Todo aquele que é assalariado e consegue prover seu próprio sustento é chamado pela lei da Igreja a pagar o dízimo, como ordena o quinto mandamento dentre os cinco que ela preceituou.

Para quem não os conhece, existem cinco mandamentos proclamados como disciplina obrigatória à vida católica, salvo algumas exceções para com aqueles que estão impedidos de cumprir esses requisitos. A saber, são:

  1. Ouvir a missa inteira nos domingos e festas de guarda;
  2. Confessar-se ao menos uma vez a cada ano;
  3. Comungar ao menos uma vez pela Páscoa da Ressurreição;
  4. Jejuar e abster-se de carne, quando manda a Santa Madre Igreja e fazer penitência em todas as sextas-feiras;
  5. Pagar dízimos segundo o costume.

A não observação desses mandamentos constitui também um pecado. O que ordena a Igreja, ordena o próprio Cristo: “Tudo que desligares na terra, será desligado no céu, e tudo que ligares na terra, será ligado no céu” (Mt 18,18). Portanto, nossa santidade depende da obediência à Igreja em tudo que ela instrui para a vida dos batizados como regra de vida cristã.

Então, não pagar o dízimo é pecado mesmo? Sim, se a pessoa é assalariada e se nega a ofertar esta sua gratidão a Deus, aquele que tudo provê na vida dos homens. No caso de privação, a pessoa está impedida pelas suas circunstâncias, e logo ela não pode ser culpada por ter uma falta que ela mesma nem a quis para a sua vida.

O dízimo como gratidão à luz do Evangelho

Disse Jesus: “Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas? Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves do céu?” (Mt 6,25-26). A interpelação de Jesus aos discípulos aponta para um sentido profundo da providência divina em nossos vidas. De que o nosso sustento vem de Deus mesmo, até aquilo que pensamos ser somente fruto do nosso esforço.

Ademais, a oferta do dízimo é o reconhecimento que advém de uma pessoa que sabe ser grata pela ação de Deus em sua vida. Por princípio lógico, podemos fazer uma analogia entre a gratidão do dízimo e um fato evangélico, ainda que a situação seja bem distinta: certa vez, Jesus cobrou a gratidão de nove leprosos dos dez que foram curados, dos quais somente um voltou para agradecer e louvá-lo (cf. Lc 17,11-19). Nesta circunstância, muito provavelmente o leproso que voltou não ofertou nenhuma ajuda financeira. Talvez nem a tivesse, principalmente por ser uma pessoa que vivia à margem da sociedade e em lugares desertos com muito pouco para sobreviver. Contudo, se distinguiu entre os dez por ser um homem grato e reverente ao poder de Cristo manifesto de um modo evidente pelo milagre recebido por sua compaixão.

Temos outros episódios no Evangelho em que são retratadas as ofertas generosas de diversos homens e mulheres alcançados pela graça de Cristo. Por exemplo, José de Arimatéia, que, segundo as hipóteses exegéticas, talvez tenha sido quem ofertou a sua casa para a última ceia, descrita como uma casa de dois andares, e o andar superior, onde se realizou a ceia, é descrito como um lugar revestido de almofadas. Ou seja, todas as características são da casa de um homem rico daquele tempo que dispunha do que tinha a Jesus e seus discípulos.

Arimatéia também contribuiu com a doação do sepulcro de Jesus, coisa caríssima aos seus contemporâneos, e só pessoas de muitas posses tinham túmulos como este escavado em pedra: “E José, tomando o corpo, envolveu-o num pano limpo, de linho, e depositou-o no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha; e, rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou- se” (Mt 27,59-60).

Há o relato também de mulheres que contribuíam com a missão de Jesus através da disposição de seus bens. Assim narra o evangelista Lucas: “E também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com os bens que possuíam” (Lc 8,2).

A pecadora perdoada, às vésperas da Paixão do Senhor, vai ao encontro de Jesus e quebra um vaso de alabastro caríssimo para ungir a cabeça do Mestre com todo o seu bálsamo (Mc 14,3-9). O vaso continha um valioso perfume feito de nardo puro. Nesta ocasião, Jesus teve que defender o culto de gratidão da mulher, pois ela começou a ser criticada pelos presentes, inclusive por Judas. Eles pensavam que se podia usar o vaso de alabastro cheio de perfume para trocá-lo por moedas e dar aos pobres. Para Judas tal argumento era só um pretexto para a sua avareza. Mas, o Senhor os censurou: “Deixai-a em paz! ordenou-lhes Jesus. Por que causais problemas a esta mulher? Ela realizou uma boa ação para comigo. Quanto aos pobres, sempre os tereis convosco, e os podeis ajudar todas as vezes que o desejardes, todavia a mim nem sempre me tereis. A mulher fez tudo que estava ao seu alcance. Derramou o bálsamo sobre mim, antecipando a preparação do meu corpo para o sepultamento. Com toda certeza eu vos asseguro: onde quer que o evangelho seja pregado, por todo o mundo, será também proclamada a obra que esta mulher realizou, e isso para que ela seja sempre lembrada”.

Notem nos casos citados acima a relação entre discipulado e gratidão manifesta de modo concreto no donativo dos bens, na sua dispensação como culto a Deus. A medida que se recebe, somos movidos a ofertar o que está ao nosso alcance. Isto será contado em nosso favor como mérito diante de Deus, como virtudes religiosas que atestam em nosso favor como amor a Deus sobre todas as coisas, a ponto até mesmo de renunciá-las a fim de consagrá-las.

O dízimo à luz do Antigo Testamento

Era comum desde o primitivo Israel praticar a oferta dos frutos da terra e dos animais. Eles eram a subsistência do povo. A relação monetária não predominava tanto nas tribos e na vida dos primeiros homens. O que cabia então ofertar ao Senhor como culto de gratidão? As primícias dos frutos e dos animais, isto é, não só os primeiros, como os melhores frutos da colheita e os mais saudáveis dos primogênitos dos animais.

Já no livro de Gênesis vemos um exemplo disso através da história de Caim e Abel. A contenda entre os irmãos nasceu da inveja de Caim pela oferta das primícias feita por Abel, que era muito agradável a Deus, isto porque o fazia de bom coração. E sucede que Caim depois de consumido por sua inveja, mata ao seu próprio irmão (Gn 4,1-16). Era com um coração invejoso, enciumado e homicida que Caim fazia a sua oferta, por isso não agradava a Deus.

É inegável que toda nossa oferta a Deus deve ser acompanhada de um espírito humilde e contrito para lhe seja agradável. Oferta e conversão andam de mãos dadas, como nos atestou Jesus: “Assim sendo, se trouxeres a tua oferta ao altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali mesmo diante do altar a tua oferta, e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão, e depois volta e apresenta a tua oferta” (Mt 5,23-24).

A prática de oferecer as primícias foi se desenvolvendo no antigo Israel pelos sacrifícios expiatórios e rituais do Templo. Mais tarde com a prática monetária se tornando cada vez mais usual entre o povo, e uma relação pouco menos subsistente na economia, o Templo passou a contar também com o dízimo das moedas em suas ofertas. Havia inclusive uma moeda própria a ser oferecida no culto judaico. E, para tanto, havia um câmbio a ser feito entre o dinheiro secular (mundano, impuro) e o do Templo (consagrado, santo).

Temos numerosas passagens bíblicas no Antigo Testamento que vão demonstrando a evolução dessa prática sagrada desde as suas formas mais primitivas. São tantas que nos ateremos por hora a esta breve exposição.

A responsabilidade com a Casa do Pai e o zelo que nos deve consumir

Ao dar o nosso dízimo estamos cuidando também da sobrevivência de uma comunidade cristã que é a nossa família, assim como a Igreja é saudada em diversos documentos magisteriais: “Família das famílias”.

As despesas do Templo são as do povo que é responsável junto ao pastor de sua comunidade por preservar com zelo aquilo que foi consagrado ao Senhor e que utilizamos para cultuá-lo, amá-lo e adorá-lo.

O Senhor cobrará não somente a parte do sacerdote, mas também do povo pelo zelo da fé. Conscientizar as pessoas ao nosso redor para essa catequese comunitária do dízimo é uma tarefa de discípulos. Afinal, o evangelho que anunciamos não é desencarnado, mas toda obra de apostolado se sustenta a partir dos bens que possuímos. Nos valemos deles para buscar para todos aquilo que é eterno. E cada um tem sua parte segundo as suas possibilidades. Vivamos portanto essa conversão comunitária pela fidelidade ao dízimo.

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