Há muitos anos venho acompanhando o noticiário internacional, grupos e matérias de diversas fontes de antecipação politica e econômica global. Confesso que sempre foram temas que me instigaram ao longo da minha juventude. Entendo que se aprofundarmos o que se passa universalmente compreenderemos melhor tudo o que acontece na dimensão infra da sociedade. É um caminho do universal ao particular.

Cheguei a realizar um trabalho para a PUC-Rio a partir de Santo Agostinho em seu conceito de guerra justa afim de avaliar as ações americanas militares perante o direito internacional que, querendo ou não, tem suas raízes na moral social cristã, já muito bem demonstrada em seus princípios éticos pela filosofia política desse grande doutor da Igreja (séc. V) em “De Civitate Dei”.

Quero me valendo dessas minhas leituras e aprofundamento ajudar a formular uma opinião sobre o que se passa atualmente nos conflitos globais.

Infelizmente não encontrei ninguém ainda que tenha realizado uma síntese dessa natureza. Daí que a escrevo para vocês e me meto nessa matéria relevante. Talvez essa carência de exposições seja porque muitos que poderiam fazê-lo mantém-se em algum tipo de alinhamento ideológico mais do que por desejar uma consideração humanitária e racional das coisas.

O reset americano

Desde o atentado de 11 de setembro de 2001 houve um reset na política externa americana. A luta contra o terror levou os EUA a uma espécie de “cruzada” pelo mundo afora. Seria mais ético se fosse realmente uma luta bem intencionada contra o terrorismo. Mas infelizmente é aquilo que chamamos de “guerra justificada”, isto é, que está embasada num bom pretexto, contudo sem razões suficientes ou provas contra um inimigo para que se possa com justiça retaliar e intervir. Daí, já diferenciamos uma guerra justa daquela que é justificada, o que podemos explorar em outro momento.

As terminologias “terror” e “terrorismo” não foram usadas pela primeira vez no mundo contemporâneo, porém já eram jargões empregados frequentemente pelos iluministas na Revolução Francesa para a derrubada de seus opositores. Suas ações eram sempre justificadas pela idéia de combate ao “terror”. Isso lhes dava um longa agenda de atuação contra eventuais inimigos de seus interesses. Aliás, sugiro pesquisar para aprofundar sobre esta matéria que ajuda a estabelecer padrões de leitura hermenêutica para a contemporaneidade.

É fato que os atentados de 11/09 tiveram envolvimento de jihadistas de origem mulçumana, que na sua maioria eram oriundos de onde!? Da Arábia Saudita! Vide as provas documentais usadas por investigadores norte-americanos que foram censuradas posteriormemte.

Contudo, o inimigo já estava previamente escolhido por interesses globalistas e tudo daria início a uma agenda perfeita a seus planos. “A ocasião faz o ladrão”.

Os escolhidos

Os EUA voltaram sua face para um antigo inimigo com seus ricos campos petrolíferos: Afeganistão. O Talibã que foi tolerado durante décadas agora era alvejado e descontruído em seu poderio por abrigar terroristas e células da Al-Qaeda.

Com a guerra no Afeganistão avança o reset nas relações globais. Lembrem-se que este país em idas épocas fora palco de conflitos entre EUA e a arruínada URSS, e aquele estava mexendo agora no quintal dos russos mais uma vez, aparentemente sob o bom pretexto de eliminar o Talibã e Al-Qaeda, restaurar a democracia e ir embora deixando o legado de estabilidade político-econômica, mas a que preço!? De ter o seu espólio de guerra: seus ricos poços de petróleo agora sob concessão a empresas ocidentais com intuito de pagar todo custo da guerra. Ou acaso pensa que os EUA e os aliados fazem guerra sem receber nada de volta? Seria muito altruísmo gastar sem lucro, não? Toda guerra é lucrativa com os espólios que dali se resultam, a não ser que seja um país realmente desinteressante em recursos ou em geografia estratégica. Isso é um padrão pelo qual se deve ler os conflitos armados. Busque saber quem ganha dinheiro e entenderá melhor os motivos. Dinheiro é o que move as guerras. Saia do mundo da fantasia de que estes líderes mundias realmente se importam com os povos.

E são dois os tipos de nações que interessam às potências: os que tenham recursos naturais que lhes são caros às suas empresas e os que tem uma geografia privilegiada contra os seus inimigos em potencial. Esse fator está presente em todas as guerras desde 11/09 no reset americano.

Depois de abater as forças da Al-Qaeda e do Talibã no Afeganistão, e de tentar estabelecer um governo democrático que seria financiado para realizar a reconstrução a troco de seus recursos naturais, segue o avanço estratégico dos globalistas no Oriente Médio: o novo alvo era o Iraque.

A ditadura tolerada há décadas agora estava sendo acusada de armazenar armas químicas de destruição em massa, e digamos de passagem, que até hoje Bush e seus colegas não conseguiram provar a sua real existência. Mas lá se foi mais um país, mais recursos naturais, mais inocentes e civis mortos aos milhares. As armas químicas mostram-se um pretexto que é tão espantoso à opinião pública que uma guerra jamais seria contextada, o que só vem a consciência dos espectadores alguns anos depois.

O fim da primeira empreitada

O povo americano se cansa da guerra. Todos já percebem que o discurso do combate ao terror está cada vez mais se tornando uma justificativa para o avanço de interesses de grandes empresas interessadas nesses territórios, verdadeiros cartéis do petróleo.

Seus filhos indo para a guerra voltavam mortos e mutilados. O desgaste emocional dos norte-americanos leva ao sucessor, Obama, a retirar as tropas do Afeganistão e do Iraque. Tudo vira o cenário “perfeito” para o caos. Os EUA praticamente bombardeou, destruiu, espoliou e deixou todo um caos para trás com um enorme vácuo de poder, controle e consolidação democrática.

Transição na era de conflitos

Num intervalo de tempo razoável começam a se formar células de mercenários e pequenos grupos terroristas na região que mais tarde serão os sucessores da chamada “Primavera Árabe”, movimento ideológico para desestabilizar as nações mulçumanas com um forte apoio Árabe e de seus aliados ocidentais.

A guerra resumida em lobbys

Enquanto o exército americano evade do Iraque e Afeganistão desde o fim da gestão Bush paulatinamente e de maneira definitiva na era Obama, avança mais fortemente o novo lobby, agora contra o Irã, do qual Israel faz parte queixando-se de seu programa nuclear. Porém uma nova guerra era inviável e inaceitável pela opinião pública americana.

Ademais, a Rússia também já se aguçava para esse cenário em desenvolvimento percebendo algo que no fundo tinha a ver consigo e com a China a longo prazo. A reação de ambos os países vai se apresentando de modo mais veemente no Conselho de Segurança. A presença militar americana tão próxima trazia um desequilíbrio de forças não visto desde a Guerra Fria.

O fim da Guerra Fria levou a extinção do mundo polarizado para um cenário de aparente cooperação entre as potências. Digo aparente, pois na verdade os interesses de hegemonia nunca morreram nem de um lado nem de outro. O respeito mútuo as continha.

Contudo essa nova política externa no Oriente Médio era interpretada como avanço estratégico dos EUA pela Rússia e China que se transformaram em discordantes de suas ações unilaterais passando por cima do CS da ONU constituído também por eles como membros permanentes.

Até então ambos países não tinham mexido em nenhuma peça do tabuleiro. Somente os EUA fizeram qualquer coisa que lhes fosse incômoda, e não sem advertências. Estava ficando cada vez mais claro e algo acontece que torna-se o início de um confronto diplomático aberto entre Rússia e EUA.

Diante das ameaças que os norte-americanos julgavam prováveis por parte do Irã e da Córeia do Norte, partes do Eixo do Mal, como assim chama ainda hoje os EUA, era necessário proteger a Europa a partir do Leste e do Pacífico a Oeste devido aos territórios nipônico e americano. E ainda na gestão Bush começa o projeto THAAD para formar um escudo antimísseis supostamente contra o Eixo do Mal.

A presença militar americana unilateral no Oriente já era um desequilíbrio de forças entre potências, um escudo antimísseis no leste europeu era maior ameaça ainda. Por que!? A Rússia perderia sua autodefesa como consequência com o ligamento desse aparato militar estratégico do lado estadunidense, podendo ela ser atacada sem retaliar um potencial inimigo posicionado no Ocidente ou do lado pacífico.

A Rússia protesta diante dos EUA e da OTAN. E nunca foi ouvida, foi desconsiderada em todo instante. E ela advertia para cessarem com o programa que a forçaria a manter o equilíbrio de forças de outra maneira. O desenvolvimento porém do programa continuou a pleno vapor. Putin e Dimitri Medeved discursavam frequentemente contra a iniciativa.

Ficava claro o jogo do tabuleiro, os EUA estavam mexendo as peças para dar o xeque-mate na China e na Rússia com o escudo que bloquearia qualquer ataque deles pelo leste ou pelo pacífico, fazendo-os ficarem rendidos até mesmo contra um potencial ataque nuclear sem chance de reação alguma. Mas em princípio diziam os americanos que era só por causa do Eixo do Mal. Percebem que tudo tem um nível de interesse global e os alvos particulares são mero pretexto para a opinião pública?

A reação planejada e provocada

Então, a Rússia faz a sua primeira grande atuação no cenário internacional e que assustou o mundo pela primeira vez desde a guerra fria: avança como relâmpago sobre a Geórgia e toma parte da Ossétia em pouquíssimas horas. E anos depois avançou sobre a Ucrânia tomando parte de seus territórios. Passou a aumentar as suas forças estratégicas em Kaliningrado, enclave russo em meio ao continente europeu, onde se encontram armas nucleares estratégicas da Rússia desde os tempos da guerra fria para o equilíbrio de forças.

Na verdade, eles estavam querendo advertir para os aliados não avançarem mais com o THAAD e se manterem longe do Leste, isto é, de suas fronteiras, pois estavam se sentindo ameaçados com tudo isso.

Entretanto essas invasões à Leste saíram um perfeito resultado para os globalistas para dizer que a Rússia é má intencionada e usaram disso para criar a neurose no leste de que eles querem invadir a Europa militarmente. Não que eles não queiram ter a sua zona de influência, mas a doutrina militar da OTAN dependia logo desse inimigo em potencial para seus planos prosseguirem. Com isso a OTAN que vendeu a idéia começou a lucrar com o grande aparato militar nas fronteiras e com a corrida armamentista gerada nos países europeus. A aquisição pelo THAAD torna-se um afã das antigas repúblicas soviéticas. A indústria armamentista festeja, suas ações nas bolsas de valores sobem e a receita deu certo: medo, neurose, ameaças e desequilíbrio de forças. Isso dá muito dinheiro.

A OTAN começa então a justificar a importância de sua sobrevivência como instituição, pois ela havia sido antes criada para confrontar na época da guerra fria a URSS, que agora não existe mais.

Próximo alvo: Líbia

A Primavera Árabe trouxe uma grande convulsão ao Norte da África e também ao Oriente, e começou a desestabilizar territórios que reúnem mais uma classe de interesses dos aliados. Esses complicadores se tornaram o gatilho da nova arma contra ditadores dos países cobiçados: Estado Islâmico.

Depois do novo alvo ser escolhido, no decorrer das acusações e conflitos diplomáticos, uma zona de exclusão aérea foi estabelecida para bombardear a Líbia de todos os lados. Isso abre caminho para os mercenários e membros da irmandade mulçumana que foram para cima de Kadafi como leões devoradores.

Qual é o grande espólio da vez!? Os aquedutos líbios muito interessantes para a França, principal força aérea de ataque na Líbia. Mas também é um país de importância estratégica no Mar Mediterrâneo para o Norte da África  e para o Oriente.

Rússia e China como “espectadores” eram discordantes da ação militar que mais uma vez passou por cima do CS da ONU ferindo o direito internacional.

Estão começando a entender o que está acontecendo desde 11/09 no reset das relações globais? Pois bem! Os aliados não vão parar.

Próximo alvo: Síria

Aí a história complica-se mais do que em outras vezes. Quem está lá dentro? A Rússia. O velho aliado do Oriente Médio estava sob a ameaça de intervenção estrangeira.

Não podia ser. O único suporte militar do mediterrâneo que a Rússia tem de fato para o equilíbrio de forças é o porto de Tartus da Síria, ao lado dos estratégicos aeródromos sírios. O que os aliados fariam em consequência de suas ações? Deixar a Rússia imobilizada no Oriente Médio e sem flanco no Mediterrâneo.

O desentendimento entre Rússia e EUA se torna mais público, contudente e midiático. O reset global chegou ao seu ápice.

Em paralelo, na gestão Obama o mar da China no Pacífico começa a ser alvo de disputa entre os asiáticos na qual os EUA se metem defendendo o direito do Japão contra a China.

Dando mais um passo no projeto THAAD, o escudo antimíssil recebe implantação em parte do Leste Europeu na gestão de Obama e agora em 2017 foi implantado na Coréia do Sul anulando os lados da força da China e Rússia. Neste exato momento, ambas nações estão como ratos acuados pelos aliados e as forças estratégicas da OTAN.

Enquanto isso, o cenário  se agrava na Síria, depois de uma fugaz esperança de que a política externa americana mudasse para uma cooperação internacional pela paz com a gestão de Trump.

Essa esperança se foi com o ataque unilateral de 6 de abril de 2017 interpretado como uma provocação à Rússia. E as relações americanas com os russos nunca estiveram piores que agora. Ao invés de destencionar o cenário global, agora é que está prestes a explodir. Se isto pareceu ser algo que Trump fez no calor do momento, então não seja por isso. Ele acaba de enviar a marinha de ataque de Singapura para a Córeia do Norte acirrando os ânimos entre EUA e China, e sem dúvida com os russos, também vizinhos da Córeia.

Um incidente a mais com a Coréia do Norte ou com a Síria, pode levar a uma escalda incontrolável de medo, ameaças e ações preventivas, e delas, a pior é a nuclear.

Muitos pensam: a quem interessa uma guerra mundial ou nuclear? Creio que a ninguém que seja são. Porém a maior ameaça é a doutrina de ataque preventivo que decorre do medo de ser atacado, medo que cresceu com o escudo antimísseis THAAD e do qual cada vez mais se perde o controle, pois receia-se no Oriente uma investida global das forças americanas num futuro próximo.

A perda da razão é que leva à espiral da guerra. Assim pensam: “antes atacar que ser atacado sem poder revidar, retaliar e se defender”, ainda mais se tratando de forças nucleares. Esse medo mútuo leva a riscos reais. Para situações como essas existem os protocolos militares de ataques preventivos nucleares. É com razão que se diz: “a guerra é a loucura, é o vácuo da racionalidade”. Por isso, devemos evitá-la pela racionalidade e pelo diálogo pirncipalmente por se tratar de potências que poderiam pôr o mundo às cinzas em minutos.

Considerações finais

Depois de feita essa síntese, entenda porque Trump é a decepção dos conservadores que nele votaram ou apoiavam pelo mundo afora. Pois numa única semana mostrou-se disposto a continuar com a agenda global da OTAN e dos aliados de provocar, cercar, atacar, espoliar e dominar.

Precisamos rezar muito pela paz e urge que tenhamos clareza do que se passa atualmente no mundo entendendo que é muito mais que uma briga de militâncias esquerdistas e direitistas, e sim uma ameaça à paz mundial pelo desejo da indústria armamentista de lucrar com sangue, de bilionários lucrarem com domínios e espólios de guerra, avançando numa agenda comum de interesses. Em uma semana Trump insunuou ser uma farsa. Vejamos os próximos capítulos para ver se esta nossa impressão realmente se confirma.

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