Andando de bengala...

Ia pela rua tracejando-a com passos desesperados por descansar no destino um certo moço, não tão moço, mas suficientemente moço para se equivocar acerca de tantas coisas, para errar o caminho. Se percebia que se forçava demais o passo, mais que o necessário, mais parecia que sua única meta era a superação gratuita sem se importar com mais o quê. Tocar os seus limites, conhecer todas as forças, vaguear num céu hilário de parecer tão finito diante de suas pretendidas capacidades. Rodear os fortes, acercar-se aos fracos, sem querer pertencer a um ou a outro, pois todos estão cheios de seus próprios limites. Uma valentia ensaiada, reprovada, um soldado sem exército, e algumas miradas prostradoras como se não valesse todo o heroísmo em si mesmo.

Vi enrugar os passos, e esfolar os pés, e já não o via mais tão moço. Olhares desalentados perguntavam-se entre si: “Quando é que ele vai parar? Que nos poupe desta cena de insistente força que nada alcança”. Outros advertiam: “Por que não te sentas aqui à beira conosco, e sossegas?” Como quem nada escutasse, como se ouvisse um som do alto e o perseguisse, tal como um leão obcecado por sua presa, ele já não tendo as mesmas forças, estendia sua energia a um desejo intenso e à inteligência. Já não fazia tanto, mas estava pronto tanto, mais que antes e não tanto como logo. Forçando sua vontade contra suas próprias limitações, ainda mais sublinhadas e reconhecidas pela sua obcecada lida de subjugar o infinito, e agora resolvendo subjugar-se a ele e ser elevado, ensaia vôos altaneiros e arriscados, sublinhando medos até então desconhecidos que aqueles outros ali escorados tinham colocado como pretexto de seus vôos rasteiros e fracassos.

Vi um ancião, de forças degradadas, já pendente e de olhar penetrante ao céu como se visse e tocasse alguma coisa que ninguém mais o podia. Angústia era vê-lo assim tão expectante sem poder fazer atrito dos meus sentidos com o que ele contemplava. Ele havia chegado àquela normalidade do humano que denominam “loucura” por não ser a normalidade querida dos homens. Um sorriso de moço conservado no rosto, feição serena dos homens maduros e sábios, e este olhar extenso ao infinito. E por um segundo ouvi entre seu sorriso umas palavras num murmúrio: “Que mais!? Estou pronto para mais! Arresta-me logo, pois só me resta isto de tudo que já fiz! Suplico que seja sem demoras”. Vi todos olharem vidrados e assustados como se algo extraordinário agora fosse acontecer. Vimos este ancião repousar seu corpo serenamente, e vi seus sentidos se dilatarem, seus olhos se encerrar, e se fixar, ainda que sem ser mais proprietário desta vista  carnal, uma terna mirada que lhe observando os dias aprendi a ter. Seu silêncio produziu silêncio e reflexão, ausência aterradora. Todos depois dispersos pelos ventos do destino tentavam tracejar os mesmos passos ao largo de tantas ruas que não se podia contar, pois queriam ver o que viu, tocar o que tocou, escutar o som que perseguiu.

Pe. Antonio Augusto da Silva Bezerra

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