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A guerra global: do mundo do diálogo ao confronto ideológico

Rio de Janeiro – 4 novo, 2016 – As décadas passadas foram marcadas por um forte chamamento ao diálogo entre os diferentes. O mundo pós-moderno quis conciliar a multiplicidade das idéias atendendo a essa fraternidade humana pelo nome de “tolerância”, “respeito”, “diversidade”.

Tolerância deveria ser apenas a atitude de não confrontar as escolhas de outros que não interfiram nas suas, afinal, esse deve ser o limite do tolerável. O respeito, a capacidade de reverenciar o livre arbítrio desde que não interfira nos direitos de outros. A diversidade, um mundo de opostos sobre as bases destes dois princípios. E, por fim, o diálogo deveria ser o mútuo conhecimento sem a renúncia à identidade.

Tolerância e respeito se tornaram porém as bandeiras da destruição de valores, de tradições inteiras e da integridade da humanidade. Com estas duas flâmulas estabeleceu-se a incursão ideológica entre as sociedades para arruinar a moral judaico-cristã.

No pano de fundo está uma paganização ideológica enquanto canta-se poeticamente um mundo sem fronteiras de liberdade, igualdade e fraternidade que só existe na poesia progressista. Tudo não passa de uma falsa propaganda da Nova Ordem Mundial fechada a tudo o que lhe era anterior.

A sonhada fraternidade humana global

Ora, a fraternidade humana não pode supôr a renúncia da consciência, ou mesmo do significado da existência para poder conciliar os homens entre si, o que seria mero coletivismo, unitarismo, a morte do indivíduo e do seu direito à verdade frente ao corpo social.

Com a exigência da nulidade da consciência para preservar uma dita unidade dos cidadãos e dos povos, o mundo entrou numa situação de perigo e o seu futuro está ameaçado. Pois se exige aquilo que nunca foi um direito, de que o homem renuncie algo tão elementar de sua existência: a consciência. Até onde o homem é capaz de ir pelo direito de consciência? À guerra? Ao martírio? Quais renúncias este homem estaria disposto a assumir? Uns chegaram ao martírio inclusive renunciando a própria vida em vista de não abrir mão do que se acreditava como verdade como um contundente não à morte da consciência. Antes a morte do corpo, preferiram estes, do que viverem como hipócritas não sendo livres para a vida do próprio espírito que também depende da consciência.

Grande prova dessa exigência sobre o indivíduo é a intolerância civil com a pregação de credos contrários ao que julga-se politicamente correto ou ainda com qualquer posicionamento crítico racional que se lhe oponha. Em nome da tolerância se exige a nulidade de consciência a fim de que seja homologado e se concorde que seja verdadeiro o que se pede para ser tolerado. Ou seja, não é apenas para respeitar, é para idolatrar e ensinar como certo passando adiante às gerações vindouras. Mas, se não concordar, é intolerância. Qual é mesmo o real significado de tolerar? Não faz o menor sentido.

A ausência da verdade com a soma de fatores ideológicos gerou um mundo polarizado com reações em cadeia numa espécie de fragmentação incontrolável na qual toda ânsia de quem se defende do relativismo está no interesse de salvaguardar a liberdade ameaçada e já condicionada por interesses de grupos sectários da sociedade que trabalham por um novo modelo social oposto à tradição.

A utopia

O fato é que nada poderia ser mais utópico e tão incompatível com a racionalidade das coisas do que mesclar princípios opostos e tentar validá-los simultaneamente como verdadeiro numa mesma civilidade. Uma hora isso haveria de conduzir as sociedades a um choque interno pois estes princípios crescendo lado a lado, tal como o joio e o trigo, iriam num dado momento entrar em luta para subsistir no código civil dos povos garantindo seus privilégios em detrimento de outros.

O resultado disso é o fim do diálogo diante de uma explosiva guerra ideológica global onde o palco de conflito é todo lugar onde as insídias da diversidade tentam apagar séculos de história baseados nos valores perenes também justificados na racionalidade, e não só por um simples credo ou convenção.

O estado de guerra inevitável

Esse é o tão sonhado mundo nihilista de Nietzsche que consiste no apocalipse de tudo aquilo que possa pôr limites às paixões humanas. É o tão desejado mundo de Freud que derruba todas as normas para o homem desprezar as leis de sua própria natureza como se isso fosse mera convenção cultural mutável.

Vivemos na passagem de um mundo do diálogo para a guerra ideológica que definirá o estado das coisas nas próximas gerações. Podemos até dizer que há um choque de gerações, a da guarda fiel dos valores e àquela da agenda liberal da Nova Ordem Mundial.

No meio de tudo isso está como principal ferramenta a guerra de informação, um palco de conflitos virtual e midiático. Tais instrumentos servem como a experiência da “Ágora” onde todos reúnem-se categorizando suas ações segundo as suas idéias. Por eles forma-se como que uma assembléia difusa virtualmente que chega inclusive em alguns casos a ter o poder de decisão para a civilidade pela pressão social da guerra de informação. Nela estão presentes as idéias de lógico e ideológico, o racional e a vontade.

A bondade e o amor discursivos são o escudo que todos querem trajar nessa guerra para recrutar mais “soldados”. A doutrinação marxista e o liberalismo se ocultam sob esses disfarces de humanismo. À custa da corrupção da razão, da lógica e da verdade se deseja estabelecer cada qual seu apanágio ideológico. Enquanto isso está de outro lado a razão, o Lógos, a verdade, a virtude.

O discurso humanista de diversos movimentos ideológicos da atualidade é como que uma espécie de “santo do pau oco”, cheio de elucubrações inconsistentes, sem lógica, despidas de razão. Ora, é possível haver uma real bondade nas coisas sem a subsistência delas na verdade? Acaso, para fazer prevalecer a plenitude ideológica sobre o lógico não se precisaria do velho disfarce sofista discursivo e retórico?

Traçando uma analogia evangélica entre o ideológico e o racional, ainda que o joio vista a mesma capa de palha que o trigo ele continua a ser joio. O trigo é o fruto do que realmente foi semeado (fruto real) enquanto o joio é o não-fruto disfarçado e enganoso, de tão semelhante, dir-se-há alguns: “É trigo”. Um é a imagem da verdade e da bondade, e outro apenas a aparência, a imagem da incosistência.

O efeito global do enfrentamento ideológico

Dessa guerra ideológica em curso não há espaços preservados. Até o sagrado que parecia intocável se tornou instrumento de afirmação para idéias completamente alienadas da normatividade da fé. De tal modo que na política, na religião, na arte, na comunicação, no mundo acadêmico, entre outros, ela vem acontecendo.

O Papa Francisco numa colocação recente deu eco a esse confronto global ideológico ao dizer que “existe um guerra mundial contra o matrimônio”.

O que parecia ser apenas uma disparidade entre a velha razão do mundo ocidental e a cultura, agora também tornou-se um choque entre a religião e a cultura da pós-modernidade, onde os credos são chamados a uma forte apologética para a sobrevivência de suas estruturas normativas e critérios de vida essenciais que lhes constituem.

A capacidade de transformação das sociedades a partir desse embate não pode ser desprezada, subestimada, e ninguém está fora do alcance de seus efeitos. Todos são empurrados a um posicionamento de onde esteja para contribuir com o futuro da humanidade. Nesse caso, a quantidade de pessoas envolvidas no processo importa muito para ocupar espaços fundamentais de liderança, formação, atuação política, cultural, religiosa e familiar. Por essas e outras vias será possível se encampar  para entrar na guerra de informação.

A esperança numa possível vitória da racionalidade

A racionalidade sempre vence na história. Contudo precisamos escolher quando ela vencerá. Se depois de ter produzido perdas humanitárias graves e tanta destruição, além das que já contemplamos, ou se pra já agindo agora de um modo reativo para evitar maiores danos à humanidade.

Esse tempo não é favorável aos vícios da omissão, do silêncio, da indiferença ou para relativismos. Fazem-se necessárias a participação, a fidelidade, a coerência, a resiliência, o espírito de fortaleza e da verdade.

Só podemos dizer que amamos de fato a humanidade se não deixarmos que ela venha a jazer sem a verdade e a racionalidade que podem salvá-lá dos perigos da história. Se dissermos que a amamos sendo desfavoráveis a verdade, mentimos, e o nosso próximo que agora é a humanidade ferida vai morrer a míngua sem um “bom samaritano” que lhe acuda do desengano. Construamos uma hospedaria para abrigá-la, paguemos o preço e estejamos dispostos a pagar em dobro por gerações que adormeceram não cuidando de seu mundo.

Comentários

Comentários

2 Comments

  1. Anônimo

    LI,E PUDE DEPARAR,COM A VERDADE,SEGUNDO O ARTIGO DE PE. AUGUSTO BEZERRA.

  2. Rogério Nantes

    Gostei do texto… reflexão importante sobre nossa atualidade. Ora et Labora!

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