O filme “A Cabana”, estreado há algumas semanas atrás, atraiu a atenção de muitos cristãos por sua narrativa de cunho religioso. Ao mesmo tempo gerou polêmicas por algumas ambiguidades. A obra foi até acusada de heresia por alguns sites católicos.

Confesso que estava preocupado pelo que ouvia do filme. Pessoas me vinham perguntar e mandavam mensagens para saber de alguma crítica que tinha ao filme. Ora, eu não podia ainda formular nada por ouvir dizer. E nesses dias tive a oportunidade de ir ao cinema e vê-lo. Estava pronto para gastar meu dinheiro à toa com uma sessão de heresias, como diziam alguns catolicos. Em cada cena estava pronto para qualquer choque com a fé cristã. Mas não foi totalmente assim. No máximo alguns arranhões por algumas ambiguidades que irei elencar aqui. Mesmo sendo arriscadas, não são suficientes para acusar formalmente o filme de heresia ou condená-lo.

Precisamos antes entender algumas coisas:

– O filme é baseado no livro “A Cabana” de Willians P. Young, lançado em maio de 2007;

– Minha abordagem não terá o foco no livro do autor, e sim no filme;

– O filme é uma trama desenvolvida em torno das problemáticas psíquicas de um homem chamado Mackenzie. Tais coisas influem em seu realcionamrnto com Deus;

– Tanto o livro quanto o filme são uma obra sobre psicologia e o drama da dor humana face a divindade e paternidade de Deus. Não espere uma obra teológica. Seria grave equívoco.

– A história é composta pela consciência de Mack, e mostra-se ao final uma aventura ao inconsciente da personagem onde Deus intervém e se manifesta;

– A obra está na categoria de autoajuda cristã, e não de teologia ascetica e mística.

Apresentados esses aspectos podemos ser mais honestos em nossa crítica. Vamos aos pontos polêmicos do filme. A partir de agora o texto é sujeito a spoilers. Senão quiser saber, não siga.

1. Deus é apresentado como uma Trindade: Papai, Jesus e Sarayu

Ao público cristão, fica notável a analogia quando Deus se revela a Mack. Ao mesmo tempo que a coisa toda venha a produzir certa estranheza pelas figuras que o representam. O Pai é uma mulher negra de idade madura, o Fiho um jovem com feições de homem do Médio Oriente, e o Espírito Santo é uma mulher oriental jovem e esbelta.

Isso gera um suspense para quem conhece o Deus Revelado. Porém se prestarmos atenção no filme entederemos o que está em jogo. O Pai se apresenta na figura da mulher, não porque Deus seja mulher. Mas para desarmar Mack dos bloqueios psíquicos que tem quanto a paternidade devido a sua dura infância com maltratos sofridos, ele e sua mãe. A lógica é uma velha assertiva da psicologia que diz que se alguém tiver uma experiência negativa com a figura paterna pode desenvolver enormes dificuldades em relacionar-se com um Deus que se revela como Pai.

Ora, acontece que o Papai, como ele é chamado no filme, quase no final se apresenta como homem. Mostrando que a masculinidade e feminilidade foram apenas um modo de se comunicar a Mack que precisava de cura. Deus se manifesta a partir da masculinidade quando ele já está se recuperando em relação aos traumas infanto-juvenis da paternidade tendo perdoado ao seu pai e tendo sido perdoado.

A acusação de que há uma heresia em figurar a Deus Pai como mulher é falsa. Pois isso é uma manifestação psíquica e subjetiva a Mack, é uma apreensão de sua mente. Para sermos honestos, não estamos diante de uma exposição teológica do Deus Uno e Trino. Se essa fosse a intenção, então teríamos que respeitar milimetricamente as propriedades do Deus Revelado.

Ademais, Deus mostrar-se por analogia ao feminino não deve ser nenhum grande drama, uma vez que até mesmo Ele se compara a figura feminil em seu amor a uma mulher que é mãe, como se pode ver na Escritura em Isaías.

Poderia ir além, mas não entrarei em questões metafísicas sobre o ser divino para não gastar muito tempo com edte tipo de análise da qual não vejo necessidade. Basta saber o estilo literário que está na origem do filme para entender as alegorias.

2. Jesus, o Deus Filho, se diz humano

Existe um grande lamento pelo seguinte diálogo numa das cenas:

Mack: “Eu me sinto melhor com você do que com os outros dois”
Jesus responde: “Talvez porque eu seja humano”

Daí, temerariamente por conta disso o filme foi acusado de dizer que Jesus é dito como um ser humano apenas, e não como Deus. Isso não é verdade. Se diz que ele é humano, mas não se nega a sua divindade em nenhum momento do filme. Afirmar não é negar necessariamente outra coisa. Em 133 minutos de filme não vi uma afirmação sequer que negasse o seu ser divino. Ao contrário, muitas coisas levam a intuir a divindade de Jesus: os sinais e milagres produzidos por ele para Mack, e também a própria comunicação e comunhão com Papai e Sarayu.

Mais uma vez entra uma relação psíquica de Mack com Deus em cena. Ele se identifica com aquele que foi revelado na carne, um Deus Revelado como um semelhante, um igual e próximo a nós. Essa idéia está presente na doutrina cristã inclusive. A realidade kenótica do esvaziamento divino para abaixar-se a nós é algo presente nos escritos de São Paulo.

3. A quarta pessoa: a sabedoria divina

Achei de uma genialidade tremenda. A sabedoria é apresentada como pessoa ao lado de Deus. Essa é uma imagem veterotestamentária de Provérbios 8, 22-31 (sugiro ler) na qual se apresentam os traços da sabedoria pré-existente e criadora de Deus. É uma narrativa elogiosa que mais tarde o judeu Fílon de Alexandria dará o nome de Lógos comparando-a a este conceito grego que expressava a força criadora que ele possuia na constituição dos elementos do universo. O apóstolo São João usa o conceito de Fílon de Alexandria no seu Prólogo (sugiro ler), isto é, no primeiro capítulo do Evangelho, quando diz: “No princípio era o Verbo”. No original grego, escreve-se “Lógos”, e é traduzido para nós como verbo. Ora, na verdade a sabedoria é a face veterotestamentária do Filho ainda não conhecido, o Verbo que depois se fez carne. Note bem o que Jesus diz assim que o deixa fazer a trilha sozinho: “Você precisa seguir sozinho”. E Mack diz: “Você disse que sempre estaria comigo”. Ao que respondeu: “Mas eu estarei com você”. E sem dúvida esteve com ele sob a forma da sabedoria que se manifesta no consciente de Mack quando fica diante do seu trono.

4. A ambiguidade sobre a prática da virtude da religião

Creio que esse é um grave pecado do filme. Num dos diálogos com Mack, Jesus diz: “Religião e algo muito complicado (…). Eu não sou o tipo de cristão que você vê por aí”.

Existe uma relativização da religião para uma experiência subjetiva com Deus que se intui a partir disso. Algo próprio da fé protestante, que critica duramente o que eles chamam de “religiosidade”, uma fé normativa e fiel à tradição, em outras palavras a experiência católica do cristianismo.

Haveria de se esperar de um filme que tem “raízes luteranas”. Essa ambiguidade não tem nenhuma dissolução no filme. Pode ser danosa a alguém que não é crítico e se prenda a uma afirmação como essa.

5. O julgamento de Deus

Duras acusações foram feitas por católicos de que o filme nega o juízo divino por causa de um apelo feito da sabedoria por uma clemência para com os filhos de Deus que o ofenderam. De fato, foi algo que me deixou em suspense até que nas falas de Papai isso se esclarece. Ele diz ele não precisa condenar, o pecado produz as consequências que lhe são próprias. Em outras palavras, salvação e condenação são realidades produzidas por nossas escolhas, mas do que por uma ação volitiva que seja unicamente de Deus. Se culpa Ele por ter que julgar, mas é o próprio ser humano quem escohe seu destino final. Numa conversa na varanda Ele diz isso a Mack e em outro momento em que está com ele para resgatar o corpo de sua filha. Poderíamos considerar até mesmo uma passagem do Evangelho na qual diz Jesus de um juízo para além de sua sentença pessoal que se dá por sua Palavra já dita, que conhecida gera a culpabilidade: “Eu não vim para julgar o mundo. (…) A palavra que eu falei o julgará no último dia” (Jo 12, 47-48). A Palavra foi dada como sentença antecipada para o juízo: “Todo aquele que crê será salvo, todo aquele que não crê já está condenado” (Mc 16,16). As nossas escolhas “definem” a sentença. Deus não pode ser culpado, é apenas o consumador da setença escolhida por nós: justiça. Mas para aqueles que querem ir até Ele, também é o auxiliador e salvador.

6. O contato com o mundo espiritual

Na verdade, tudo se passa na consciência de Mack que por uma intervenção divina experimenta o conhecimento das realidades espirituais numa viagem para o mais profundo de seus dramas psíquicos e de sua fé na eternidade. Daí ele ver seu pai, falar com ele e se reconciliar, mesmo depois dele morto. Por isso ele ter visto a filha feliz na eternidade, mas sem poder ser visto por ela. Portanto, entenda-se isso como uma viagem por dentro de sua psiqué, e não um contato com os espíritos propriamente ditos.

Conclusão

Vi como grande exagero alguns artigos que evocaram quase que Concílios inteiros contra o filme. Isso me parece um problema de leitura hermenêutica. As chaves de leitura foram mal empregadas. Quero acreditar que tenha sido apenas uma dificuldade interpretativa a crer que tenha sido desonestidade com o estilo literátio da obra. Por isso, para fazer uma análise mais crítica ao filme, é preciso ter noções teológicas, metafísicas e de psicologia, senão poderá se embananar todo na interpretação.

No tocante ao filme, só me preocupa e chamo bem atenção para o item 4  que está enraizado numa doutrina luterana. Quanto ao livro, já vi outras advertências e acusações. Detive-me ao filme. Sobre o livro, qualquer dia desses, escrevo uma crítica depois de analisá-lo bem. Espero que tenha ajudado.

Comentários

Comentários