Artigos, Crítica, Notícias

Jogar Pokémon Go na Igreja é pecado?

Rio de Janeiro – 05 de ago, 2016 – Diante da novidade do Pokémon Go, jogo extremamente atrativo por fazer uma fusão de vários aparatos tecnológicos num único dispositivo permitindo aproximação da ficção ao mundo real, se levantou em todo mundo um série de debates sobre os limites do entretenimento considerando a privacidade, o respeito à patrimônios públicos, símbolos, monumentos e até mesmo a templos religiosos.

Não obstante a criatividade dos seus idealizadores, é preciso entender que o potencial do aplicativo de entreter, ao mesmo tempo que é uma diversão muito legal, precisa ter o seu uso aliado à cidadania e à educação dos jovens e crianças para terem em conta os limites necessários.

A prudência exige que pais, educadores e responsáveis por locais referenciais onde possam acontecer tais circunstâncias de entretenimento se previnam para evitar acidentes, desrespeitos e até mesmo crimes de violação de privacidade, patrimônio público ou inconveniências em lugares peculiares que demandam certo decoro.

A polêmica entre o sagrado e o profano

Entre os ambientes elencados no aplicativo estão os templos religiosos que são lugares na maioria das vezes destacados num bairro ou vias de grande movimentação, fator relevante para que o App determine onde será um palco de disputas virtuais do jogo.

Muitos fiéis por um certo impulso e animosidade poderiam pensar que não haveria nada demais: “É só uma brincadeira”; “Relaxa”; “É instrumento até de atração”. Os mesmos não diriam coisa igual se o ambiente se tratasse de uma delegacia de polícia, um tribunal de justiça, o palácio do governador, entre outros lugares que comportam decoro e seguridade pela sua natureza.

O espaço da Igreja está além de uma questão de seguridade certamente. Todo espaço religioso é ambiente de silêncio, recolhimento, oração e não pode confundir-se com o profano em nenhuma circunstância. Deve-se à liberdade religiosa e ao direito privado de cada instituição respeitar a sua normatividade no seu uso, que longe de ser algo proibitivo, é o que permite zelar pela natureza do ambiente e do que ali é vivido.

A noção de sagrado é primitiva, bem distinta e antagônica ao conceito de profano. Sem recorrer a longas citações teológicas ou até mesmo filosóficas, vamos às definições de ambos os termos no dicionário de língua portuguesa:

Sagrado

(latim sacratus, -a, -um,, consagrado, santificado, santo)

adjetivo – 1. Que recebeu a consagração, que se sagrou; 2. Relativo ao culto religioso. = sacro, santo ≠ pagão, profano3. Que inspira ou deve inspirar grande respeito ou veneração. = sacro, santo4. Que deve ser cumprido ou respeitado (ex.: direito sagrado, promessa sagrada). = inviolável5. Que é muito puro ou tem qualidades superiores.

“sagrado”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://priberam.pt/dlpo/sagrado [consultado em 05-08-2016].

Profano

adjetivo – 1. Que é alheio à religião; 2. Secular; leigo; 3. Oposto ao respeito devido ao que é sagrado; 4. [Figurado]  Que não tem conhecimentos relativos a determinado assunto/ substantivo masculino – 5. As coisas profanas; 6. Leigo; 7. Pessoa não iniciada.

“profano”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://priberam.pt/dlpo/profano [consultado em 05-08-2016].

Destaque-se as expressões: “sacro ≠ profano”; “que inspira ou deve inspirar grande respeito ou veneração”; “= inviolável”. Pelo próprio significado da palavra temos uma assertiva clara da inviolabilidade do sagrado pelo seu diferente, o que lhe é oposto: o profano, que, pela definição que vimos, “é alheio à religião”, “secular”, ou do hábito de fora, do mundo.

A sacralidade é a manifestação simbólica da divindade, é a sua comunicação. Em algumas condições, para nós cristãos, o sagrado traz consigo os graus da própria presença de Cristo.

A banalização do lugar sacro é uma perda grave e significativa do temor e respeito a Deus,  subestimando consciente ou inconscientemente os lugares dedicados a Deus como um lugar qualquer.

O que diz a Igreja sobre o sacrilégio?

No Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 2120 assim é dito: “O sacrilégio consiste em profanar ou em tratar indignamente os sacramentos e outras ações litúrgicas, bem como as pessoas, as coisas e os lugares consagrados a Deus. O sacrilégio é um pecado grave, sobretudo quando é cometido contra a Eucaristia, pois que, neste sacramento, é o próprio corpo de Cristo que Se nos torna presente substancialmente”.

E o que seria sacrilégio? Mais uma  vez não me valerei de prescrições teológicas e nem mesmo legais do estatuto canônico da Igreja. Irei apenas à definição básica do conceito:

Sacrilégio

substantivo masculino – desrespeito a certas normas e/ou preceitos religiosos; pecado cometido contra aquilo que é considerado sagrado; desonra ou difamação direcionada as coisas que são caracterizadas sagradas; falta de respeito contra o que deveria ser respeitado e/ou admirado; ato condenável: derrubar aquele monumento foi um sacrilégio.(Etm. do latim: sacrilegium)

“Sacrilégio”, in Dicionário Aulete da Língua Portuguesa, http://dicio.com.br/sacrilegio [consultado em 05-08-2016].

Ou seja, a violação do espaço não precisa ser por um ato extremo de ataque ou ultraje, o mínimo desrespeito transita já no campo de ação sacrílega enquanto se introduz naquele espaço chamado “A Casa de Deus” algo que só é cabível ao profano .

Portanto, sejamos mais específico, e levando em consideração tudo que vimos até aqui retomamos a pergunta: Jogar Pokémon Go na Igreja é pecado? Sim, é pecado, porque faz-se uma ação sacrílega de violar o sagrado com o profano usando o lugar consagrado a Deus, isto é, exclusivo ao culto e à oração, para brincar e se entreter, coisa que deve se fazer fora, no profano.

O problema histórico da profanação

Ora, o problema da profanação não apareceu na história agora por causa do Pokémon Go, ou de qualquer coisa virtual ou de atos de ultrajes contra a religião da atualidade. Jesus mesmo encarou o problema da confusão entre sagrado e profano: “Tendo Jesus entrado no pátio do Templo, expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo; também tombou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos comerciantes de pombas. E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração'” (Mt 21,12-13). Note-se bem o que é dito: Jesus tomou de assalto os que faziam aquelas coisas no pátio, e não no próprio Templo. Veja a idéia de pertença e sagração naquele tempo mesmo de um local externo ao átrio do lugar de culto. A narração do Evangelho de João conclui com a confirmação da profecia de Isaías que se cumpriu na pessoa de Jesus: “Então seus discípulos lembraram-se do que foi escrito: “O zelo pela tua Casa me consumirá”” (Jo 2,17).

O Senhor não quer a banalização de sua Casa, e se somos homens de fé, temos que considerar esse segundo mandamento fundamental ao que crê: “Não tomarás o nome do Senhor em vão”. Tomar o seu nome não diz respeito somente a palavra que utilizamos para invocá-lo, mas tudo que é dele e para ele, tudo e todos que lhes são dedicados, desde lugares a pessoas sagradas, como aprofunda o Catecismo da Igreja Católica.

Vamos jogar?

A brincadeira é boa, e em si não é nenhum pecado, podendo ser vivida dentro dos limites da cidadania e do respeito. Alguns têm até tomado iniciativa de acolher os jogadores em localidades externas à igreja, isto é, fora do templo, para atraí-los e quem sabe ter a oportunidade de gerar vínculos que sirvam à própria evangelização. A idéia é genial, dá ocasião propícia para a catequese e fazer novas amizades.

É importante ter alguém que coordene, um líder que dê as regras do ambiente do jogo mesmo nos espaços anexos à igreja em que seja permitido realizar atividades semelhantes. Senão, além da oportunidade perdida, corremos os riscos do jogo ir para fora de suas fronteiras.

Podemos retomar ao longo do desenvolvimento do uso da aplicação no Brasil esse tema polêmico do Pokémon Go que ainda vai mexer com a cabeça de muita gente.

Autor: Pe. Augusto Bezerra/ Curta a nossa Página ⇓

PSX_20160801_125713

Comentários

Comentários

1 Comment

Comments are Closed

Theme by Anders Norén

.....

Em breve teremos novidades em nosso canal. Estamos integrando nossas mídias e aprimorando nossos serviços para o apostolado virtual. Inscreva-se clicando na foto do canal e fique por dentro.