23, 13).

O juízo será redobrado porque não fazem e não deixam os outros fazer. Pois se ao menos não fizessem, e a dor na consciência de não fazê-lo lhe afetasse a ponto de deixar que outros o façam, talvez o juízo não se asseverasse tanto. Bom seria que todos que o devem, o fizessem. Mas se a covardia impera no coração de tantos pastores do povo de Deus, então ao menos deixe que aqueles que o querem, possam fazê-lo livremente e em paz, enquanto comem o seu pão e bem o seu vinho sossegadamente. Bem, apesar dos pesares, em certo sentido, isto até seria um desagravo das próprias penas reservadas aos omissos e acovardados no dia do juízo.

Não! Nosso povo não pode perecer em tempos de tamanha confusão. Vamos seguir adiante, dar a vida, gastar-nos, pois nada levaremos daqui, e nem mesmo nosso bom nome permanecerá, mas perecerá no fogo inextinguível da história. Nossa vida é sopro: “Lembra-te, ó homem, que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Então que faremos do que nos resta de tempo a este nosso barro do qual fomos feitos? Dar o sopro da vida recebido aos que morrem no pecado, nos vícios e na ignorância mundana.

Proveitosa é para nós esta imagem do sopro da vida. Ora, por exemplo, quando alguém está morrendo afogado e é resgatado, às vezes sem fôlego e já quase morrendo, de repente é salvo por outro e que faz o que chamamos de respiração boca-a-boca, pela qual alguém dá seu próprio fôlego devolvendo ao vitimado o hálito de vida já quase perdido. Com efeito, a Palavra de Deus é este fôlego, é o hálito de vida do qual nosso povo precisa para não perecer.

Nosso país vive momentos graves. O mundo inteiro é sacudido por tribulações de todo lado. E a Igreja vive suas crises também. E o que queremos diante deste tétrico cenário? Profetas encurralados? Antes que eles rujam como leões de seus púlpitos, em suas mídias, e ao lado de sua gente. Como diria uma alma muito santa: “que sejam no púlpito um leão”!

Ora, Cristo do “púlpito” era um leão, vejam dizer no Evangelho de sua autoridade admirável, pois rugiam as palavras, rugiam as suas obras, embora naquela Via Crucis, era aparentemente apenas um cordeiro. E o que isto quer nos dizer, irmãos!? Há momento para rugir como um leão na brava selva deste mundo. E há momento para ser cordeiro, ser imolado, martirizado e de ser na cruz de nossa missão vítimas de um cruento sacrifício. Acho estranho demais que um verdadeiro discípulo se esquive de uma e de outra coisa. Pois não quer ser cordeiro, porque será sacrifício vivo, e não quer ser leão, porque assim será cordeiro inevitavelmente. Então o que um homem assim quer com Cristo? Um peso morto a ser carregado? Não, isso não é ser discípulo, e alguém assim é incapaz de ser apóstolo para o nosso mundo, uma vez que é egoísta e mesquinho, e não pensa noutra coisa, a não ser em preservar a sua própria vida.

Ah, meus irmãos, quando Cristo ruge na boca dos pastores, que carinho e segurança sentem as ovelhas. É a voz de Cristo que as acalma e confirma. Sabem que nada as atingirá, pois há quem lhes guarde.

Ora, e por quê as ovelhas em alguns cantos deste rebanho berram desesperadas? Porque os pastores não rugem, mas miam feito gatinhos. “Esto vir” – quer dizer – “Seja homem”!

Não é possível que seja assim. Se não temos compaixão do povo que perece, ao menos tenhamos temor do juízo que está sobre nós. Nós os pastores estamos sob aquele princípio profético de Ezequiel desde o Antigo Testamento e que se agrava com a Boa-Nova de Cristo: “Se não anunciarmos, seremos culpados do povo perecer na ignorância”. Livrem ao menos suas próprias cabeças, pois “o machado já está posto” (Lc 3, 9). E “quem é que vos ensinou a fugir do juízo que está por vir?” (Mt 3, 7).

Graves tempos, e portanto, graves responsabilidades. É tempo para corajosos, onde covardes não serão seguidos pelos fiéis, pois o rebanho procura quem os acuda dos perigos e dos lobos.

Quanto mais pastores poderiam dividir com os irmãos o nosso fardo. De quantos cirineus precisamos! Sobre o ombro, há uma cruz muito pesada. Queremos mais ombros, e não para chorar acovardadamente fugindo da cruz, mas para dividir o peso da cruz como homens. Para isto, precisamos de irmãos que sejam pastores solidários.

Não fazemos mal algum em anunciar, muito embora os mundanos nos façam parecer maus, e eles se fazem parecer bons para seduzir e enganar. Não fez isso a serpente no Paraíso contra Deus ao lhe fazer parecer malvado em proibir e dando-se ela própria como boa e generosa amiga de Adão e de Eva? Quanto mais o diabo não o fará com os servos e apóstolos destes tempos modernos, que são os últimos, e nos quais ele está “arrastando com sua calda” em sua vergonhosa queda “terça parte das estrelas” (Cf. Ap 12, 4), e que são os cristãos que “brilham como astros” (Fl 2, 15) no meio desse “mundo que jaz no maligno” (I Jo 5, 19).

Profetas, pastores que amam a Igreja, saiam para fora, e venham à luz. Não deixem sós os que já são apedrejados por causa da Palavra que fielmente buscam anunciar. E unidos neste martírio diário e dando a vida pelo rebanho seremos ultrajados pelo mundo, mas no fim de tudo coroados por Deus em sua glória. É para já! As almas têm pressa e há muitos com sede de salvação!

Padre Augusto Bezerra

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