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Discernimento dos Espíritos e Moções Espirituais

"Êxtase de Santa Teresa", de Gian Lorenzo Bernini -1652

“Êxtase de Santa Teresa”, de Gian Lorenzo Bernini -1652

Na vida cristã, ao decorrer da experiência positiva e sobrenatural da fé, muitas são as moções espirituais que nos cercam, e nos fazem ceder ao bem ou rejeitar ao mal pela força de seu movimento em nós. Esses são movimentos diversos que integram a espiritualidade, são como que estados de alma que perfazem a experiência de fé e encontro com Cristo.

Essas moções espirituais são percebidas pelos sentidos (físicos e “espirituais”) e chegam à consciência humana. Tais moções, tendo sido já percebidas precisam ser discernidas à luz da fé, da razão e de uma íntima vida no Espírito, de tal forma que seja possível reconhecer sua real origem: Se está em nós, se vem de nós, se se trata de uma tentação, insídias de Satanás e de seus anjos.

Os acontecimentos exteriores e inspirações que estão na base das moções espirituais podem ser de fato a ação de Deus em nós, um sinal de sua presença e amor, que nos confirma e fortalece na fé, como pode ser fruto da fantasia, ou “lancinantes e sedutoras vozes que nos levam a ilusão, a perda de sentido e o abandono do estado de comunhão e serviço a Deus”.

Porém nem sempre os movimentos que recebemos emergem de nós próprios, não raras vezes, o meio influi em nossas experiências, as mais íntimas que sejam. Mas outro problema que surge é: Como estabelecer os limites entre o que decorre de nós, das circunstâncias ao nosso entorno ou de Deus ou mesmo de seu Adversário? E a nossa pergunta primordial para dar um primeiro passo no discernimento espiritual é: “Este movimento em mim corresponde aos desígnios de Deus? Quais são os desígnios de Deus no meu estado de vida e nas circunstâncias que se me apresentam?”. O primeiro passo é, portanto, recorrer ao objeto da vontade divina, procurar conhecer o seu querer em nós. E daí a consciência abre-se ao discernimento dos espíritos.

A Palavra de Deus se manifesta de modo pessoal e íntimo pelos acontecimentos e realidades que integram nossa personalidade: pensamentos, palavras, intuições, sentimentos, desejos, afeições, amor, entre outros. E é desse mundo da interioridade ao qual só nós mesmos e Deus temos acesso imediato ao Lógos, a palavra, o gérmen divino, o sinal do Deus que se faz visível em nós, ditará o real sentido das moções percebidas. E isso exige não só um simples relato do que sentimos, ansiamos e desejamos, mas um autêntico conhecimento de si mesmo e o habituar-se a uma visão sobrenatural da experiência da fé que possa nos esclarecer os passos do divino em nós, e para onde nos conduzem suas pegadas.

Devemos nos atentar muitíssimo, pois não é raro aparecer como obstáculo ao discernimento a “atividade do psiquismo” nos movimentos da consciência e mesmo da inconsciência. Isso pode perturbar o verdadeiro sentido e a percepção da origem desses movimentos em nós, sem considerar que pode provir de problemas da psiqué humana. Apesar de que sendo a moção de origem sobrenatural, divina ou não, humana ou diabólica, tudo o que compõe a personalidade do homem espiritual está em ação numa moção espiritual, mesmo a sua psiqué que pode produzir as imagens e intuições que compõem as moções. As iniciativas divinas sempre partem da ordem natural de sua própria criação, ainda que queira Ele intervir sobrenaturalmente, a forma ordinária de Deus agir é movendo as perfeições de sua criação para trazê-lo a plenitude.

Para tanto, e insisto, é preciso estabelecer como regra geral para o discernimento espiritual o estado de comunhão com Deus em seu próprio estado de vida. Se a moção que recebo me santifica, me faz ser um homem melhor e mais santo, me põem a serviço da vontade divina, esta pode ser uma atividade do Espírito em nós, ou mesmo um produto da vontade pessoal ou inconsciente que não deixa de ter o seu princípio na ação da Graça em nós. Agora, se a moção que receber me leva ao sentido contrário de tudo que me pede Deus no meu estado de vida, certamente, ou vem da nossa malícia ou mesmo trata-se de uma tentação do Adversário de Deus.

O agir de Deus em nós não pode nos pôr numa situação paralisante de medo, mas de confiança filial, de quem é reconciliado em Cristo com Ele, de quem é amado inexoravelmente. O contrário já seria forte indício de que a moção percebida não tem origem divina. Portanto, a moção provinda de Deus nos leva à comunhão com Ele, nos tira da condição de pecado, nos reconcilia, nos motiva a vida no Espírito.

Deus nos tira da nossa quietude, move-nos a Ele por sua Graça que está na origem de todo desejo de Deus e da própria fé. Porém, mesmo que a Graça atue em nós, permanece em nós aquela inclinação para o mal, para a falta de docilidade aos desígnios divinos. E daí quando encontra a primeira condição de possibilidade o nosso homem velho avança de modo dissimulado, pois se atacasse diretamente, logo encontraria resistência. Porém quando age pelas máscaras das boas intenções nos faz discordar sutilmente apenas um pouco da consolação, e paulatinamente avança até arrancar de nós completamente o desejo de Deus.

São dois os indícios do espírito que nos deriva: conteúdo dos pensamentos que consiste no desvio para algo mal ou menos bom; e, afetivo, quando desvanecem em nós a calma, a serenidade e a paz, e se instalam a perturbação, a inquietude e a perda de vigor estagnando nossa marcha e progresso.

Quando nos vermos sem saída diante do espírito indócil e infiel, devemos nos recordar da ação de Deus em nós, da consolação que Ele nos concedeu e não cessar de rezar e conservar com todo esforço possível a vida no Espírito.

Existe um princípio de conservação espiritual ou de coerência do estado espiritual do momento que consiste na afinidade ou dissonância entre os pensamentos e sentimentos surgidos e as disposições espirituais do sujeito num determinado momento. Se ele está em plena comunhão com Deus, a primeira investida do espírito indócil ser-lhe-á percebido com estranheza e rapidamente se instalam as defesas à agressão ou ameaça que se levantam contra ele, podendo essas defesas persistirem ou não, podendo ele sair santificado como vencido pela tentação e maculado pelo pecado. Este princípio é válido também para a disposição espiritual contrária a Deus, que resiste a tudo que dele provém. Nesse sentido, as disposições boas ou más se denunciam reciprocamente.

O discernimento dos espíritos nos auxiliará a corremos a vontade divina, a entende-la e segui-la. A comunhão dos santos, a vida eclesial, a oração continua, a vida sacramental são meios eficazes pelos quais nos habituaremos a reconhecer o que é próprio da vontade de Deus ou não. É conhecendo-O melhor que saberemos o que lhe nega, o que lhe é contrário, e é conhecendo-nos melhor que reconheceremos o que é nosso, o que é d’Ele ou não.

Síntese do Item “Moções Espirituais e Discrenimento dos Espíritos” do Capítulo IV do livro “Teologia da Espiritualidade Cristã” de Danilo Mondoni – Compre aqui

Comentários

Comentários

1 Comment

  1. Cadu

    Parabéns pelo texto. Bastante esclarecedor, sobretudo em dias de grande confusão de doutrinas. É preciso formar o povo católico com a doutrina verdadeiramente católica! Deus abençoe hoje e sempre!

    Cadu

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