De antemão, sabe-se por meio da Escritura que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos em línguas de fogo. Sucedeu que veio um forte barulho vindo do céu, e aconteceu o grande milagre da glossolalia, em que a medida que um falava todos escutavam cada qual em sua própria língua. Eram palavras inteligíveis e racionais, mas um fenômeno misterioso. O admirável não era falar palavras sem sentido, pois não foi isso que aconteceu, e sim como Deus é misericordioso em unir o que estava dividido pelo pecado da soberba desde a pretensão humana ao edificar a Torre de Babel querendo chegar ao céu para roubar a glória de Deus. Agora é Ele quem desce das suas alturas celestiais para nos levar onde queríamos chegar sem Ele.

Santo Tomás de Aquino

SantoTomás de Aquino, ao comentar o Capítulo XIV da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, escreveu: “Quanto ao dom de línguas, devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas” (S. Tomas de Aquino, Comentário a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pag. 178)

Para o santo doutor o dom de línguas foi dado aos primeiros cristãos para que anunciassem a religião verdadeira com mais facilidade.

Os Coríntios, por sua vez, desvirtuaram o verdadeiro sentido do dom de línguas:

“Porém, os coríntios, que eram de indiscreta curiosidade, prefeririam esse dom ao dom de profecia. E aqui, por ‘falar em línguas’ o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la; esse tal fala em línguas. E também é falar em línguas o falar de visões tão somente, sem explicá-las, de modo que toda locução não entendia, não explicada, qualquer quer seja, é propriamente falar em língua” (S. Tomas de Aquino, Comentário a la primera espístola a los Conrintios, Tomo II, pg 178-179.).

O milagre das línguas na pregação de Sto. Antônio

“E todos estiveram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em diversas línguas, segundo o Espírito Santo lhe dava a falar”. Falavam todas as línguas; ou também falavam sua língua hebréia, e todos os entendiam, como se falassem na língua de cada um dos ouvintes” (PÁDUA, Santo Antônio de. Sermones, Tomo I. Domingo de Pentecostes (I). Buenos Aires: El mensajero de san Antonio, 1995, p. 333.). “Sobre todas memorável ficou a pregação, que o santo franciscano fez no dia da Ressurreição. Tinham afluído, como vimos, a Roma gentes das diversas regiões e nacionalidades da terra, como latinos, gregos, alemães, franceses, ingleses e de outras línguas. Pregou também Santo Antônio, segundo a vontade do sumo Pontífice, naquela grande solenidade; e este seu sermão foi um digno remate e coroa aos seus triunfos oratórios. Inflamado pelo Espírito Santo, anunciou a palavra de Deus de um modo tão eficaz, devoto e penetrante, e com tal suavidade, clareza e inteligência, que todos os presentes, apesar da diversidade das línguas, lhe entenderam as palavras, tão clara e distintamente, como se houvesse pregado na língua de cada um” (MARTINS (S.J), Manuel Narciso. Vida de Santo Antônio. Bahia: Duas Américas, 1932, p. 74)

São Francisco Solano

“São Francisco Solano, cuja festa comemoramos no dia 14, santo genuinamente franciscano, aprendeu milagrosamente em 15 dias o dialeto de uma tribo indígena. Adquiriu também o dom das línguas, falando em castelhano a índios de tribos diferentes, sendo entendido como se estivesse expressando-se no dialeto de cada um. Uma vez, por exemplo, estando em San Miguel del Estero durante as cerimônias da Quinta-Feira Santa, veio uma terrível notícia: milhares de índios de diversas tribos, armados para a guerra, avançavam para atacar a cidade. A balbúrdia foi geral. Só Frei Francisco, calmo, saiu ao encontro dos selvagens. Estes, que o respeitavam, pararam para o ouvir. E cada um o entendeu em sua própria língua. Ficaram tão emocionados, que um número enorme deles pediu o batismo. No dia seguinte, viu-se essa coisa portentosa: ao lado dos espanhóis, esses índios convertidos participavam da procissão da Sexta-feira Santa, flagelando-se por causa de seus pecados” (Cf. Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo III, p. 184; Les Petits Bollandistes, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IX, pp. 8 e ss; Enriqueta Vila, Santos de America, coleção Panoramas de la Historia Universal, Ediciones Moreton, S.A., Bilbao, 1968, pp. 93 e ss. ).

Santo Irineu

No séculos II, Santo Irineu (c.115-200) se refere a uma fala extática não-idiomática, a qual critica duramente. Descreve e condena as ações de um certo Marcos que “profetizava”, sob influência “demoníaca”. Marcos compartilhava o seu “dom” e outros também “profetizavam”. Seduzia mulheres e lhes prometia o carisma. Quando a recebiam, falavam algo sem sentido:

“Então ela, de maneira vã, imobilizada e exaltada por estas palavras e grandemente excitada(…) seu coração começa a bater violentamente, alcança o requisito, cai em audácia e futilidade, tanto quanto pronuncia algo sem sentido, assim como lhe ocorre” (Contra Heresias I, XIII, 3).

Irineu também se refere ao dom de línguas dos apóstolos e da época em que vivia. Cita II Cor. 2,6, explicando que “os perfeitos” falam em “todos os tipos” de línguas:

“(…) nós também ouvimos muitos irmãos na Igreja,(…) e que através do Espírito, falam todos os tipos de línguas, e trazem à luz para o benefício geral as coisas escondidas dos homens, e declaram os mistérios de Deus(…)” (Contra os Hereges V,VI,1).

Ao informar que falam todos os tipos de língua, Irineu parece se referir a línguas que admitem classificação. O curioso é que o movimento do herético de Montano (c.150-200) envolveu um êxtase religioso, com elocuções não-idiomáticas.

De acordo com descrições registradas por Eusébio de Cesaréia, Montano entrou em uma espécie de delírio e balbuciava “coisas estranhas”. Ele “encheu” duas mulheres com o “falso espírito”, e elas falaram “extensa, irracional e estranhamente”:

“ficou fora de si e [começou] a estar repentinamente em uma sorte de frenesi e êxtase, ele delirava e começava a balbuciar e pronunciar coisas estranhas, profetizando de um modo contrário ao costume constante da igreja (…) E ele, excitado ao lado de duas mulheres, encheu-as com o falso espírito, tanto que elas falaram extensa, irracional e estranhamente, como a pessoa já mencionada” (História da Igreja V,XVI:8,9 ).

Depreende-se deste texto que o fenômeno lingüístico montanista envolvia: (a) uma forte expressão emocional, deduzida das menções de “êxtase”, “frenesi” e delírio; (b) o texto indica uma linguagem não-idiomática, de “balbucios”, e um falar “estranho”, “irracional”.

Orígenes

Orígenes (c.195-254) em sua época, se opôs a um certo Celso, que clamava ser divino, e falava línguas incompreensíveis:

“A estas promessas, são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, das quais nenhuma pessoa racional poderia encontrar o significado, porque elas são tão obscuras, que não têm um significado em seu todo” (Contra Celso, VII:9).

Uma linguagem ininteligível soa “estranha”, “obscura” e “fanática” para Orígenes. Assim como para Irineu e mais tarde foi para Eusébio. Para Orígenes, as palavras “completamente ininteligíveis”, eram mais o subproduto de uma distorção religiosa.

Arquelau

Arquelau, bispo de Carcar no fim do segundo século comenta sobre o dom de línguas no Pentecostes. O contexto indica uma identificação como idiomas naturais. Para Arquelau, Mane era incapaz de conhecer a língua dos gregos porque não possuía o dom de línguas do Espírito, que o capacitaria a entendê-las:

“Ó seu bárbaro persa, você nunca foi capaz de conhecer a língua dos gregos, dos egípcios, ou dos romanos, ou de qualquer nação, (…). Pelo que diz a Escritura? Que cada homem ouvia os apóstolos falarem em sua própria língua através do Espírito, o Paráclito” (Disputa com Mane, XXXVI).

Didaqué

Na Didaqué Siríaca comenta-se o evento do Pentecostes. Os discípulos estavam preocupados sobre como iriam pregar ao mundo, se eles não conheciam os idiomas. Então, receberam o dom de falar idiomas estrangeiros e foram para os países onde esses idiomas eram falados:

“de acordo com a língua que cada um deles tinha diferentemente recebido, para que a pessoa se preparasse para ir ao país no qual a língua era falada e ouvida” (Didaquê Síriaca, seção introdutória).

São Cirilo

No século IV, Cirilo (c.315-387), em seus Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16), interpreta o dom de línguas do Pentecostes como idiomas estrangeiros. Isto indica que, pelo começo do quarto século, a glossolalia apostólica também era tida como um idioma comum. Cita por nome alguns idiomas falados pelos apóstolos:

“O galileu Pedro ou André falavam persa ou medo. João e o resto dos apóstolos falavam todas as línguas para aquela porção de gentios (…) Mas o Santo Espírito os ensinou muitas línguas naquela ocasião, línguas que em toda a vida deles nunca conheceram”.

São Gregório Nazianzeno

Para Gregório Nazianzeno (c.330-390), o dom de línguas em Atos também se referia a idiomas estrangeiros: “Eles falaram com línguas estranhas, e não aquelas de sua terra nativa; e a maravilha era grande, uma língua falada por aqueles que não as aprenderam”. Gregório ainda argumenta que o dom foi de falarem línguas estrangeiras e não dos ouvintes as entenderem. Segundo ele, se fosse assim, o milagre não seria dos que “falam” em línguas, mas “dos que ouvem” (Do Pentecostes, oração XLI:16).

Santo Ambrósio

Ambrósio (330-397), embora não discuta a natureza do dom de línguas, ressalta que cada pessoa recebe dons espirituais diferentes.

Para ele, “todos os dons divinos não podem existir em todos os homens, cada um recebe de acordo com a sua capacidade ao que deseja ou merece” (Do Espírito Santo II, XVIII, 149).

São João Crisóstomo

São João Crisóstomo (347-406) é o primeiro a interpretar detidamente a glossolalia em I Coríntios. Em sua conhecida retórica de orador, questiona a ausência do dom de línguas: “Por que então eles aconteceram, e agora não mais?” São João Crisóstomo detalha sua explicação. Ele vê o dom de línguas do N.T. como um fenômeno reverso ao da Torre de Babel. Os discípulos receberam o dom porque deveriam “ir afora para todos os lugares (…) e o dom era chamado de dom de línguas porque ele poderia falar de uma vez diversas línguas”.

Comentando I Cor. 14,10, aplica a passagem à diversidade de idiomas: “i.e., muitas línguas, muitas vozes de citianos, tracianos, romanos, persas (…) inumeráveis outras nações.” E sobre I Cor. 14,14, São João Crisóstomo sublinha que aquele que fala em línguas não as entende, porque não conhece o idioma em que fala:

“Pois se um homem fala somente em persa ou outra língua estrangeira, e não entende o que ele diz, então é claro que ele será para si, dali em diante, um bárbaro (…) Pois existiam (…) muitos que tinham também o dom da oração, junto com a língua; e eles oravam e a língua falava, orando tanto em persa ou linguagem latina, mas o entendimento deles não sabia o que era falado”. (Homilias na Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo XXXV).

Santo Agostinho

Para Agostinho (354-430), o dom de línguas concedido aos apóstolos no Pentecostes se tratava da capacidade sobrenatural de falar línguas estrangeiras. Demonstra que, no período apostólico, o Espírito operava:

“sensíveis milagres… para serem credenciais da fé rudimentar” (Contra os Donatistas: Sobre o Batismo, III:16).

Agostinho reforça o dom de línguas como idiomas naturais. Eram línguas que os discípulos“ não tinham aprendido”. E, na pregação posterior, o “evangelho corria através de todas as línguas” (A Epístola de João, Homilia VI,10).

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