Homilia da Solenidade de São Pedro e São Paulo

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No Evangelho desta solenidade observamos Jesus interessado no que os apóstolos intuiam sobre a sua identidade pessoal. E Pedro confessa que Jesus é o messias, o Cristo. Temos palavras claras da boca de Pedro sobre a real identidade do Mestre.

As credenciais de Pedro, Paulo e da Igreja Primitiva

Sabemos quem é Jesus! Mas, quem é mesmo Pedro? Quem é Paulo? Quem é esta Igreja dos apóstolos? Importa-nos saber suas credenciais. Ora, Pedro, Paulo e a Igreja nada mais são do que aqueles e aquilo que foi recebido de Cristo no depósito de fé realizado por Ele.

Estes se transformaram Naquele que receberam em suas vidas para perpetuá-lo no mundo: “Christum Dare Fratribus”, isto é, agora convém “dar Cristo aos irmãos”, o mesmo que foi recebido.

Paulo diz sobre isso o seguinte: “Já não sou mais eu, mas Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20). Ele se transformou no Cristo recebido. Este é Paulo, presença e imitação de Deus no mundo. Eis suas credenciais.

Se refletirmos, perceberemos que o que muda tem o poder de “manipular” o mudado. No ordenamento vem por primeiro aquilo que faz mudar. O objeto a ser transformado se submete aquele que molda, transforma.

Na relação de Cristo com os apóstolos e a Igreja, Cristo é o primeiro que submete e transforma: “Quando for elevado da terra, atrairei para mim todo ser” (Jo 12,32). Cristo atrai para submeter a si e transformar fazendo livre do jugo que nos pesava.

E na relação de Pedro, assim como de seus sucessores com a Igreja, ele é o primeiro em Cristo, nunca sem Ele: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). O papa é a imagem de Cristo. E o Senhor sempre está antes de cada uma das pessoas do Papa até o fim dos tempos. A imagem comunica o que ela representa e não é, comunica um outro vivo e verdadeiro. Por isso, é comum da tradição se ouvir dizer que o Papa é “o doce Cristo na terra”, uma vez que como seu vigário é a imagem que o comunica para o mundo.

Christo Nihil Praeponere: “Nada antepôr a Cristo”

Cristo não deve ser posto depois das coisas e sequer da nossa própria vida. Antes de tudo, Ele! Acima de tudo, Ele! E nada lhe preceda para lhe tomar o lugar e roubar o coração. Esse é o verdadeiro significado do martírio de Pedro e Paulo: Cristo foi posto por primeiro em suas vidas.

Houve um momento da vida de Pedro que Cristo foi colocado depois. Quando amava sua vida mais do que amava ao próprio Jesus. Porém, um dia Cristo passa a ser o primeiro na vida dele e morre também ele na cruz da fidelidade ao Senhor. Foi na consumação da sua vida que ele entendeu que ela não podia ser mais querida e amada que o próprio Jesus: “Quem quiser ganhar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida por causa de mim, ganhá-la-á” (Mc 8,35).

Paulo também chegou a essa compreensão: “Para mim viver é Cristo, e morrer é lucro” (Fl 1,21). Viver é transmitir Aquele que fora recebido a caminho de Damasco e se transformar nele. Viver é ter e ser “outro Cristo” (alter Christus, à sua imitação) para o mundo.

As cadeias e a morte que não detém os mártires

Saulo foi detido por Cristo a caminho de Damasco, e se transformou desde que caiu daquele cavalo para ser feito o prisioneiro de Cristo. E libertou-se! Tornou-se definitivamente o Paulo conhecido por nós.

Este Paulo que nem cadeias o puderam fazer parar seu serviço incansável a Cristo. Da prisão em Roma escrevia aos cristãos e compôs partes importantes das Escrituras desde lá. Ele não era um triste na prisão, um depressivo, um homem com espírito derrotista. Ao contrário, tinha um espírito resoluto, “atlético”, persistente e irreverente ao mal: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (II Tm 4,7).

A eloquência do martírio e da Tradição

Mesmo depois de suas mortes, a missão de Pedro e Paulo continua no mundo, pois nos fala o sangue eloquente destes mártires ainda hoje que comunica fé, e aqui está o legado da tradição apostólica destes homens: a Igreja, a sobrevivente dos séculos até a parusia.

Na tradição – do latim “tradere”, “comunicar” -, temos a comunicação do que por eles foi recebibo. A tradição na Igreja não é mofo, nem velhacaria, nem coisa ultrapassada, ela é o Novo sempre porque é o Cristo sempre e para nós mais uma vez comunicado a cada ação de sua Igreja.

Muitos chamam de atrasados e retrógrados os que vivem segundo a tradição cristã. Faz um pouco de sentido se pensarmos que ela é o ajuste do nosso relógio ao tempo primitivo do Evangelho e da Igreja nascente porque o que é comunicado nos transpõe nos tempos já passados de tal modo que vivemos da memória: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). A tradição é essa memória viva de Cristo que passou pelos apóstolos e chegou a nós: comunicação.

Não somos só uns atrasados, como pessoas bem adiantadas no tempo, pois já vivemos por essa memória a vida do céu pela esperança gerada na fé.

Martírio e fidelidade

Coube a Pedro e a Paulo a fidelidade até a efusão do sangue, até o seu derramamento. Esqueceram-se de si mesmos para guardar o que foi dado e que os tornava quem foram para a Igreja.

Os tempos mudaram mas a fidelidade comporta ainda as mesmas exigências que tiveram esses apóstolos e toda a Igreja primitiva. Muda o homem, mudam os tempos, mudam os séculos, e Cristo é sempre o mesmo, pois Deus não muda.

A nós não convém anunciar um outro Cristo que não seja o dos apóstolos, mesmo que seja necessário a vocação do martírio em nossas vidas, que este sangue eloquente da fé mais uma vez seja derramado sobre a terra.

Para guiar a Igreja dos mártires, Pedro foi constituído o primeiro com o poder de ligar e desligar, e assim também seus sucessores. Mas ele liga e desliga na fidelidade, porque Cristo está antes dele, e convinha a Pedro o grande aprendizado de não negar mais, de não trair, e não ele, e não sua vida ser anterior e ocupar o primeiro lugar que é de Cristo. Aprende que nada lhe antepõe. Liga com Cristo, desliga com Cristo, jamais sem ele: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Pedro pode tudo? Seus sucessores podem tudo? Nem Deus pode tudo! Há de concordar comigo ao pensar: “Deus não pode mentir, enganar, errar, ser falso, mal, injusto, orgulhoso, impuro, imperfeito, inconstante ou deixar de amar”. Deus pode tudo segundo seu próprio Ser perfeitíssimo, e Ele não trai o que ele mesmo é, nem se contradiz. Se Deus não muda e nem poderá tudo contradizendo assim o seu Ser, sua natureza divina perfeita, Pedro e seus sucessores, tendo que ser homens da graça, poderão ligar e desligar podendo tudo em Cristo sem contradizer o que Cristo mesmo É e o que a Igreja deve ser até as núpcias do Cordeiro: noiva fiel ao encontro do noivo e jamais uma adúltera. Para não nos afligirmos em algum momento da história, o Senhor nos garantiu: “As portas do Inferno não sobrevalecerão sobre a minha Igreja” (Mt 16,18).

Portanto, os limites de Pedro e seus sucessores sempre serão: Cristo no Evangelho, Cristo na tradição, Cristo hoje e sempre. E assim se entende o ministério de Pedro e a fidelidade da Igreja.

Rezemos pelo Santo Padre nesse dia e pelos seus sucessores para que potencializem essa fidelidade apostólica da Igreja e nos confirmem até a vinda do Senhor. Auxiliados pelo Vigário de Cristo na terra chegaremos ao Senhor que vem.

Pe. Augusto Bezerra, 3 de julho de 2016,

Solenidade de São Pedro e São, Apóstolos

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