A mágoa é uma retaliação ensaiada que na verdade atinge muito mais a pessoa do magoado do que aquele que de fato é ofensor. É um mecanismo instintivo de revanchismo repleto de consequências para os outros em alguns casos, mas ela traz sequelas para o próprio magoado com certeza. É uma realidade muito mais dentro de sua pessoa do que fora e gera um ciclo vicioso destrutivo para aquele que ressente. Mais da metade dos ofensores desta terra sequer o sabe, o vê ou, caso tenha consciência da mágoa do outro, nem mesmo se importa com isso. Em alguns casos, a mágoa é tão ridícula como aquele velho canhão da I Guerra Mundial que só serve para museu como lembrança dos tempos de batalha, e que não é capaz de produzir uma vitória, a não ser uma utopia de vencer. Se assemelha aquele que “segurando com a mão uma brasa para tacar sobre a outra pessoa, acaba se queimando e se ferindo a si mesmo”.

Algumas observações são importantes já de início: o perdão necessário não é um esquecimento dos fatos, nem mesmo a ausência de lembranças dolorosas. Não confundamos a mágoa com a mera memória de fatos. Ela na verdade é o ressentimento estabelecido de modo habitual do desejo de vingar, retribuir com o mal, de planejar algo contra o outro, de maquinar, de destruir e viver para a perdição do ofensor interiormente. O ressentimento por vezes é vivido somente em pensamentos e devaneios, e outras vezes chega a se consumar em atos. Ambos são uma condição de pecado que evocam à conversão.

A retaliação a si próprio

O magoado às vezes mal sabe que sua mágoa nasce de um cobrança interior e inconsciente de empoderamento da situação na qual foi ferido. Virtualmente o sentimento de aversão, repulsa, ódio o faz sentir-se superior como num ato de levantar-se para vencer. A sanção do distanciamento, ou o chamado “gelo” que se dá a uma pessoa, pode ser uma das primeiras etapas de instalação da mágoa e manifestações externas desse mecanismo.

Na maioria das vezes, o tempo anterior é precedido por uma série de ofensas, injúrias, discussões e dissensões, e esse é o tempo da pré-resolução. A mágoa já é portanto a resolução de matar o outro para si, para a sua vida, uma tentativa de aniquilamento interior.

O ressentimento gerado pela mágoa é uma espécie de funeral celebrado perpetuamente, no qual se chora pelo que morreu, entretanto, se chuta também o defunto mal-amado. Enquanto isso a pessoa que o ofendeu jaz morta nesse ressentimento. Não foi por menos que disse o apóstolo João numa de suas cartas: “Todo aquele que odeia seu irmão é homicida” (I Jo 3,15a).

Convém libertar-se do luto, dar lugar a vida, e de algum modo deixar que o outro ressuscite para si. O perdão é a ressurreição do que antes estava morto, embora hajam duas formas de ressuscitá-lo: para a vida partilhada ou para deixar o ofensor “partir” com o intuito de viver como alguém liberto dos males passados através dos limites a se estabelecer numa relação, e deixando liberados para a felicidade o ofendido e o ofensor. Disto não nos faltam exemplos nas Escrituras, como vemos em Gn 13, 1-18 Abraão e Ló se perdoarem depois de uma grande contenda, e depois de um consenso decidiram que cada um seguisse seu caminho livremente para a felicidade de ambos.

Do contrário, se não perdoamos, irmãos, a mágoa faz o cadáver do nosso próximo apodrecer em nosso interior e tudo vai se putrefazendo lá, até que quem esteja realmente morto para uma vida feliz sejamos nós mesmos, uma vez que a mágoa é destrutiva, angustia e traz uma tristeza diabólica que esfria a alma. Em outras palavras, ou a gente destrói a mágoa, ou ela nos destrói. Olhando por esse lado a mágoa é um “sentimento homicida” de consequências “suicidas” para a própria felicidade – entenda-se bem!

A mágoa existe para a destruição

Qual é a utilidade da mágoa? Nenhuma realmente, a não ser para nutrir a destruição de qualquer coisa que diga respeito ao seu ofensor. A vaidade sustenta durante muito tempo a mágoa, pois relativizá-la é como que se submeter a uma humilhação, e conservá-la em si dá a sensação enganosa, torpe, de contínua retaliação ao outro.

Imagine a cena de alguém indo ao topo da montanha mais alta do mundo e ali começar a gritar qualquer coisa com toda força que tem, sem que ninguém possa ouvir. E afinal, quem ouve? Somente o próprio que grita escutando o eco e o reverberar de sua voz no abismo daqueles montes. Isso é a mágoa, um sofrimento solitário nutrido pelo consentimento e se enraizando conforme a adesão obtida.

Melhor seria passar pela humilhação de aceitar que foi ferido e de que não dá para pagar com moeda de igual valor fazendo algo ruim como retribuição, do que destruir alguém ou algo por uma vingança estabelecendo uma suja aliança com o mal só para vencer o ofensor.

Insistir na mágoa é perseguir escombros passados e admirar-se deles, lamentando sobre eles e chorando sobre cada pedra. Não seria isso o masoquismo doentio da alma de abrir constantemente a ferida numa busca, ainda que inconsciente, por encontrar o outro nas memórias doloridas para resolver virtualmente as pendências afetivas e enfrentá-lo como quem encara um fantasma que nem pode ver diante de si: socos no ar, pensamentos vãos, juízos obcecados ao relento, sem sentido, sem efeito, sem alcançar o alvo e implodindo o seu próprio autor, gastando suas energias?

A oração pelo ofensor: antídoto para a mágoa

Para um cristão esse pode ser um primeiro desafio, se sofre com a falta de perdão. Ir falar com Deus e pedir pelo ofensor. Quem disse que é fácil? Não é! Faz com sacrifício mesmo. E se não conseguir, diz ao Senhor: “Não consigo, capacita-me, ó Pai, que a mim tanto já perdoais”. E não deixe de dizer a que veio: “Vim para rogar pelo meu inimigo, e não o consigo. Diz-me como conseguistes isto lá na Cruz”? Talvez ouça-O respondendo: “Com sacrifício, não sem sacrifício, e esquecendo toda justiça devida”. É fato que o Senhor na Cruz busca motivos para nos perdoar e os encontra nas nossas próprias fragilidades: “Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Ele encontrou na miséria de nossa ignorância, não motivos para condenar, mas para advogar. Descubra na oração que a fragilidade do outro é motivo para rogar, advogar com Cristo pelo perdão que Ele já suplicou na cruz ao Pai, e não causa para condenarmos.

Ressuscitar para a vida partilhada ou para a inevitável partida?

Depois de alguém morrer para nós sob a ação tempestuosa dos nossos ressentimentos, podemos ressuscitá-lo afim de fazê-lo voltar a nossa vida pelo perdão. Há muitos modos de voltar e de estar na vida para os reconciliados, porém o mínimo é saber-se e tratar-se como a irmãos respeitosamente, como nos ordena o Senhor pelo apóstolo Paulo: “Perdoai-vos mutuamente” (Cl 3,13).

A fraternidade pode ser vivida numa distância relativa, não idêntica aquela querida na mágoa. Uma distância cheia de “proximidade”. Como assim? O outro é meu próximo e a comunhão espiritual nos ajuda que qualquer distante esteja como que ao lado. Na Igreja vivemos muito isso. Quando um fiel enfermo está no hospital ou em casa acamado, não pode ir mais à Igreja, sem dúvida alguma, ela permanece ao seu lado pela sua fé que o faz entrar na comunhão dos santos que professamos todos os domingos como elemento fundamental da nossa fé: “Creio na comunhão dos Santos”. Se os limites imprescindíveis para a dignidade do relacionamento com o outro já foram estabelecidos por definitivo, isto não impede a comunhão espiritual como reconciliação legítima.

Essa fraternidade à distância dá-se segundo às necessidades temporais e humanas considerando o fator de fragilidade que ainda subsiste em ambas as partes ou ao menos numa delas.

Devido a dificuldade de um coração ainda fragilizado, a insuficiência de um não fará sobreviver dois, e nem o são conseguirá por muito fazer sobreviver o que está adoecido. O tempo é fator relevante para determinar as condições de possibilidade ou não da vida partilhada.

A condição ideal e mais correspondente ao amor de Deus são as relações restabelecidas no seu estado salutar, tal como Ele nos ama como Pai e nos santifica para vivermos como filhos, seus herdeiros, abandonando assim o homem velho, tornando o passado esquecido e morto. É o amor na sua consumação mais perfeita. Deve ser uma imitação assim do amor de Deus o sonho dos reconciliados.

A inevitável partida do ofensor perdoado, a exemplo da separação já citada de Abraão e Ló, pode ser temporária ou para toda uma vida, e que triste. Contudo, não há céu que impeça o reencontro dos reconciliados se ambos morrerem santificados para lá chegar.

O céu é a morada dos reconciliados

O lugar onde há homens reconciliados de toda tribo, raça, nação e língua é o paraíso. Lá não entram os magoados que odeiam, que desejam vingar, destruir, fazer mal, não entram os que alimentam as intrigas que o Senhor detesta: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). Portanto, o perdão é a condição sine qua non – sem a qual não – recebemos a misericórdia do Senhor e adentramos a porta do Reino Celeste.

O perdão é a luta pela própria salvação, já que adquirimos pela fé a consciência de que o céu é dos reconciliados, e não dos que se deixaram vencer pelo ódio das mágoas. Assim terminamos com a advertência do apóstolo João: “Todo aquele que odeia seu irmão é homicida e não tem a vida eterna em si mesmo” (I Jo 13, 15). Fica claro que nossa eternidade depende do nosso perdão.

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