Carta aberta aos cariocas para refletir a crise – Pe. Augusto Bezerra

Queridos conterrâneos desta cidade Maravilhosa, que assim é apesar de seus assombros, estamos de fato num tempo de grande provação. E nossas maravilhas estão escondidas em rostos apreensivos, na tristeza de tantos, na ameaça de um caos social, nos rostos sem risos.

O que fizeram conosco? Não fizeram nada mais do que permitimos nesses últimos anos como que numa espécie de crime culposo. Terá sido por ignorância de não se saber dos bastidores do teatro político? Pode ser! Por sermos otimistas demais e altamente confiantes no potencial do nosso Estado? Talvez seja mais uma das manias da carioquice. Que tenhamos sido enganados, roubados e trapaceados, sabemos que tudo isso é fruto de uma “arte” política dos espertos que acham que terão eterna cobertura para os seus erros.

Chegou a conta. E aí todos conjugaremos da mesma ação: “eu pagarei, tu pagarás, ele pagará, nós pagaremos”. Minha dúvida porém é: “Vós políticos pagareis? Eles que se sentam em suas mansões todos os dias, e agora com o peso de seus corpos sobrecarregados de lacinações sobre o dia de amanhã, acaso, pagarão?”

Aprendemos que no meio das maravilhas há pecados demais, que por Deus podem ser perdoados pelas súplicas de qualquer um de joelhos dobrados. Ainda sim diante da justiça dos homens é justo ser reparado todo pecado social como penitência do coração vacilante que fez vacilar milhares por suas más ações. Políticos, vós que viveis de roubos, pedi perdão, e nem que tenhais que esticar as mãos às algemas, reparai, reparai para que o Senhor leve a vossa humilhação em conta no dia final.

Não pensemos que somente os que nos governam são os que carregam pecados. Dentre a multidão de pecados acumulados nos escombros desta cidade está o pecado de “não se importar” de um povo que tem ginga no pé, mas não consegue fazer seus políticos gingarem dobrados às suas necessidades e às suas vontades nascidas do anseio pelo bem comum.

Nosso Rio corre pra desaguar com pedaços inteiros de sonhos, nos deixaram às águas amargas. Tem como que gosto de absinto, turvadas de morte, umas que ainda o Rio não carregou, outras que já desaguaram.

Como será o batuque agora? Qual é o ritmo e o compasso? Toque para nós a melodia dos enlutados por respeito e pudor pelos nossos miseráveis. Uma cidade onde se ouve o vozeirio dos direitos, o grito dos deserdados da própria terra, e o silêncio da impotência. Cortem os pés, não sambem. Se os governantes não dançam para vós de que servem vossos passos celebrados por todo o globo, que muitos carregam como trunfo de uma vida alegre. Como diria o poeta, “dura o tempo de um carnaval”.

A cidade está de joelhos, com a espada sobre a cabeça, mas aproveite a sua prostração para adorar quem lhe fez maravilhosa, e Ele lhe arrancará as máscaras da tristeza e lhe dará motivos de festejar depois de tudo.

Devolvam as maravilhas a Deus. Devolvam o coração a Deus. Façam oração, penitência, convertam-se desde a piedade até o homem social que devemos ser enquanto “servos inúteis” das maravilhas de Deus, se conscientizem da cidadania, participem da história, escolham melhor seus governantes, pois a vida não é só samba, não sobrevive ao ritmo de bambas.

Há esperança? Ora, isto ninguém desengana porque ela depende do que haveremos de fazer. Desenganam a cidade, não a esperança pois ela nessas horas é o nosso melhor potencial. Sem ela, o que faremos?

Parem agora o que não devem, ocupem-se do que devem, pois acabou o tempo de fazer somente o que se queria e distrair-se da cidadania. A hora é agora, pois para muitos nos leitos dos hospitais já é a hora da morte. Será o que devemos e fazemos que remediará a alguns que sobreviverem, pois mais tarde seremos nós lá na hora da nossa morte. E se nada fizermos, interrogaremos: “o que fizeram conosco? Nada mais do que nós permitimos…”

Padre Augusto Bezerra,
12 de novembro de 2016.

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Comentários

Comentários

1 comentário sobre “Carta aberta aos cariocas para refletir a crise – Pe. Augusto Bezerra”

  1. Carissimo irmão no presbitério

    Li sua profética carta com o coração na mão… que pena esta situação do RJ que se reflete também no país inteiro. Estamos no samba do criolo doido, perdidos e incapazes de nos encontrar…. parabéns por sua posição… rezemos pelo país que amamos…

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