Antropóloga diz que é preciso dar um tempo na tecnologia para viver melhor – O Globo [20/09/11]

SÃO FRANCISCO e RIO (Caderno de Economia do jornal O globo, coluna “Mídia & Digital”) – Antes da internet, e mesmo em seus primórdios, os lançamentos de tecnologia tinham data marcada. Ou, pelo menos, eram os esperados – a nova versão de um programa, um novo computador ou periférico, processadores mais turbinados. Entretanto, com nossas vidas digitais cada vez mais on-line, o aumento da mobilidade com smartphones e tablets, a computação em nuvem e as redes sociais que podem ser acessadas de qualquer lugar, as novidades techie vêm se sucedendo em ritmo tão frenético que é quase impossível acompanhá-las. Não sobra mais espaço para nos desligarmos e “desfrutarmos” um pouco de monotonia, que pode fazer bem num cenário tão estressante. Quem garante é a antropóloga e pesquisadora Genevieve Bell, diretora de Interação e Experiência nos Intel Labs, que conversou com O GLOBO durante o Intel Developer Forum (IDF), nos EUA.

– Existe tanta tecnologia em nossas vidas, que vivemos sob uma promessa de conectividade constante, uma quase garantia de que sempre teremos à mão diversos dispositivos conectados proporcionando-nos “ricas experiências” – diz a pesquisadora.

– Mas o fato é que nós, que estamos enfronhados nesse meio high-tech, raramente clicamos no botão de “desliga” para nos entregar a momentos de tédio. E as indústrias da tecnologia e do entretenimento continuamente se dedicam a pôr o tédio para baixo do tapete, escondendo-o de nós como se fosse vergonhoso ou nocivo se entediar.

Hoje, as rainhas desse ritmo techie vertiginoso são Google e Facebook. Quase toda semana há uma atualização ou nova função na rede social de Mark Zuckerberg – só na semana passada foram os novos tipos de lista para amigos e o botão de assinatura na rede social. Já a Google se espalha por serviços como nuvem (Google Apps), navegação internet (browser Chrome) sistemas operacionais (Chrome OS e Android) e redes sociais (Google+ e Orkut). Todos atualizados constantemente – a ponto de o usuário final perder a noção da avalanche de características que chegam.

– Antes sabíamos o que esperar, mas hoje a toda hora entramos no e-mail, no Facebook ou no Twitter e aparece um aviso sobre uma nova função de que nem tínhamos ideia – constata Esteban Gonzalez Clua, professor do Instituto de Computação da UFF e gerente do Media Lab, laboratório da universidade para desenvolvimento de mídias digitais.

Se a Apple ainda anuncia suas novidades em eventos esperados, a quantidade de aplicativos presentes no iPad e no iPhone se renova num ritmo feroz. Em 2008, a App Store tinha 500 apps, hoje tem mais de meio milhão. Os downloads até setembro daquele ano foram 55 milhões e hoje já ultrapassam 15 bilhões, segundo dados da própria empresa.

Com o Android não é diferente. Em março de 2009 havia 2.300 aplicativos e hoje há mais de 250 mil. Os downloads quase quintuplicaram de agosto de 2010 para cá: cresceram de 1 bilhão para 4,5 bilhões, segundo a Google e o TechCrunch.

– No mundo, há cerca de 5 bilhões de celulares e smartphones em circulação, um bilhão de PCs, mais de um bilhão de internautas e 2,5 bilhões de TVs – acrescenta Genevieve.

– É um monte de coisas que nos afastam da monotonia. No final das contas, acabamos sendo induzidos e seduzidos a trocar o salutar tédio por uma sobrecarga de estímulos. E chegamos ao ponto em que as demandas desses nossos dispositivos excedem nossa capacidade de atendê-las.

Fonte: O Globo

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