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A vida de um padre é um enigma para o mundo

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Rio de Janeiro – 04 ago, 2016 – O chamado à vida sacerdotal é um mistério para o próprio eleito. Pois não se dá segundo uma inciativa humana e por uma projeção pessoal, e sim porque Deus mesmo toma para si aqueles que Ele quis unindo-os ao seu sacrifício pela salvação do mundo. Isto só é possível ao homem por causa da misericórdia e do amor inesgotável de Deus. Daí entramos num grande enigma no qual não entendemos a figura de um sacerdote, uma vez que essa predileção do Senhor é insondável por nós: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55,8). E quem ousa dizer que sondou coisas tão profundas a ponto de explicar porquê um homem é separado de outros para ser para o mundo a comunicação viva de Cristo?

A pergunta que não quer calar: por que ele quis ser padre?

Muitos em conversas questionam porque alguém decide ser sacerdote. Dentre os especuladores existem os caçadores de razões humanas, ou das justificativas carnais. Esses curiosos estão por todas as partes, nas comunidades, na família, entre os amigos, desde os mais religiosos até os que são mais descrentes.

A maioria das perguntas são: “Por que você escolheu ser padre? Você namorou? Nunca pensou em casar? A solidão não é ruim? Seus pais eram muito católicos e por fim quiseram que você fosse padre? Teve alguma decepção amorosa? É gay? Era pobre, passava fome, e resolveu virar padre (como se ser padre fizesse alguém enricar)? E quando nenhum dos requisitos carnais é preenchido, então resta uma última tacada: é louco, tem algum problema”. O padre será alguém nunca compreendido plenamente no significado da sua vida pelo seu próprio mundo.

Revela-se nisto tudo também uma incapacidade de lidar com o sobrenatural e de uma grande limitação do ser humano em constituir sua dignidade e significado quase que exclusivamente de coisas passageiras, mundanas e materiais. Como se a existência se reduzisse ao agora, e a estas coisas que caducam, e depois daqui não houvesse nada além.

Uma fé madura permite que as pessoas possam ver o chamado divino, o mistério e a ação sobrenatural que estão no pano de fundo desse homem eleito ao sacerdócio. Busca-se nas coisas da terra uma razão, um sinal para entender algo desta natureza, mas só em Cristo se pode entender, nas coisas celestes, espirituais, acima de todo homem e materialidade.

Vocações perdidas ou em perigo

Podemos até assistir vocações serem perdidas entre aqueles que discernindo seu chamado se vêem pressionados pelo mundo por faltar justificativas mundanas razoáveis para dá-las aos que encontram pelo caminho. O inimigo de Deus usa da imaturidade de fé dos crentes para pressionar psicologicamente aqueles que estão no caminho querido por Deus. A negligência dos fiéis nessa compreensão do mistério do sacerdócio como uma chamada divina é instrumentalizada para pôr fim a numerosas vocações sem que o percebam os vocacionados, as famílias e comunidades inteiras.

Só chega a consumação dessa eleição quem desiste de convencer o mundo sobre algo que basta a Igreja e a pessoa creditar como um querer de Deus. Este sim vai longe, torna-se livre e chega a uma verdadeira aventura evangélica em sua vida, já liberto dos sopros das coisas que passam e das opiniões carnais.

Padre, Pastor e Pai

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A visão opaca de uma fé ainda limitada traz outros sofrimentos às vocações sacerdotais, quando vêem num padre e projetam nele a necessidade de ser uma espécie de “servidor público” estando ali para gerir uma máquina funcional, ou mesmo de entendê-lo como um funcionário de carteira assinada (o que não é), ou uma espécie de líder de equipe, um chefe, tipo um patrão daquela comunidade, um administrador, um fazedor de muitas coisas, um intérprete atrativo que faça encher ruas e praças através de todo tipo de apelo para aumentar as estatísticas, um colega da fé, etc. Muitos se esquecem de ver a essência da vida de um padre: pastor e pai do povo de Deus. Só nessa dimensão eles se convertem em Cristo para os homens.

Porém os padres não andam se queixando dessas coisas por aí, e as pessoas mal sabem que o modo de ver aqueles que Deus mandou a si interfere diretamente na construção das comunidades e no desempenho ministeral dos sacerdotes, dando-lhes mais trabalho do que os habituais de seu serviço à Igreja semeando ali uma dificuldade humana no entendimento sobre o sentido de ser do padre e da comunidade frente a seu pastoreio.

Um amor universal, um só coração para todos

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Um homem que lida com centenas de pessoas num espaço curto de tempo, que não consegue ser exclusivo de ninguém esforçando-se para ser o Bom Pastor para todas as ovelhas. E muitos acham que o padre não deu atenção suficiente quando ele tem que atender a outros que também anseiam por sua ajuda.

A limitação de tempo e condições de um sacerdote deve ser vista sem egoísmos, pois enquanto pastor ele está o tempo todo julgando uma necessidade e outra a ser atendida pela demanda do seu apostolado, dando prioridades que nem mesmo tem coragem de dizer para que alguém não se ache menos importante por não poder ter o que quer naquele momento. Isso comporta maturidade. É verdade que trata-se do fenômeno da multidão pelo qual passou também Jesus durante a sua vida dando atenção a um e a outro sem ser excludente, tendo assim um coração universal, sem privatizações. E ajuda nisto a continência através do celibato prometida como modo de vida doada.

Muitas são as ansiedades lançadas sobre os padres, expectativas numerosas, e ao ver tudo isso, ou ele reza para saber qual é a vontade de Deus, ou ele fica igual à palha arrastada a cada sopro de vento. Porém o sopro que deve movê-lo em seu dia-a-dia é sem dúvida o do Espírito Santo.

Percebendo isso os leigos podem ajudar mais seus padres em deixá-los também serem de todos percebendo os movimentos do Espírito em seu pastoreio que se regra segundo a inspiração de Cristo nele.

Nossos pais, os heróis da fé – supliquemos pelos pastores

Conheci muitos heróis nesse caminho que vieram antes de nós. Eles foram nossos pastores e pais, deram suas vidas, se sacrificaram, não se pouparam. Celebramos um deles hoje, São João Maria Vianey, que suportou todas essas condições humanas por amor a Cristo e pela salvação das almas, e ficou conhecido como o “pároco admirável” da pequena aldeia de Ars na França.

Roguemos, irmãos, pelos sacerdotes para que sejam santificados, e a exemplo de Cura D’Ars tornem-se para o mundo santos vivos caminhando entre nós.

Autor: Pe. Augusto Bezerra

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Comentários

Comentários

1 Comment

  1. Ricardo

    Desconhecia a página, mas acabo de ter prazerosas leituras que me edificaram, principalmente esta acerca do sacerdócio. De certo modo, o desejo que o Senhor semeou em meu coração acaba de ganhar mais corpo a partir deste sóbrio artigo, mas de profundidade penetrante. Obrigado por sua contribuição.

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