09visitaSe olharmos para o Evangelho de hoje (Lc 1, 39-56), no dia em que celebramos a Visitação de Nossa Senhora, veremos muito mais do que a própria letra do Evangelho pretende narrar do encontro de Maria e Isabel. Essa noção baseia-se no próprio conceito que temos de Palavra de Deus, pois a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus, mas a Palavra de Deus é não só a Sagrada Escritura, mas tudo que dela se obtém como mensagem existencial para nós e tudo que dela se compreende corretamente, e se manifesta na palavra de alguém que fala devidamente de seu sentido ou mesmo através da Igreja e de sua doutrina.

No encontro destas santas mulheres, manifesta-se uma série de virtudes humanas e espirituais relevantes para a vida cristã. A palavra virtude vem de “virtus” do latim que significa força. Portanto, esse conjunto de virtudes de Maria e Isabel manifesto no encontro constituem verdadeiras forças do programa de santidade que elas levavam durante toda sua vida na educação dos filhos, na vida em família, em sociedade, no cuidado com o lar, entre outros.

Uma das primeiras virtudes que pode ser contemplada no encontro é a “prontidão para o bem”, a qual moveu Maria a visitar sua prima Isabel para ajudá-la nas tarefas do lar. Essa mesma prontidão de Maria se repete em outras cenas do Evangelho, como nas Bodas de Caná, em que vê a necessidade que urge e suplica ao Filho. E a prontidão de Maria comoveu a seu filho Jesus Cristo que realizou o seu primeiro milagre nas Bodas transformando a água em vinho. A prontidão para o bem comove a Deus, e a tibieza nos distancia dele. Em geral, temos muita prontidão para os nossos interesses pessoais, até mesmo para o mal, e não temos prontidão nenhuma para o bem do outro ou àquilo que nos é solicitado por Deus para nossa própria felicidade e dos irmãos.

Uma segunda virtude é a da “generosidade”. A generosidade de Maria não faz calcular tempo, dispensa tudo o que tem para Deus em seu projeto e para os demais, isso se reflete no sim generoso de Maria que nos trouxe a salvação abrindo as portas do mundo para o Verbo de Deus, e se reflete também na visitação feita a Isabel que dura o período de três meses, como vemos narrado no final do Evangelho. Três meses de auxílio e socorro, deixou tudo, o seu mundo particular e a estabilidade de vida da sua aldeia para estar com sua prima servindo-lhe humildemente.

Uma terceira virtude é uma que é muito cara dos homens e quase todos a tem de modo verdadeiro e autêntico. É uma virtude humana de grande importância para os vários níveis da vida afetiva: a amizade. A amizade nos coloca em companhia, nem sempre aquela que traz a dissolução dos problemas, mas que traz conforto, consolo e paz em momentos de tribulação, que resulta-nos a alegria de não estarmos sós. A amizade nos restaura quando muitas vezes estamos tristes e abatidos. E não é raro que uma conversa, um encontro com um amigo seja o suficiente para refazer nossas energias e alegrias, e mudar tantas vezes um rumo acabrunhador que ia tomando nossa vida naquele intervalo de tempo.

A “alegria” é a aquilo que revigora a amizade e nos faz celebrar juntos, e esta é outra virtude. Com alegria exultou Maria e Isabel, e com igual ou maior alegria João batista celebrou no ventre de sua mãe a “presença amiga” de seu Deus e Senhor que mais tarde haveria de anunciar e preparar para Ele os corações dos homens para o anúncio do Reino. A alegria é fruto da presença e da ação de Deus, esta que inclusive alguém que amamos ou que nos ama nos pode comunicar. Alegria que também a oração nos comunica, que da Eucaristia jorra em plenitude como esta presença consoladora e apaziguadora de Deus dada de maneira real nas espécies do pão e do vinho. Que no altar da Eucaristia possamos exultar e celebrar com alegria ainda maior que a de João Batista, ali onde se encerra o mesmo Deus que se fez carne e habitou entre nós e nascido do seio da Virgem Maria diante do qual celebrou este profeta precursor.

Outra virtude que nos é manifesta aí é a “gratidão”, coisa que poucos possuem como hábito e virtude. Muitos sabem ter, serem servidos, serem amados, mas nunca retribuir o que lhe fora feito por outros e até mesmo por Deus. A gratidão é um ato de justiça, e deve ser o salário do esforço daqueles que fizeram algo por nós. “O trabalhador é digno de seu salário”. E o salário de quem nos fez o bem é no mínimo a gratidão. Deus fez tanto por nós, e somos tão ingratos. Ingratos quando nos ausentamos da oração, da comunidade, da vida eucarística, da vida na Palavra quando pecamos e insistimos em estabelecer um contrato com nossos pecados. Deus se esforçou tanto por nós, que no mínimo devemos dar-lhe o salário da gratidão para que se siga a ela toda nossa vida às mãos do nosso Deus.

Mas a gratidão é a virtude dos humildes, e a “humilde” é o núcleo de todas as virtudes de Maria e Isabel que abrilhantam este santo encontro. Maria de tanto que fora humilde prorrompeu seus lábios numa canção belíssima que até hoje a tradição cristã-católica conservou de maneira celebrativa, inclusive, na liturgia. Quem canta, louva a Deus é grato, é humilde. O soberbo não é grato, pois pensa que o outro não tem relevância para si, nem mesmo o esforço por ele realizado. Maria sabia da importância de Deus, da relevância de sua obra para ela e para os homens. E já percebia o quanto moveu Deus a história humana para preparar os caminhos da salvação e para o resgate do gênero humano, com quanto amor olhou para ela manifestando uma especial predileção em ser a Mãe do Salvador, do Filho de Deus.

O mistério da Visitação de Maria e Isabel é um espelho de virtudes no qual devemos nos inspirar em construir uma vida evangélica, alicerçada em Cristo Jesus. Não poupemos tempo em buscar e querer a santidade como projeto único de vida, usemos de todos os meios e recursos para fazer da nossa vida um verdadeiro programa de virtudes humanas e espirituais.

Maria, Sede da Sabedoria, rogai por nós.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pe. Antonio Augusto da Silva Bezerra

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