Masculinidade e feminilidade são para sempre numa pessoa

Um homem é um ser masculino não só pela evidência biológica de seu corpo, tal como foi gerado naturalmente, mas também nas potências da sua alma, isto é, em suas capacidades essenciais. Diga-se o mesmo da mulher em sua feminilidade.

Portanto, ainda que se mude uma corporeidade, mude-se biologicamente “o sexo”, isto não muda a sexualidade, pois a alma unida à corporeidade em sua constituição natural é imutável na sua essência. A masculinidade e a feminilidade são por assim dizer imortais numa pessoa.

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A individualidade na base da sexualidade

Todos haverão de concordar que somos indivíduos, ou seja, somos pessoas únicas, indivisíveis, irrepetíveis. Nesse sentido, alguns poderiam pensar: “exatamente, e o fato de eu ser indivíduo me leva a ser o que quero”. Este é um pensamento simplório. A começar que de tão indivíduos que somos, somos até incapazes de destruir a individualidade que não pode ser desconstruída em nós. Somente em seu caráter acidental pode haver mudança, nunca na essência. Resumindo, somos indivíduos livres, mas somos “escravos” do fato de sermos indivíduos.

Ser indivíduo não é ser o que eu quero, é na verdade ser o que eu sou. Mas quem eu sou? Ora, antes mesmo de eu conhecer as coisas do mundo e suas possibilidades para querer qualquer coisa, eu já era desde a minha concepção: antes de cada impulso de agora, de cada sonho e plano, e inclusive antes da formação da minha psiqué na vida familiar que foi elemento basilar para a formação da minha sexualidade desde o ventre materno.

Estamos então dizendo que há duas camadas da individualidade: a essencial, que é imutável, e a acidental, que é mutável. A masculinidade e a feminilidade são determinadas na primeira camada da vida do indivíduo. Ou seja, não depende dele e não é algo que se possa mudar na essência. Já na segunda camada ocorrem aspectos que se influenciam pela circunstância existencial na vida familiar, social e nas experiências pessoais e também que são determinados em alguns casos pelo livre arbítrio. Existem situações acidentais da personalidade que estão sob o domínio da vontade e outras não.

O direito à verdadeira identidade

As variantes na prática da sexualidade e o desejo carnal são aspectos acidentais que podem ser corrompidos ou íntegros segundo a sua natureza.

Cada pessoa que sofre com estes acidentes em sua natureza deveria ter a oportunidade de encontrar a sua verdadeira identidade humana, e não ser escravizada para longe de sua personalidade. Ocultar esta libertação no conhecimento da verdade de si mesmo é o que pretende a “nova moral” ocidental que tem feito uma geração inteira de escravos culturais com uma consciência adormecida para o seu verdadeiro “ego sum”, isto é, aquilo que eu sou.

Numerosas pessoas sofrem com dificuldades na sua vida sexual por conta da atração por pessoas do mesmo sexo. Não podemos diminuir jamais o sofrimento dessas pessoas. Também não podemos vitimizá-las como se fossem pobres coitadas. O olhar de pena sobre essas pessoas é apenas mais uma forma de preconceito que existe entre nós, que se mascara com uma espécie de amistosa concordância, tipo: “Coitado, deixa ser o que ele quer”. Esta atitude está longe de ser de alguém que realmente se importe. É mais própria de quem não quer se ocupar do problema do outro. Talvez seja até um mecanismo inconsciente de se livrar do comprometimento de auxiliar o outro na busca de sentido para a sua vida, o que também pode se dá por falta de ciência ou mesmo por se indispôr de dedicar-se a uma matéria tão grave para a vida de um ser humano.

A afirmação mais acertada para os que buscam alguma resposta mais imediata para a sua verdadeira identidade sexual é esta: você não é necessariamente aquilo que sente, deseja ou está impulsionado a fazer pelos apetites da carne. Se a identidade for reduzida a estes acidentes carnais o trato da própria personalidade fica prejudicado. Os sentidos não podem definir a pessoa, pois eles são voláteis, passageiros, mutáveis, inconstantes, enquanto a nossa essência permanece sempre a mesma, e dela decorre a nossa real identidade.

Sexualidade: um plano divino para a humanidade

A primeira busca de quem deseja libertar-se dos desvios na formação de sua sexualidade deve ser a descoberta do plano natural de sua vida que surge simultaneamente a nossa existência.

A fé no Deus Criador leva a facilitação desse processo identitário da pessoa humana. Uma vez que Deus, tal como conhecido pelas Escrituras, tanto pelos judeus quanto pelos cristãos, não criou o homem por aleatoriedade, isto é, o Senhor não cuspiu o homem no universo para que fosse qualquer coisa sem rumo, sem destino, sem um princípio segundo uma finalidade específica. Ele fez homem e mulher para a realização de um plano divino em suas existências.

Com isso, não quero dizer que é impossível a uma pessoa não-crente encontrar um caminho para a busca de sua verdadeira sexualidade, mas diria, ser muito mais difícil em alguns casos, pois a sexualidade se ordena por um propósito natural que culmina num plano sobrenatural, que consiste por sua vez nesse plano divino.

Pois qualquer um poderia se perguntar: mas quem acaso fez isto? E para que isto? Masculinidade e feminilidade, quem as constituiu?

Ora, a compreensão de uma humanidade vinda do acaso tende a uma visão desordenada da sexualidade por consequência. Talvez, por isso, os povos pagãos, que viviam sob a fé em deuses inconstantes e suscetíveis, que por um acidente geraram os elementos do universo e deram vida à humanidade, tinham uma facilidade enorme de admitir a pansexualidade.

Dois elementos portanto são identificados como extremamente prejudiciais a uma formação da sexualidade segundo o seu ordenamento natural: o ateísmo, por carecer de uma visão plena na consideração da existência de um plano divino, e o paganismo, por considerar o universo como mera existência originada do acaso sem uma finalidade própria, a não ser viver das criaturas. Insisto: não é impossível a um pagão ou a um ateu compreender o plano natural existente na feminilidade e na masculinidade, porém está mais sujeito a dúvidas antropológicas, filosóficas e teológicas sobre ambas. Para aquele que não tem fé, carecem elementos fundamentais a fim de aceder a um ordenamento natural da vida do universo e do homem, o que fará com que as afirmações antropológicas e filosóficas estejam limitadas pela sua falta.

A cura plena da identidade passa por um encontro com o amor de Deus que revela seu plano ao homem para fazê-lo feliz. O pecado dana a busca da felicidade. É nisto que a recuperação do sentido de vida vem por um programa de vida revelado por Deus. A isto chamamos de redenção. Resolver encontrar a sua real identidade na sexualidade é um caminho redentor que não pode descartar a vontade divina, senão não passará de uma corrida ao abismo.

Muitos que sofrem estes problemas em sua sexualidade poderiam perguntar-se: então para que serve a minha sexualidade se sinto atração por pessoas do mesmo sexo, o que se opõe à vontade de Deus? Esta pergunta esconde um reducionismo da sexualidade à prática sexual. É verdade que a plena sexualidade se vive na prática carnal, sem excluir a sua correspondência natural. Ainda sim a sexualidade não se limita a ter relações sexuais.

A sexualidade não é só a prática do sexo

Todos concordam que a feminilidade não se encerra no fato de uma mulher ser mulher na cama, e de que a masculinidade não é simplesmente viver mil e uma noites de amor com uma mulher. É muito mais que isso.

A sexualidade está no funcionamento de todo o nosso ser, nos afetos, nas amizades, no sentido de paternidade, maternidade, filiação e na esponsalidade, etc. Por exemplo, a sexualidade masculina de um sacerdote se versa em sua paternidade espiritual, então, por mais que seja celibatário,  a sua sexualidade não foi erradicada. Ela foi ordenada a um fim de consagração e doação total a Deus e aos irmãos. A sadia sexualidade num sacerdote ajuda-o na sua entrega enquanto se tem a masculinidade como fator crucial para a desenvoltura se seu ministério.

As nossas relações humanas estão antecedidas de uma sexualidade natural, que pode ou não estar corrompida. Se for o caso, o peso disso será sentido no dia-a-dia. E isso é um grande drama para quem o vive, como pude acompanhar em diversos casos em minha vida religiosa.

Sexualidade responsável

Sabendo de todas essas coisas, devemos tratar a sexualidade de uma forma responsável, não como um parque de diversão no qual se pode tudo que se está impulsionado a fazer.

Administrar a sexualidade é ficar no governo da sua personalidade. E ninguém está dizendo que seja fácil, e sim que não é impossível. A descoberta do sentido de vida por uma sexualidade ordenada em Deus é a porta estreita que permite o encontro de nossa essência, e é nisto que está a nossa felicidade.

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