Numa cultura marcada pelo culto ao corpo e ao prazer (hedonismo), formar-se ou formar os demais para a virtude da castidade é tarefa árdua, uma vez que ela se compõe de muitas exigências da vida interior, que devido ao estilo de vida do homem moderno, entrou em extinção. A castidade, na verdade, não é uma só virtude, mas se desenha a partir de um quadro de virtudes a ser buscado por um esforço pessoal e pelo auxílio da Graça de Deus. Para tanto, se  deve recorrer a confissão, a Eucaristia, a direção espiritual e a um plano de vida pautado na consolidação das virtudes humanas e espirituais .

Se a castidade é virtude, o que é virtude?

Vamos por partes. Antes de tudo o que é virtude? É um disposição interior à realização do bem de uma maneira habitual (contínua, constante e duradoura), que pode ser infusa por Deus ou ser alcançada por esforço pessoal que inevitavelmente resulta no auxílio da Graça, que a confirma interiormente em nós fazendo dela um modo de santificar-se (purificar-se, guardar-se para Deus) através da poderosa ação do Espírito Santo.

Contanto, a virtude para ser virtude precisa passar pela nossa vontade, em especial aquelas que não são infusas sobrenaturalmente. Por exemplo, existem três virtudes infusas, chamadas teologais, que todo fiel recebe sobrenaturalmente no sacramento do Batismo, fé, esperança e caridade. Logo, essas virtudes já estão impressas na vida do fiel como uma disposição interior que Deus já lhe deu, sendo suficiente que ele consinta na sua vontade com essas virtudes para que ela opere em toda sua eficácia. Mas, em geral, as demais virtudes, além dessas supracitadas, costumam ser alcançadas por um esforço pessoal com a ajuda da Graça. Por exemplo, as quatro virtudes chamadas cardeais: temperança, fortaleza, justiça e prudência.

As virtudes cardeais na consolidação de uma vida casta

Dissemos que a virtude é uma disposição interior habitual ao bem. Se a castidade é virtude, ela é essa disposição interior. Mas nem toda disposição interior está disassociada das outras, às vezes pelo contrário, uma sustenta a outra, e sem uma outra não poderá subsistir. A castidade, nesse sentido, tem dependência em relação a outras virtudes, tornando-a uma virtude de difícil alcance se não empregado todo esforço para se chegar a um estado virtuoso de alcance integral na nossa vida.

Isso nos revela muito, pois se uma pessoa não consegue ter uma vida casta é porque o dano que essa alma sofre atinge não só a pureza e a relação com as pessoas, mas outras dimensões de sua vida. Assim é possível identificar um carência na formação humana para as virtudes, que é muito comum no mundo de hoje, inclusive, nas famílias mais cristãs. Certo seria que desde jovens fossémos iniciados na prática das virtudes humanas e espirituais como parte integrante da nossa formação humana, o que demandaria muito tempo e dedicação dos pais, elaborando um planejamento de vida para seus filhos, afim de educá-los na virtude de grau em grau de uma maneira compreensiva e complacente para não recair no moralismo.

Portanto, o que deve fazer alguém que encontra duras dificuldades em viver a castidade? Empregar-se em obter as virtudes humanas necessárias para vivê-la será um bom começo. Pois tem gente que só reza, ou só se confessa o tempo todo, recaindo na mesma falta com certa ou muita frequência, mas permanece na ociosidade (preguiça) que imobiliza suas forças na busca por mudança e a dissolução dos problemas interiores. Desse modo não vêem que são responsáveis por gerenciar a sua própria alma na busca pela santa pureza e estado de comunhão com Deus, por detrás disso está um comodismo, ausência de ascese e ociodidade. Aí tendem a culpar somente o mundo, a sensualidade externa, a cultura hedonista, os amigos e as conversações que lhes despertam as paixões da carne, mas nunca percebem que origem desse mal está na fraqueza da própria vontade desordenada e carente de virtudes.

É difícil fazê-lo? Não, porém exige um planejamento de vida e metas concretas a serem cumpridas arrisca para reordenar à alma para arrancá-la dos vícios das paixões carnais e lançá-la a virtude, que como já disse, é hábito, que implica constância, continuidade e perseverança.

Quais seriam as virtudes associadas à castidade, que humanamente permitiram a sua prática habitual? A justiça, a prudência, a temperança e a fortaleza. Além dessas, existem outras que com ela possam contribuir? Sim, as virtudes teologais: fé, esperança e caridade; que vão servir para tornar essa virtude humana numa via de santificação, ou seja, não é uma pura ação ética e moral, mas uma ação ordenada a Deus, para adorá-lo e amá-lo mais perfeitamente através de um coração convertido e puro.

As virtudes cardeais são assim chamadas exatamente porque elas são o eixo de funcionamento das demais virtudes humanas, daí a etimologia latina – cardo, cardinis – que significa gonzo ou eixo. Imaginem uma porta: entre ela e caixonete (madeira de encaixe da porta) possui um ferrolho ou dobradiça, que é um eixo pela qual a porta ganha seu movimento, e sem ela a porta não se move na perfeição funcional que ela deve ter. Vejam, portanto, que essas quatro virtudes são eixos da vida virtuosa, e que são necessárias, não só à castidade, como a muitas outras as quais poderemos abordar mais à frente na nossa série sobre virtudes.

A urgência da virtude da prudência para uma vida casta

A prudência é uma virtude intermediária que está entre a vontade da pessoa e a realização de um ato moral. Ou seja, a pessoa pensa, porém reflete sobre o ato a ser discorrido de sua vontade, vendo aquilo ser um ato moralmente mal ou uma imperfeição, a vontade se exime daquele ato, ou vendo aquilo ser um bem moral e uma perfeição, realiza-o “oportunamente”.

Isso quer dizer que a prudência nos ajuda a perceber e discernir aquilo que pode inclinar-nos ao mal e ao bem. Sendo assim essa virtude é muito útil à castidade, uma vez que evitamos o que nos inclina a impureza, guardando a vista e os pensamentos, as conversações, o modo de agir e tratar com os demais. Ela nos ajuda a racionalizar os nossos atos, tornando-os menos passíveis a erros e precipitações que nos farão mal.

A temperança para a castidade

A virtude da temperança consiste em comedir os nossos atos, pondo limites a eles, não deixando jamais nenhum tipo de excesso arrancar a ordem do nosso espírito pela qual se estabelece um harmonia favorável a prática da virtude.

Um homem guloso, que peca pelo excesso na comida ou na bebida, como no caso da embriaguez, é intemperado, ou seja, não põe medidas em suas próprias ações, desordenando a vontade e enfraquecendo-a, de tal modo que quando ela tiver que dizer não a si mesma não terá resistência suficiente, pois abre concessões constantemente, não estando pronto, exercitado, nem apto, nem habituado a pôr limite a si mesma. Desse modo o homem fica ao sabor das paixões, ao fragor das ondas, sem oferecer nenhuma resistência as tentações.

Por isso, os padres do deserto viam na intemperança, e em especial, na gula, a porta de entrada para todo tipo de tentações e queda, pois a vontade fica viciada e perde seu domínio próprio, acedendo sempre às paixões. Daí que o jejum e a penitência, além deles serem bens espirituais para nossa fé, são meios de exercitamos a nossa vontade para a virtude da temperança.

O homem temperado para a vida casta evita a sensualidade, imagens eróticas ou que possuam insinuações, foge das situações que lhe inclinam ao pecado, cuida da imaginação, do que lê e a programação que assiste, administra seu tempo para não cair na ocisiosidade e assim acabar caindo nas garras da imaginação e das paixões, isso vale para uso controlado e prudente da internet, entre outras tantas coisas que nos guardam das insinuações, malícia e torpeza.

A castidade como justiça

Poderíamos pensar, mas o que tem haver castidade com justiça? Para chegar a ponto comum dos dois conceitos é preciso entender primeiro o que é justiça. Segundo a definição clássica filosófica, justiça é dar a cada um o que lhe é devido. O que é meu, de minha autoria ou de minha posse, é meu, e ninguém tem direito sobre isso a não ser que eu conceda esse direito a alguém, e somente eu posso transferí-lo, porém se alguém me tomar e furtar o que é meu comete injustiça, pois toma aquilo que é devido somente a mim.

Daí poderíamos elaborar uma definição sobre castidade, baseada inclusive em alguns autores clássicos do cristianismo: a castidade é uma relação justa entre as pessoas. Em que sentido? No sentido de respeitar, promover, preservar e resguardar a integridade humana do outro, mas não só no sentido de não violentar ou assediar a pessoa, considerando o aspecto físico da sexualidade, mas também no sentido do respeito a dimensão integral pessoa (corpo, alma e espírito), resguardando a pureza do outro, templo de Deus, e preocupando-se com o bem de sua alma e sua salvação.

Pecar e incitar um outro a pecar contra castidade é violar a santidade de seu ser, e retirar-se e retirá-lo da presença de Deus e desordenar a sexualidade do seu próprio fim, que visa a vida matrimonial como meio de complementareidade dos esposos (sentido unitivo de realização por meio da dimensão afetiva) e à procriação. A banalidade na vida sexual é um ato injusto contra a própria natureza da sexualidade reservada naturalmente a esses dois fins. Portanto, quando se peca contra castidade viola-se a própria integridade e pureza pessoal, ou/e também da outra pessoa, e viola-se igualmente o fim natural da sexualidade humana. Por esse último aspecto citado, a masturbação e outras práticas do sexo que não se orientam para a natureza própria da sexualidade humana são também pecados contra a castidade.

Ora, o homem que não foi educado para justiça, mas tende sempre ao egoísmo, aos seus próprios interesses, desconsiderando os alheios, que não compreende os limites que lhe são devidos nas relações humanas, que não estabelece fronteiras no trato com os demais, e habitou-se a falta de pudor e respeito humano, violando o privado, a individualidade do outro, e sua integridade, vendo-o apenas como obejto de sua vontade e prazeres, encontrará dificuldades em estabelecer um relação sadia e respeitosa com os demais que contribuiria enormemente para a vida casta, trato justo e santo com o outro.

Que se deve fazer? Quais os meios de obter essa virtude da justiça para a castidade? Lutar contra egoísmo, contra dependências afetivas que tiram a liberdade pessoal e do outro, seja numa relação de amizade ou de namoro, contra a tendência de ver o outro como puro objeto de seu prazer, e ver outro como pessoa, como objeto do amor de Deus e do seu desígnio de salvação. Ademais, deve-se rever como anda o respeito com aquilo que é privado, o bom pudor no modo de vestir-se e na purificação do olhar, e preservar-se de conversações que possam incitar pensamentos impuros e despertar as paixões carnais.

A virtude da fortaleza para a castidade

Essa virtude é de suma importância, pois ela dá alento a todas as outras virtudes. Ela torna o espírito do homem constante e vigilante na consolidação da perseverança na sua busca por uma vida virtuosa. A inconstância pode ser grande aliada das paixões, uma vez que ela desarmoniza nosso plano de vida e a prática das virtudes. Os sinais de sua ausência são a tristeza, o desânimo, a desordem, a falta de estímulo para prosseguir com os seus projetos e para alcançar as metas estabelecidas.

Ora, se falamos até aqui da necessidade de exercitamo-nos para a virtude para uma vida casta, o ato de exercitar-se exige longanimidade, que quer dizer, ânimo constate e inabalável. Os frutos da presença dessa virtude na nossa vida são alegria, disposição, ânimo constante, paz, harmonia, confiança em Deus, esperança, autoestima equilibrada e renovação contínua de bons propósitos.

Educação para virtude

Um modo adequado de nos prepararmos para uma vida virtuosa é disciplinar-nos, estabelecer metas e cumprí-las, configurando algumas práticas concretas da vida cotidiana a uma das virtudes, assim como dei o exemplo do jejum e da penitência. Pode-se com calma estabelecer alguns dias no exercício de uma virtude específica, uma semana, um mês, e quando vê que acabou por relaxar numa outra virtude, tente retomar de algum modo os exercícios reservados a assimilação dessa virtude, sempre renovando esses exercícios, focando numa e noutra e alternando entre elas.

As virtude teologais para a vida casta

As virtudes da fé, esperança e caridade ordenam sobrenaturalmente as virtudes humanas adiquiridas colocando todas as coisas sub especies ad  aeternitatis (sob a ótica da eternidade). A fé santifica todo esforço humano ordenando-os a Deus como ato de amor e reparação. A esperança é aquela inteira confiança na ação santificante de Deus que salva o homem pela virtude de Cristo e por seus méritos através do ato humilde da fé, e não por nossos próprios méritos e qualidades humanas, pois é nele que esperamos, e nele está nossa salvação. E a caridade nos dispõe a realização do bem por amor a Deus e aos homens. Essa última ganha um lugar especial na vida casta, pois ela considera o bem próprio da pessoa e o do próximo, o desejo de agradar a Deus em tudo. Exercitar-se nessa virtude de maneira especial nos produz abundantes frutos no caminho da virtude.

A humildade: via para a castidade

O erro de muitos é pensar que se pode fazer o caminho para a virtude apenas por seu esforço pessoal, e não compreende que a santidade é um caminho que se faz por Deus, com Ele e para Ele. Isso é uma grande soberba do espírito humano esquecer-se de que a origem de toda santidade é Deus mesmo. É preciso que sejamos humildes em reconhecer a nossa fraqueza e a nossa dependência da força de Deus. Entendermo-nos como crianças a dar sempre os primeiros passos e necessitadas de Deus-Pai amoroso e misericordioso  nos perigos e nas tentações.

Nos pensarmos pequenos diante do grande mistério divino não é nenhum tipo de complexo inferior, mas é tornar-se realista da própria existência humana: frágil, breve e fugaz.

Deus, portanto, é o protagonista da vida virtuosa, Ele está na origem, no meio e no fim de toda virtude humana. E mesmo que a condição de possibilidade da virtude seja a liberdade humana, tal como a existência não pode se sustentar sem o Ser de Deus, a virtude não pode existir sem sua santidade, perfeição e força.

Nos ajuda muito nesse caminho de humildade uma intensa vida de oração, exame de consciência contínuo dos nossos pecados e procura do sacramento da confissão e da Eucaristia.

A confissão pedagoga para a virtude

Na confissão nos acusamos dos nossos pecados e nos propomos à conversão, diante desse ato humilde do homem dirigido como súplica à misericórdia divina. A alma do homem é santificada pela ação do Espírito Santo por meio do ministério que o sacerdote exerce em nome da Igreja. Ali se recebe não só o perdão, mas auxílios especiais da graça para viver e perseverar na comunhão perfeita com Deus. Basta ao homem utilizar-se dessas graças especiais em favor da manutenção dessa comunhão que denominamos estado de graça ou estado de perfeição.

Dessa maneira nos dispomos novamente a Deus, nos abrimos a Sua Vontade. Pela confissão temos uma revisão de vida constante. Por isso, seria de muita valia procurar semanalmente ou quinzenalmente este sacramento da misericórdia. Ali nossa fraqueza encontra a força de Deus que nos revigora para o combate que ainda temos a travar em vida em favor de uma vida santa.

Conclusão

A castidade é uma virtude nobre que nos enche da presença de Deus e de paz abundante, fazendo-nos gozar magnificamente de seu Amor.

Esta virtude, como professa a tradição cristã, é chamada a virtude dos anjos, assim atribuida pela pureza de seus espíritos.

A pureza nos permite ver Deus mais claramente e o permite ver-nos com mais clareza como em brancas vestes de cuja alvez irradia amor e perfeição refletidas da santidade de Deus mesmo. A castidade, que é para todo homem, não só para alguns, para religiosos e consagrados, é um modo de fazer a nossa alma desposar-se de Deus, de tal modo que tendo vivido uma vida virtuosa e casta a nossa morte será uma verdadeira núpcia onde nossa alma será eternamente amante do Amor Divino infinito e incontido.

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2012.

Diácono Antonio Augusto da Silva Bezerra.

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