A misericórdia de Deus é para mudar a vida, e não para ser pretexto de pecado

No evangelho deste domingo (Mt 5,17-37), Jesus dá a certeza aos seus discípulos de que “não veio abolir a lei, mas dar-lhe pleno cumprimento”.  E o que seria dar pleno cumprimento?  É o mesmo que dar sentido, fundamento, ou ainda, consumar algo.

Este evangelho pode nos auxiliar a entender coisas indispendáveis à vida cristã.

Muitos nos tempos atuais vêem a misericórdia de Deus como uma nulidade para a Lei. Alguns pensam: “Jesus perdoa tudo mesmo…”. E vivem um laxismo moral, uma vida desregrada, sem valores e sem princípios. Tal mentalidade de usurpar o sentido real da misericórdia esconde uma artimanha de pecado que a usa, não para libertar do pecado, e sim para dar concordância a ele e confirmação de uma vida que despreza totalmente a Lei do Senhor.

A ambivalência da Lei na narrativa evangélica

A lei tem um caráter ambivalente nas palavras de Jesus. Lei que diz respeito às tradições e preceitos judaicos; e, Lei que são os mandamentos divinos incontestáveis como a vida transcendente do homem para a comunhão com Deus, levando-o a estar mais proximamente ao estado original que o Criador lhe conferiu no princípio de tudo, quando Adão e Eva ainda não tinham caído em desgraça, e é a esse estado de alma ao qual voltaremos plenamente quando estivermos no paraíso celeste. Por assim dizer, esta Lei corresponde a ordem natural e sobrenatural do homem em seu estado original.

Lei como tradições e preceitos religiosos

Quando Cristo prega o Reino, dá sentido pleno à lei, que por hora o dizemos enquanto preceitos religiosos e tradições judaicas. Significa que chegou ao seu termo através dele esse esquema legal. Por isso muitos costumes caíram em desuso já na vida das comunidades cristãs primitivas, pois estas tradições paternas do judaísmo, umas até ordenadas pelo Espírito de Deus, serviu à preparação para a vinda do Messias.

Como não havia um modelo de humanidade que fosse a própria base e referência para a religião judaica, convinha que a lei assegurasse um plano divino ao povo que não tinha conhecido até então a Revelação em sua plenitude, podendo assim este povo se desviar facilmente sem os ditames da lei, como uma espécie de fiadora de seus méritos diante de Deus. Agora, tudo isso deu lugar a Cristo, para que ele seja o garantidor da nossa salvação, de tal modo que a fé já comporte mérito suficiente à nossa redenção, não por conta de uma ação nossa simplesmente de crer, e sim porque quando cremos os méritos de Cristo são transferidos a nós para serem contados em nosso favor: “Todo aquele que crer em mim, será salvo, todo que não crer em mim, será condenado” (Mc 16,16).

Fazendo uma analogia, imagina que você tenha que pagar uma conta através de débito em sua conta bancária. Suponha que esta dívida tenha o valor de 10 mil reais. Ora, mas você só tem 100 reais. E você liga com urgência para um amigo muito rico e diz: “Por favor, me ajude. Não conseguirei arcar com essa dívida”. Daí o amigo lhe responde: “Irei transferir tudo que lhe falta para ficar com a dívida quitada”. Logo esse amigo transfere os 9.900 reais que lhe faltam e se consegue ficar livre da dívida. Tomando para a realidade da nossa redenção, antes a prática da lei nos valia como esse amigo. Agora, é Cristo por sua obra na cruz quem nos vale ao pagamento da dívida do pecado diante do Pai. Ele quitou toda ela. Com Cristo não nos faltará nada para pagar o preço, já pago na Cruz. Mas como obter para si tal graça? Crendo!

Lei como mandamento divino irrevogável

Acaso, isso significa que devemos abandonar a prática da lei? Absolutamente não. Isto é, a Lei, enquanto os mandamentos divinos, para ordenar a humanidade para fora do pecado, deve ser praticada à luz da imitação de Cristo. E aí, que entendemos outro sentido de consumar a Lei em Cristo: os mandamentos divinos se resumem na vida de Jesus através de sua humanidade perfeita sem pecado. Quer dizer que Jesus é a Lei encarnada, é o o decálogo (dez mandamentos) encarnado, é todos os mandamentos cumpridos numa humanidade. Portanto, quem imita-O vive em busca de cumprir os mandamentos divinos. Quem despreza os mandamentos, O despreza.

Ademais, a prática dos mandamentos atesta que nós realmente cremos e estamos interessados na redenção de nossa vida a ponto de dizer como o apóstolo Paulo: “Já não sou eu quem vivo, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20). Em outras palavras, a prática dos mandamentos é transformar-se na pessoa dele. Nada mais grato do que o homem dar toda a sua vida àquele que a resgatou para sempre. Nesse sentido, vivemos os mandamentos como gratidão, amor a Jesus e como o atestado do nosso real interesse na sua obra salvífica.

Com toda razão, o salmista proclama na liturgia de hoje: “Feliz o homem que na lei do Senhor Deus vai progredindo” (Sl 118,1). Se progride na lei, é Cristo quem progride nele. Porque a vida dele se faz no homem que se transformar das trevas à luz, da morte à vida, da condenação à salvação.

A graça salva e a lei reordena

A graça de Cristo salva, e a prática da lei é a correspondência ao seu amor. Ela já não é mais fardo, é amor, gratidão, é a religião do crer e das obras praticadas como a celebração da vida divina em nós. A lei serve para reordenar a humanidade a sua origem puríssima e ao seu fim último, ao próprio Deus. Ela nos põe em coerência com a vida do paraíso que tanto desejamos. Nada mais coerente que viver antecipadamente pela sua prática o que seremos em Deus por toda eternidade. Podemos dizer que o seguimento dos mandamentos divinos é viver a “cotidianidade” do céu cá na terra. Enquanto isso, a graça é o único fiador que temos para que paguemos toda a dívida. Pois nem mesmo toda fidelidade aos mandamentos que possamos viver a partir de agora ou que já tenhamos vivido até aqui, poderá nos conferir o mérito suficiente à redenção. Seria como aqueles 100 reais para pagar uma dívida de 10 mil reais, numa simplória analogia, pois o saldo de nossa dívida é muito maior em proporção.

Portanto, irmãos, vivamos da confiança na graça que salva e na prática dos mandamentos que é a correspondência amorosa com o nosso Redentor que almeja toda felicidade a nós.

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