Ao redor do mundo, jovens encontram diariamente barreiras a serem enfrentadas e desafios a serem superados. Nesta etapa da vida, é comum se passar pela fase da busca do sentido de sua existência, muitas vezes vivida de maneira solitária e sofrida, tendo assim que buscar uma fuga de toda essa pressão que a sociedade exerce sobre eles. Este ponto é o chamado nó crítico da questão. A fuga muitas vezes é vista de forma negativa, porém é necessária, em certos momentos, para a reorganização de ideias e pensamentos que possam estar em caos. Todos são chamados a subir o Monte, que é o Cristo Ressuscitado, para contemplarem a sua Onipotência.

Por estarem nesse momento de dúvida e anseio, é necessário incentivo ao diálogo familiar, reforço dos laços fraternais e a prática que promova a boa convivência. Escutá-los, entendê-los e orientá-los a descobrir o grande valor da vida são pontos de superação das dificuldades já citadas.

Caso o jovem não receba apoio familiar e eclesiástico nesse momento, ele o buscará em outros lugares, e este é o verdadeiro perigo que a juventude corre. O “mundo” oferece a ele prazeres momentâneos, mas que certamente acarretam consequências duradouras. Não se pode moralizar ou banalizar as atitudes tomadas nesse período como uma simples “falta do que fazer” ou ainda “bobagem” de adolescentes. Na verdade, trata-se de uma cultura na qual a violência é tida com grande espetacularização e que todos os dias é incentivada por programas sensacionalistas, preconceituosos e superficiais. Trata-se também de uma desvalorização da vida, que atinge principalmente esta faixa etária. Portanto, é importante tratar com seriedade tal problemática.

Infelizmente, se tem acompanhado nos noticiários e meios de comunicação uma verdadeira tragédia. O chamado “jogo da Baleia Azul” esteve em foco ultimamente, pois, por conta dessa “brincadeira” vários jovens retiraram a própria vida. Este jogo consiste em cinquenta desafios que envolvem automutilação, atividades arriscadas em geral e por fim o suicídio. O motivo pelo qual uma pessoa se dispõe a fazer isto depende de cada caso, porém, a depressão é um fator comum em quase todos. Como já foi dito, é necessário um acompanhamento familiar e eclesiástico da juventude, visto que esta é uma faixa etária muito perturbada e que necessita de apoio. A sociedade difunde valores onde a vida fica em segundo plano e a morte é colocada em foco, como se pode ver pela série chamada “thirteen reasons why”, que aborda o tema do suicídio juvenil.

A XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos irá acontecer diante desse cenário apresentado. Um contexto difícil, mas que necessita de uma atitude mais engajada da Igreja. Em sua missão de defender e difundir a vida, ela precisa afrontar tais problemas, ir ao encontro dos que precisam e por fim transmitir sua Mensagem de Amor.

Muitos católicos, ao se depararem com uma situação de abalo emocional e/ou psicológico, procuram os sacerdotes para um aconselhamento. Isso é algo bom, uma vez que mostra a figura materna da Igreja ajudando seu filho nos momentos de penúria. Contudo, é importante lembrar que o número de sacerdotes disponíveis não é proporcional ao número de pessoas que realmente necessitam de ajuda. Então, entra em conjunto a família, que deve colaborar para a solução. Além do mais, existem os casos em que a pessoa, seja por qual motivo for, deixa de buscar auxílio. Então, cabe aos que estão ao seu redor perceber as atitudes estranhas ou contrárias ao cotidiano dela, que podem evidenciar que algo está errado.

Destaca-se que a Igreja não se trata somente do clero e da hierarquia eclesiástica. Ela corresponde a todo o povo de Deus. O povo de Deus são os grandes protagonistas da ação evangelizadora da Igreja. Por isso, é papel de todo católico, em sua essência, ajudar aqueles que necessitam, pois disse Jesus: “todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequenos, foi a mim que o deixastes de fazer!” (Mt 25,45). Algumas pessoas, nesses momentos, podem pensar que não sabem fazer nada, não têm capacidade para ajudar… Porém, não é preciso grandes coisas. Ao se aproximar e conversar com a pessoa, ao perceber que algo está errado, e falar para alguém mais que julga mais competente, já se está realizando ações que ajudam a solucionar algumas questões. É a questão da proximidade.

A fé é um Dom de Deus deveras importante para todos. Nela se encontra a resposta para várias dúvidas que podem aparecer durante a vida. Lamentavelmente, ela tem sido deixada em segundo plano por muitos, devido a todo esse contexto de repúdio à religião criada por ideologias atuais. É cientificamente provado que a fé auxilia o ser humano em suas atitudes e o ajuda psicologicamente, mas mesmo assim o ser humano, como outrora, se julga autossuficiente, e quer deixar Deus de lado, mesmo no final tendo caído em desgraça. É preciso ir ao encontro dessa juventude iludida e mostrar-lhe o verdadeiro valor da fé na vida de cada um.

Juntamente com a fé caminha a vocação de cada cristão. Tendo isto em vista, esse é outro ponto em que se deveinvestir. Uma implantação de encontros vocacionais para todos os jovens, não só os vocacionados para o sacerdócio e ordens religiosas, é um caminho para uma ajuda eclesiástica na questão das escolhas difíceis nessa faixa etária. Isto, além de proporcionar uma melhor formação para cada um, cria um laço fraternal em meio àquela comunidade. Por ser só trabalhada de modo aprofundado entre os vocacionados religiosos e sacerdotais, a vocação tem perdido um pouco do seu papel e conhecimento nas comunidades. Muitos católicos não sabem quais são as vocações, ou ainda pior, o que são as vocações. Isso compromete muito a Igreja no seu projeto de evangelização, pois, não sabendo sua vocação, não se sabe o papel que se deve ser desempenhado no plano de Deus.

Em síntese, o Sínodo dos Bispos foi convocado em um especial contexto, no qual o rebanho está desorientado e necessita ouvir a voz de seu Pastor, nosso amado Papa Francisco, para que assim possa continuar a sua missão. O tema sobre os jovens também foi importantíssimo, uma vez que este grupo necessita de auxilio familiar e eclesiástico imediato, visto as dificuldades que enfrentam diariamente por conta dos transtornos da adolescência. A esperança é que as decisões ali tomadas sejam colocadas em prática para que assim a Santa Igreja Católica consiga exercer esse papel de mãe acolhedora, que sempre está de braços abertos para acolher estes filhos que, assim como na parábola do filho pródigo, se perderam no mundo e buscam agora uma reconciliação com sua família.

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro, RJ

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