A minha trajetória vocacional e como descobri que Deus me chamava ao sacerdócio

Entrevista com o Papa Francisco em 27 de julho de 2013

Escrevo brevemente sobre esta minha trajetória vocacional porque alguns vocacionados me cobraram um testemunho nesse sentido. Outros seguidores manifestaram a mesma curiosidade. E como não tinha nada pronto e tinha pouco tempo para fazê-lo, prometi escrever no site futuramente algo sobre para compartilhar com todos. Aproveitarei também para dizer como começamos todo esse apostolado virtual.

Minhas origens

Sou carioca, nascido na maternidade Praça XVI situada às margens da Baia de Guanabara, no dia 18 de maio de 1987. Meus pais, Raimundo e Estela, sempre foram católicos. São de origem nordestina. Nasceram e viveram sua juventude no estado do Ceará em São Benedito na Serra Grande, que muito faz lembrar a região serrana do Rio, apenas com algumas diferenças estacionais do clima. Ambos, como era costume na época esta mobilidade da onda migratória para as grandes cidades, vieram para o Rio de Janeiro. Se conheceram mais proximamente aqui há cerca de 40 anos atrás.

Como habitual à criação dos homens interioranos, fomos, eu e meu irmão Luiz, educados com as mesmas tradições e valores. A fortaleza paterna e a maternidade sacrificante foram duas colunas fundamentais para a construção de nossa formação. Sem isso não teríamos seguido a lugar algum.

A busca pela estabilidade de vida na grande cidade fez meus pais por algum tempo se distanciarem da prática da fé pelo ativismo da vida urbana e do trabalho. Não fora fácil construir uma vida familiar nessas circunstâncias arriscando dia após dia. Mas, de todo modo, eles faziam questão de que recebêssemos todos os valores da fé pela catequese e frequência aos sacramentos. E, logo mais tarde, durante a minha adolescência, retornaram à Igreja para grande alegria e santificação da nossa casa.

Portanto, desde criança tinha uma vida de fé e de Igreja que se tornaram outros fundamentos para tudo aquilo o que viria depois, e foi assim que Deus queria iniciar a sua obra em mim como alguém que ia me cercando de todos os lados para convencer-me e seduzir. Para ser mais preciso comecei minha caminhada de fé durante a catequese aos 7 anos.

Primeiro encontro com Cristo

Tive catequistas muito marcantes. Um deles já falecido, chamava-se Jaci, uma abreviação para Jacinto. Morreu como um homem virtuoso e conhecido por ter uma vida santa e ser um pai e esposo com muitas qualidades espirituais. Nosso pároco naquele tempo, logo após seu falecimento disse: “Já vi pessoalmente pais de família santos, mas com uma fé como a do Jaci nunca”.

Outra catequista que tive além dele foi aquela que viria a se tornar mais tarde a minha madrinha de Crisma, a Tia Cristina. Também fez parte dessa trajetória catequética a Tia Dorotéia, igualmente de especial importância.

Lembro-me como se fosse hoje, eu entrando pela primeira vez na Capela Divino Espírito Santo da minha Paróquia de origem, Nossa Senhora de Guadalupe, que fica situada no Complexo do Alemão na cidade do Rio de Janeiro. Ao chegar à porta da Capela recordo que minha madrinha levantou-se num gesto acolhedor para receber meu pai para a minha inscrição. E ficou na memória aquela alegria, sorriso e acolhida. Compreendo hoje que não era somente ela, e sim Deus nos acolhendo por ela na simplicidade dos gestos.

Gostava de ajudar em tudo que eu podia. Precisava sempre estar fazendo algo. Nem que fosse distribuir folhetos na entrada da Igreja ou dobrá-los, pois às vezes a folha A3 da missa vinha aberta para que depois as próprias pessoas das comunidades dobrassem.

Em casa eu dizia aos meus pais que ia ser músico quando crescesse. Gostava muito de cantar. E com isso, ainda na catequese me oferecia para fazer algo na música. Não adiantava não querer que eu ajudasse, eu ficava na cola do ministério de música. Porém meu desejo infanto-juvenil de cantar consistia realmente muito mais na música secular, o que noutro momento Deus viria a mudar radicalmente.

Fiz a primeira comunhão aos 9 anos. Foi aí que pensei pela primeira vez na vida em ser padre ao ver o sacerdote celebrar e achando belo tudo aquilo.

Ia a cada domingo de manhã tomar café na casa de paroquianos junto com o pároco que vinha celebrar noutra Capela que comecei a frequentar, e que se chamava Bom Pastor. Fazia questão de fazer o mesmo todo domingo. Gostava de ouvir o padre, estar com os paroquianos.

E lá o padre falava muito de seminário. Recordo-me que falava do Seminário Menor, onde iam aqueles que não tinham feito ainda o ensino fundamental completo e o médio. Isso ficou na minha cabeça.

Daí cheguei certo dia em casa depois da missa e disse aos meus pais que eu ia ser padre, que queria entrar para o Seminário Menor. Já eles, considerando ser coisa de criança, nem disseram que sim nem que não. Apenas fizeram perguntas de como era aquilo, e riam do ar de gravidade e decisão com que dizia.

Tempo de sonhar: a juventude

Tudo isso de fato logo passou. A idéia de ser músico persistiu. Mas logo comecei a conviver com outra possibilidade, seguir a carreira de jornalismo. Talvez isso tenha a ver exatamente com meu jeito comunicativo e extrovertido próprio do temperamento. Gostava de conversar, conhecer as coisas, estar por dentro de tudo e comunicar. Além de gravar músicas em fitas K7 cantando, às vezes fingia ser radialista lendo manchetes do dia. Isso quando não pegava o telefone fixo de casa e ligava dando trote nas pessoas falando que era da Rádio tal, avisando a pessoa de que tinha sido sorteada em algo. Logo as pessoas viam que era uma criança brincando de radialista e desligavam. Minha mãe estranhava os números da lista de chamadas. Resolveu travar o telefone com uma chavinha que ainda hoje algumas marcas de aparelho têm. Acabou com minha brincadeira, da qual só veio saber muito tempo depois quando já maior contei para eles tal façanha que realizava enquanto trabalhavam.

Participei da Perseverança com outros adolescentes, grupo jovem paroquial, continuava a rotina que construiu o meu futuro: casa, Igreja e escola. Tudo isso serviu para forjar a minha personalidade.

Com uma frequência maior comecei a cantar na Igreja e me maravilhar pela música religiosa. Foi o tempo em que também acompanhei o nascimento de um programa da paróquia numa rádio comunitária da região e ia lá para ajudar como o “Mascote da Rádio”, tal como era chamado pelo pessoal. Rezava com eles o terço e de vez em quando o pároco ia lá dar a benção ou dar alguma palavra. Certa vez estávamos rezando quando numa das contas do terço fiz todos caírem na risada fazendo até mesmo um padre sair dos estúdios por não se aguentar de tanto rir. O que eu fiz? Simplesmente rezei: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora é a hora da nossa morte. Amém”. Estamos todos vivos até hoje.

Mas o estúdio era alugado, pois era uma rádio sob os cuidados de um pastor que tinha boas relações com a nossa comunidade paroquial. Certa vez, enquanto os estúdios estavam vazios com transmissão evangélica automática, cheguei mais cedo, antes de todos que apresentavam o programa católico chegarem lá. Não tinha nada para fazer e resolvi pegar uma oração devocional de Nossa Senhora. Sentei no lugar do locutor achando que o microfone estava fechado. Comecei a ensaiar a oração que ia pedir ao padre que fizesse somente no final do programa. Porém, o microfone estava aberto. Enquanto o pastor pregava na gravação que estava sendo transmitida, eu rezava à Nossa Senhora fazendo repetidas vezes a leitura da oração, até fazer sem gaguejar e errar qualquer palavra. Acordaram o pastor em sua casa dizendo a ele que alguém tinha invadido o estúdio da rádio, e estava rezando para a Virgem Maria, e ele veio correndo para a rádio para salvar a pregação do pastor tão bem preparada. Do resto, eu só lembro que o padre surpreso ria com o fato depois de contado.

Primeira mudança de curso

Logo desisti de qualquer possibilidade de seguir a carreira de música secular, isso por volta dos 14 anos. Pedi ao meu pai que  não me levasse mais aos karokês que tanto eu pedia e aos concursos que participava. Disse que podia doar meus CDs de música secular e fitas que colecionava, pois ia me dedicar a cantar somente para Deus agora.

Nesse tempo, conheci um círculo de amigos na Igreja que me acompanhou por um longo tempo e me ajudou muito na fé. Com eles formamos uma banda chamada “Exército de Cristo”. No mesmo período comecei a preparação para o Crisma e por falta de gente para cantar, concederam a mim o direito de fazê-lo mesmo não sendo da equipe. Fazia o papel de animador do grupo com as músicas e além disso tentava ajudar na oração. No ano seguinte, tendo feito o Crisma, continuei ajudando nessa função.

Na mesma época, comecei a namorar. Como qualquer outro jovem do meu círculo, dizia que queria “ser pai, ter uma família e muitos filhos”. Tanto que costumava brincar com meu pai: “Ah… pai, o sr. só vai ter dois filhos mesmo? Vixe! O sr. é muito fraquinho, quero ter pelo menos cinco filhos e talvez tenha muito mais. Vou encher a casa de filhos”. Enquanto ria, dizia: “Ora, me respeita, macho”.

Se alguém perguntasse: “Você já pensou em ser padre?” Eu dizia: “Deus que me livre! Quero ser pai e ter muitos filhos”.

Ainda durante o período do Crisma, saia com meus amigos para um lugar chamado “Bar Encontro”, que era um barzinho católico onde tínhamos eventos musicais de grupos da nossa Igreja. Conhecemos muitos cantores católicos nesse tempo. Participei inclusive de um dos seus festivais, no qual ganhei como melhor intérprete dentre os candidatos.

Desejo de Deus

Nesse mesmo período de preparação do Crisma cresceu meu entusiasmo por conhecer melhor a Doutrina da Igreja. Perturbava um seminarista, que hoje já é padre, a me responder as perguntas que tinha. Eram tantas que um dia ele resolveu me dar um Catecismo da Igreja Católica ensinando como devia manuseá-lo. Achei o máximo. Tinha resposta para tudo que eu queria.

A música também me levou ao grupo de oração da RCC, onde entrei em princípio para auxiliar na animação e na condução da música. Foi quando apareceu em mim o desejo de pregar a palavra. E eu insisti algumas vezes com o coordenador de que Deus queria que eu pregasse também. Até que um dia, depois de muito discernimento do coordenador, fiz minha primeira pregação. Foi sobre a passagem de Pedro andando sobre as águas com Jesus. Lembro-me como se fosse hoje. Esta pregação foi importantíssima para Deus mexer comigo em outro sentido num tempo mais a frente.

O contato com o mundo da comunicação

Começando o ensino médio, e já não querendo seguir carreira musical, e apenas cantando na Igreja, queria ir adiante com a idéia de ser jornalista. Fiz um concurso para uma escola técnica do Estado e passei. Escolhi fazer o curso de audiovisual na Escola Técnica Estadual Adolfo Bloch. Foi um período decisivo.

Deus agora só tinha mais dois muros para derrubar afim de fazer sua passagem definitiva e me convidar, o fato de eu querer ser jornalista e ter uma família.

No segundo ano em que fazia o curso, aprendendo o que era uma produção, desenvolvendo meu tato com a realidade dos estúdios, bem como as noções de cinema, marketing, fotografia e filmagem, além de outras coisas próprias desse meio, sentia-me satisfeito, mas não preenchido e realizado, o que disparou um alerta em mim. Namorava também, estava satisfeito, mas o mesmo se dava. Faltava algo.

O início de uma nova rota nos mares de Deus

Isso me angustiava. Deixava-me encabulado. “Como pode? Estou num curso tão bom. Nem todos tiveram essa oportunidade. Gosto disso. E eu quero casar e ter filhos, mas porque o namoro não me satisfaz?” Eu pensei duas coisas: “é que preciso buscar a santidade, e ver se de fato é essa profissão que devo seguir”. Contudo, não se passou a idéia do sacerdócio de imediato em minha cabeça.

Eu tinha que dar um jeito de saber logo. Estava indo para o terceiro ano, e teria que me preparar para o vestibular. Não tinha tempo a perder. Era necessária uma posição logo. Fiquei matutando o que poderia fazer para chegar a uma decisão sobre meu futuro.

Pensei o seguinte: “Deus é bom. Tudo que Ele pensa sobre nós e quer só pode ser bom para nós, um caminho seguro mesmo com alguma dificuldade. Se Ele me queria feliz de fato, a melhor pessoa a perguntar seria exatamente a Ele”. Mas como ia fazer isso? Como Deus responde a pergunta de uma pessoa sobre seu futuro? Daí me veio algo, sem dúvida alguma inpirado por Deus: “Já sei! Vou à missa todos os dias a tarde, e quando terminar, tendo comungado a Eucaristia, vou para Capela perguntar a Deus até me responder qual é a profissão que quer para mim. E como me dirá? Ele mesmo saberá dar o sinal para que eu entenda”. Ainda sim não me passava pela cabeça ser padre.

Ora, inteligência de fé que me levava a refletir só podia ser obra do Espírito Santo. Até hoje me pergunto de onde me vinham tais coisas senão de Deus: a falta que me fez sentir para me mover, a lógica de fé empregada para me dirigir a Ele, e daí por diante.

Então comecei ir com certa frequência à missa. Ia numa paróquia vizinha chamada São Tiago no bairro de Inhaúma. Participava ali porque durante a semana a minha paróquia de origem não tinha missas em alguns dias. Além disso pela locomoção era mais fácil chegar. Lá até hoje reside o pároco da época, já muito velhinho, chama-se padre José dos Santos. Em nossa diocese é conhecido como um santo em vida.

Foram as missas desse padre que começaram a mexer comigo. Olhava para ele tão simples e idoso, mas com um coração extraordinário. Ele gerava mistério e me provocava um grande respeito, bem como admiração pelo sacerdócio. Não era um padre portentoso e uma espécie de grande retórico, um homem de opulências. Era como pároco um padre, simplesmente a essência de um padre sem demasidos acréscimos. Isso me tocava. Durante suas singelas homilias que fazia com uma voz baixa, ensaiava um pensamento: “Se eu fosse um padre, gostaria de ser como ele”. Mas como um vulto, ia-se logo a idéia.

Os diálogos com Jesus

Terminada a missa estava lá eu na Capela olhando para aquelas linhas douradas do sacrário que formavam um belo desenho sobre a madeira de um “Chi Rho” e um peixe no meio. Ali conversava com Deus: “O que o Senhor quer de mim? Deseja que eu seja um jornalista? Médico? Advogado? Engenheiro? O que é melhor para minha vida? Dá-me uma resposta, um sinal ao menos”.

Gostava tanto daquela Capela que certa vez pedi ao padre para fazer Vigília lá sozinho. Claro que não deixou por zelo e prudência. Seu não foi tão sereno que não era necessário mais nada para me convencer. Sua autoridade e força de convencimento estavam exatamente em sua mansidão.

Com maior incidência pessoas da minha comunidade começaram a perguntar: “Já pensou em ser padre”? A resposta óbvio era a de sempre. Até que um novo vigário paroquial chegou e perguntou o mesmo. E ele falou comigo e outro jovem o que era o seminário, como ele se sentia agora sendo padre, etc. Aquilo ficou em minha mente. De tal modo, que se alguém me perguntasse de novo a minha reação já era bem diferente em relação a isso. Dizia, “quando criança, depois da comunhão, eu cheguei a pensar sim, mas agora não tanto”. Na verdade, estava me desarmando e percebendo coisas novas. Embora com resistências.

Dei-me conta de que dentre tudo que tinha na minha vida e fazia, servir a Igreja era o que mais me realizava, que quando estava ali nada mais faltava e que não precisava contar as horas. Era quase minha casa mesmo. Daí me veio um novo pensamento: “Mas já faço tanta coisa na Igreja, canto, rezo e até já prego. Porém eu quero mais que isso? Rindo em meus pensamentos refletia: espera! Não! Para fazer muito mais é preciso ir além, e a melhor forma de fazê-lo é o sacerdócio. Não”!

As respostas de Deus

Continuei a ir às missas cotidianamente. E por fim chegou uma semana especial para mim. O padre daria uma formação na nossa paróquia sobre as cartas de Paulo sem nos passar previamente nenhum tema. Fui à missa na paróquia vizinha e depois fui conversar com Jesus na Capela. Disse: “Senhor, eu irei a uma palestra do padre hoje lá na paróquia. Por favor, dá-me um sinal hoje. Fala pela boca do padre e deixa eu saber o que tanto deseja que eu seja”. Fui à formação. Quando ele nos pediu para abrir a Bíblia, só a passagem era suficiente, mas a sua pregação foi profunda e ajudou a perceber um grande sinal de Deus. Essa passagem marcou minha vida e antecipou coisas importantes que viveria, e precisava para chegar até o sacerdócio perseverantemente e com sacrifícios: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; Para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (I Cor 1, 25-31). E, “não deixe que ninguém despreze sua vocação por ser jovem” (I Tm 4,12).

Sai da Igreja confuso com tudo aquilo. “Mas ser padre?” Deve ser apenas uma coincidência e não um sinal. Amanhã irei de novo e pedirei a Ele um sinal. Se o mesmo se der, eu me convenço de que não foi mera coincidência. Fiz o mesmo que no dia anterior, participei da missa, rezei encabulado. “É isso mesmo que o Senhor quer? Que eu seja padre? Mas se for apenas um engano, e não for nada disso, dá-me um sinal”. E fui à formação. A abordagem era completamente diferente do dia anterior. O tema não tinha nada com vocação. De repente, do meio da palestra para o final o padre mudou o curso da palestra e mais uma vez falou ardorosamente sobre vocação. E eu disse: “Não é possível”. Eu precisava refletir. No meu coração tudo era muito forte, mas não podia concluir somente por tais sinais. E comecei a observar que isso se unia ao que Deus me dizia desde minha infância por sinais mais íntimos, que os reservo a minha pessoa, e que começavam a fazer sentido. Ademais, parece que todos resolveram me perguntar se já tinha pensado no sacerdócio. Entendi que Deus estava falando pela comunidade, pelos sinais íntimos dados e externos, por aquele padre que perguntou assim que chegou como vigário na paróquia. Mas alguém resolveu me perguntar e Deus fez render-me de vez, o padre José dos Santos. Depois de uma confissão ele perguntou: “Já pensou em ser padre?” E eu falei: “Já e agora estou pensando mais uma vez”. Parece que Deus resolveu me cercar de testemunhas de sua vontade e os usou a todos. Pensava: “Como pode? Parece que é como se todos soubessem que estava tratando com Deus sobre minha vida e futuro, e começaram a se meter de algum modo. Mas eles não sabem. E só pode ser Deus neles mesmo”.

Precisava dar um jeito. Tinha que saber mais sobre isso. Foi quando conheci alguém que se tornou um grande amigo, o padre Sérgio Rosa Viana, que faleceu com pouco tempo de sacerdócio de um câncer muito agressivo. Ele tinha ido para auxiliar na São Tiago com o padre José dos Santos.

Depois de uma missa perguntou o que os demais perguntavam. E disse que sim. Queria saber melhor sobre a vocação sacerdotal. Daí, ele me encaminhou para falar com um grande animador das vocações na nossa Arquidiocese ainda hoje, Cônego José Mazine. Fui ter essa conversa com ele. E fui chamado para ir no final de 2003 no encontro vocacional promovido por ele numa fazenda do Seminário.

Meus pais não sabiam dessa minha trativa toda com Deus e a Igreja. Tinha receio que eles pensassem ser somente mais uma fugacidade da juventude. Não de que não aceitassem, pois sempre me respeitaram em meus sonhos de jovem. Mas não queria dar incertezas e sim somente certezas agora.

Uma conversa inadiável

Contudo para ir ao encontro precisava da autorização deles. Tinha que falar com meu pai necessariamente para onde ia naqueles dias. Então depois de uma missa dominical saindo da Igreja disse: “Pai, quando chegar em casa eu preciso conversar um assunto sério com o sr.” Ele logo ficou apreensivo. Porque a última vez que ouviu isso, tinha sido de meu irmão mais velho quando tinha acabado de engravidar a namorada. Portanto, ele disse no meio do caminho: “Vamos, fala logo o que quer”. Comecei: “Tudo bem. É que eu andei pensando muito e isso é sério. Preciso da autorização do sr. Irei para um encontro vocacional promovido por um padre, e quando voltar de lá virei decidido do que farei da minha vida, se Deus quer que eu seja padre ou não”. Ele estranhou um pouco no primeiro momento. Respirou aliviado que não era o que tinha pensado antes. Encabulado, chegamos em casa e me perguntou me provando: “Você tem certeza disso? Eu falei: “ainda não, mas se for a vontade de Deus, farei”. Ele continuou: “Ser padre é muito difícil. Mesmo assim, você quer ser?” Perguntei: “Pai, o sr. ama minha mãe?” Surpreso respondeu: “Sim”! Prossegui: “Vocês se amam, certo?” Mais uma vez disse: “Sim”! Perguntei: “São felizes?” Disse: “Sim, somos felizes juntos”. Querendo concluir interpelei: “Mas tiveram muitas dificuldades até aqui?” E ele olhando com ar surpreso para mim disse: “Sim, mesmo com as dificuldades, fomos sempre felizes”. Terminei dizendo: “Da mesma maneira, se for a vontade Deus, serei feliz apesar de qualquer dificuldade, pois Ele só pode querer o que é bom e feliz para mim, ainda que tenham espinhos no caminho”.

Fui ao encontro. Foi fantástico. Conversei com o padre algumas vezes e com um bispo auxiliar do Rio do Janeiro que hoje é o arcebispo da Arquidiocese de Florianopólis, Dom Wilson Tadeu Jönck. A ele disse sem saber o significado das palavras ainda de modo mais profundo: “Sinto que Deus me chama para apascentar as suas ovelhas”. Recordo-me que ele sussurrou depois isso com padre Mazine vendo certa graça em algo. E depois brincou comigo sobre o que citei da passagem bíblica que era o diálogo entre Jesus e Pedro sobre o chamado a pastorear.

A descida do Tabor

E como desci da fazenda de Itaipava para o Rio? Decidido. Tudo que vivi lá serviu para me confirmar. Precisava dizer aos meus pais que estava disposto a entrar para o Seminário e que naquele ano de 2004 iria para o Grupo Vocacional de Adultos (GVA) lá no seminário para aprofundar o discernimento.

Porém, só fui ao GVA no mês de junho de 2004 encaminhado por padre Mazine. Na minha turma, eu e padre Jorge Carreira, também encaminhado pelo por ele, erámos chamados de “operários da última hora” porque chegamos no meio do ano, e mesmo assim fomos aprovados para o ingresso no seminário.

Assim se deu, quando foi em 24 de fevereiro de 2005 entramos no seminário.

A alma repousando na paz da vontade divina

Enfim, meu coração sossegou por estar a caminho da vontade de Deus. Não sentia mais aquela falta e irrealização. Ao contrário, tinha paz, apesar das dificuldades da aventura heróica que era a vida de seminário. Com bons amigos seminaristas e sacerdotes, fui me formando. Dentre eles se destacou um padre de modo especial que em diversas coisas compartilha uma visão semelhante comigo sobre a Igreja, o mundo e o sacerdócio. O nome dele é Sergio Muniz. Um sacerdote muito reto, idôneo e com qualidades espirituais elevadas.

Depois de toda preparação, tendo cursado as duas faculdades de Filosofia e Teologia, e dadas todas as etapas, fomos ordenados no dia 6 de abril de 2013 sacerdotes.

Renúncias e devoluções em forma de dons divinos

Lembra que havia deixado a idéia de ser jornalista? Sim, tinha renunciado. Mas comunicação sempre esteve em minha vida de seminário. Desde a filosofia mantinha blogs, e atuava em redes sociais, usava todos os conhecimentos que tinha de informática adquiridos desde adolescente para montar minhas ferramentas de trabalho com o intuito de evangelizar. Sem me dar conta que de fato Deus estava me devolvendo paulatinamente o que quis  que eu renunciasse por Ele.

Pouco tempo depois de ordenado veio a Jornada Mundial da Juventude. Como dizia nosso Cardeal Dom Orani, “nós éramos os padres da Jornada”.

Eu obtive contato com o Vicariato da Comunicação da Arquidiocese num estágio do Seminário. Tínhamos que escolher um setor para auxiliar na Mitra Arquepiscopal. Fui logo para o que mais se identificava comigo: a comunicação. Porém era apenas um breve contato. Só que depois apareceu a idéia de ajudar na orientação espiritual do Vicom já enquanto diácono. Pela provisão sacerdotal, teria que me abster dessa tarefa, pois iria assumir novos encargos sacerdotais numa nova comunudade paroquial.

Estava passando pelo corredor da Mitra certa vez e encontrei uma produtora da nossa Rádio que precisava muito de uma ajuda, alguém para ancorar dentro de poucos minutos uma palavra e o Angelus que o Cardeal faria de Madrid por meio de conferência. Com alguma resistência, aceitei. Havia dito que nunca tinha feito cobertura ao vivo. E bem, aquelas lá da infância não valiam (risadas).

Terminada a transmissão, veio um inesperado convite. Padre Brito, diretor da Rádio, ouvia enquanto estávamos no ar, e pediu a produtora Fátima por telefone para convidar-me para ancorar as trasmissões da Rádio na JMJ de 8h às 13h. Tive que pensar. Pois era algo muito grande para alguém sem uma experiência prática em fazer algo assim ao vivo e tão importante. A produção me deu garantias de me ajudar e me tranquilizou.

Foi o máximo. Sentia que Deus estava fazendo algo novo e me provocando. Até que me deu uma oportunidade única no mundo durante a JMJ: ser o primeiro em todo mundo a entrevistar o Papa Francisco numa rádio ao vivo. Algo que foi até noticiado pelo site da Rádio Vaticano na época e está disponível também no site da Santa Sé (clique aqui).

Com isso, já tendo a atuação nas redes sociais anteriormente, percebi: “Deus está querendo não que eu renuncie a comunicação, mas que eu comunique, só que do meu sacerdócio”. Ele só me pediu para renunciar o que temporariamente poderia me impedir de ir ao sacerdócio, para daí sob novas formas viver a vocação de comunicar a partir da vocação sacerdotal que me concedeu por pura misericórdia.

Deus é bom e misericordioso: faz novas todas as coisas

Cheguei a conclusão de que muitas vezes Deus pede para nós renunciarmos o que depois Ele mesmo quer dar de suas próprias mãos como dom divino e santificado.

Daí nasceu o apostolado da página Padre Augusto Bezerra e do site que é um antigo blog da época de seminário que foi reformulado.

Sobre mais detalhes desta aventura? Deixamos para uma próxima ocasião que o Senhor nos conceda. Por ora, basta esse breve testemunho.

Que sirva para animar muitos a esse mesmo caminho e não tenham medo de renunciar por Deus, pois Ele não decepciona nossa fé e esperança. Mas nos confirma, consola, fortalece e reanima.

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