Rio de Janeiro – 25 ago, 2016 – O filme lançado recentemente é uma reprodução de um tema épico já levado há decadas atrás ao grande público e que agora foi enquadrado no espetáculo da tecnologia cinematográfica contemporânea. A antiga produção (1959) foi indicada a doze Oscars e ganhou onze. Incrível, não? Será que essa produção ganha? De toda forma, “Ben-Hur” é uma obra expecional, com raízes existenciais e filosóficas profundas mesmo na simplicidade da sua narrativa.

Assista o Trailler:

O contexto histórico no qual se passa o roteiro do filme é a fusão dos mundos grego, romano, israelita (pré-cristão) e o emergente como uma síntese realizada na força motora do cristianismo, mostrando colateralmente uma sociedade religiosa nascente que tem um potencial avassalador de modificar todos os elementos nesse encontro de culturas e sociedades. É aquilo que muitos teólogos diriam ser a “plenitude dos tempos” profetizada pelas Escrituras, o que pode ser entendido em outras palavras como uma maturidade dos tempos para acolher a Boa-Nova evangélica. Nesse cenário fatídico do início de nossa era, apresentavam-se as condições fundamentais de sua contingência histórica para uma vasta, eficaz e rápida disseminação deste anúncio da mensagem de Jesus.

Em consideração desses paralelismos é que se desenvolve a trama da vida de Judá Ben-Hur, representado pelo ator Jack Huston.

É verdade que toda essa questão religiosa não parece ser fundamental ao filme. Enquanto se assiste, tem-se a impressão de ser algo periférico. Entretanto, filosoficamente esse é o pano de fundo sem o qual o filme tem um sentido meramente secular e seria mais uma historinha de lutas do circo romano que estamos cansados de ver. Saiba-se que o fator cristão no filme não é marginal, mas central.

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A realeza refém de César

Ben-Hur, membro da realeza, é herdeiro não só de um reino em Israel. Também recebeu o legado da inevitável rendição de sua nação ao Império Romano imposta pela “Pax Romana”, que servia para subjulgar os povos sob a ameaça de invasão militar caso a nação se rebelasse contra a sua ocupação. Essa rendição não era aceita pelo grupo rebelde “Zelotes”, que inflamava uma disputa militar entre Israel e Roma.

Os reis e membros da realeza desse período, que lidavam com a invasão romana, se viam na obrigação de conter as revoltas do próprio povo indignado com os impostos exarcebados de Roma e a falta de liberdade consequentes da ocupação.

O sentimento obviamente dos súditos era de que seus reis eram traidores e cúmplices do Império invasor. Contudo, de maneira proporcionalmente inversa Roma pensava que a realeza, quando não atuava de maneira eficaz e resoluta frente a uma rebelião, agia como cúmplice dos rebeldes. Imaginem o quanto era difícil estar a frente de decisões onde estava em jogo a vida do povo e da família real, de modo especial, o Rei, que sob ameaça, tinha que oficiar sabendo da implicância de suas ações na integridade de sua própria família ou de seu povo. Os reis viviam sob pressão contínua, e sem querer aqui justificar também suas atrocidades e pecados cometidos como aliados de Roma.

A família como o centro da história

A trajetória familiar de Ben-Hur é o eixo de compreensão de toda a trama. Podemos dividir o filme em “tese, a unidade familiar; antítese, a fragmentação quase total; e síntese, a resolução da história e suas lições”. Não farei aqui nenhum Spoiler. Para quem vai ver o filme ainda, vê-lo assim ajudará a dar um passo a mais em sua reflexão sobre a relação família e sociedade que está também no núcleo dessa obra.

A família de Ben-Hur sofre os reflexos das questões externas da sociedade sem perceber que sua vida é empurrada para um curso implosivo de suas relações, onde na vida adulta, ele e o irmão adotivo, Messala (Toby Kebell), passarão por dilemas que  sustentarão o cenário trágico.

Tudo acontece porque Messala é de origem romana, e na infância foi feito filho adotivo da família real de Judá Ben-Hur, contraindo uma relação de profundo afeto a estes que lhe deram a oportunidade de renascer para uma vida nova, e não morrer como um orfão a míngua no meio do mundo. Mais tarde porém as decisões dele interferirão diretamente na vida de todos criando numerosos fatos complicadores.

Ora, sem dizer antecipadamente o que se passa na história, cada um pode imaginar que Messala crescerá tendo direitos a privilégios romanos podendo reclamá-los na sua vida adulta ou não. E aí entra toda a questão. Como ser um bom romano e ao mesmo tempo ser um bom irmão da família real de Judá? Como ter uma carreira na vida militar ou no governo de Roma poderia atrapalhar a vida dessa família na sua afetividade? Qual será a escolha de um e de outro: amor ou dever? Prestígio ou honra? Misericórdia ou vingança? Deus ouvido no meio da confusão histórica das sociedades ou a consagração total ao mal?

O Alpha e o Ômega da trama

A pessoa de Jesus (Rodrigo Santoro) é envolvida radicalmente na história, embora quando ele aparece em cena dá a sensação de ser uma personagem periférica, e isto é proposital.

Na verdade, ele está na transição dos conflitos sem que a sociedade perceba a complexidade de sua importância para o fim de todas as coisas e igualmente para a vida interna, íntima, particular das famílias, de modo específico na história, da família de Ben-Hur. Essa presença fundamental de Jesus como força que transpõe o curso ao qual são levadas as consciências foi citada na obra por Pôncio Pilatos, ao dizer de passagem a Messala que Jesus era mais perigoso do que os “zelotes”, argumentando que, apesar de não usar armas, ao confortar os corações, tratar a todos com compaixão e fazer tais sinais maravilhosos, ganhava força sobre as consciências, e que isso é maior e verdadeira ameaça à Roma.

Esses dizeres de Pilatos são interessantes para entender as peripécias  (mudanças) pelas quais o filme vai passar.

Jesus passará com brevidade na vida de Ben-Hur, Messala, e dos demais familiares. E, ousando fazer uma comparação, essa passagem é como a gota da água que cai no cálice enquanto o sacerdote prepara o vinho para a consagração eucarística. A gota da água ali representa a divindade na humanidade, a qual é simbolizada pelo vinho. Porém essa “gota”, essa “brevidade da passagem”, é transformadora em todos os sentidos, muda a humanidade e seu curso.

Não devemos entender os efeitos da presença de Jesus ali no filme de maneira imediatista, pois há coisas que progressivamente são construídas no coração humano. Ele gera crises com sua lógica, abala estruturas inteiras. E apesar de tudo, ele é a unica saída da ruína imposta pelas escolhas pessoais e circunstâncias históricas. O fim pode ser outro ou continuar sendo trágico.

Somente no final do filme podemos confirmar de maneira integral a interferência da sua pessoa no destino das coisas. O veremos como o Alpha e o Ômega de uma nova trama que se inicia com o seu advento na vida das personagens. Jesus será a síntese, mas não conto o final (rs).

A desintegração

O medo, a guerra, as discórdias, a vingança, a intolerância, o carreirismo, o poder e o orgulho são os dispositivos de desintegração de todo o cenário inicial que passa por um verdadeiro desmonte até chegar a sua antítese, um verdadeiro caos pelo qual passarão as personagens.

Em todas as peripécias estão em cena os irmãos Ben-Hur e Messala. Usando imagens das Escrituras: qual será o destino destes dois? Serão irmãos unidos por dois destinos encontrados tais como na relação fraterna entre Davi e Natã? Serão como Caim e Abel tendo a morte de um ou dos dois como preço das trágicas decisões? O que prevalecerá na história? A tragédia é inevitável? Será que ela tem perdão? Se tudo falir e diante das mortes todas, como será possível reconstruir qualquer coisa? Será o nada depois? Qual a lição tiraremos de quando Jesus é ouvido sendo considerado como um mestre interior em todo seu mistério e de quando Ele é totalmente desconsiderado?

Espero num futuro breve poder aprofundar muitos mais com vocês sem ter a preocupação de fazer um verdadeiro spoiler do filme. Por enquanto, o resto da reflexão fica por conta de quem já viu e quem ainda o verá.

Só peço uma coisa, que ao ver o filme, ou se já o viu, aplique a seguinte chave de leitura ao momento adequado da trama e que são as palavras de Jesus: “Quando eu for elevado da terra, atrairei para mim todo ser” (Jo 12,32).

Um filme que vale a pena cada centavinho

É um filme para toda a família. Leve seus amigos, sua comunidade, seu grupo de espiritualidade, pessoas do seu trabalho, faculdade ou escola. Você pode ver nos grandes cinemas.

Estando na sala de cinema, percebi o quanto esse filme pode ser significativo e levar argumentos importantíssimos a interioridade das pessoas. Muitos vão vê-lo sem saber bem o que irão asssitir e tenho a impressão de que muitos saem de lá surpreendidos, pois não é comum um filme épico com esse tipo de abordagen ser colocado nos grandes cinemas da atualidade, e que favoreça ainda por cima a mensagem cristã.

Não é apenas mais um filme épico como outros. De todos desta categoria que vi nos últimos anos nos grandes cinemas é o mais filosófico em toda sua simplicidade e o mais impactante para a existência das pessoas.

Vai a dica

Seja esperto também. Insisto: chame seus amigos. Não faça todo o spoiler sobre Jesus se ele for reticente a temáticas religiosas. Bota o peixe na rede, usa a isca certa! Lembre-se de apresentá-lo como um filme épico que conta a história de uma família dividida por forças sociais e itinerários políticos daquele tempo.

As grandes mídias seculares não tem interesse nesse filme, pois vai contra a corrente do lobby anti-cristão.

Então, se você é cristão, existe uma chamada interior, missionária, para propagar esse filme em suas mídias sociais e fazer com que o máximo possível de pessoas o vejam.

Bom filme a todos. E para os que viram, parabéns.

Autor: Padre Augusto Bezerra

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