Indiferentismo Religioso e Outros Desafios Associados a Espiritualidade e Existência Cristã

É crescente na sociedade e na cultura um real indiferentismo a vida religiosa em geral. Essa realidade vem caracterizando a vida do homem moderno nas últimas décadas, estabelecendo novos e falsos valores, além de produzir a quebra de todos os parâmetros morais que vigorou durante toda a cristandade como o núcleo da vida moral das sociedades ocidentais.

O indiferentismo, nesse caso, não é só uma carência da prática religiosa, ou somente a perda do senso religioso. Também o indiferentismo é marcado pela relativização dos valores, da moral, do próprio homem e da relação do homem com o transcendente, provocando a perda do sentido sobrenatural de sua própria existência.

A confiança do homem na força do desenvolvimento da ciência e da técnica inspirou na mentalidade do homem moderno uma auto-suficiência, uma esperança de que essas inovações iriam solucionar os problemas da sua existência, e de que elas estariam à altura de responder todos os anseios humanos.

Não é raro vermos hoje pessoas que pautam a sua vida num consumismo desenfreado, a corrida do ter pelo ter, a criação de necessidades que não existem de fato. Certamente, estamos falando de algo que afeta a vida de toda sociedade, e todos de alguma forma são tentados a essa corrida.

Mas que tem isso com o indiferentismo religioso? A carência da vida religiosa na vida humana agrava de maneira bastante aguda essa busca do ter que no fundo marca a procura por paz, a saciedade de uma angústia de estar assegurado contra os perigos do imprevisto da vida, ou mesmo por um estilo de vida caracterizado pelo luxo e pelo capricho, o que se forja pela ausência daquela vocação a virtude da pobreza a que todo cristão é chamado, que é o desapego dos bens materiais em vista do bem de tantos outros e a confiança total na providência de Deus, um abandono filial.

A miopia religiosa do homem provoca muitos danos a variadas dimensões de vida humana. A busca pela transcendência apresenta-nos a essência e o sentido último da vida humana, donde o seu centro de convergência é o próprio Deus. No consumismo vemos uma prática oposta, em que o centro de convergência é o ter, ou o próprio ego, a vaidade e a comodidade. O consumismo se iguala a uma prática antiga dentre os povos antigos a qual o judaísmo em sua doutrina condenava explicitamente, que era o culto ao dinheiro, chamado Mamón, o qual Jesus também reprovou diversas vezes. Hoje mais do que um culto ao dinheiro existe um culto ao ter, a comodidade, ao luxo desnecessário, injustificado e desfuncional (perda da funcionalidade do que se tem em virtude de uma supervalorização do próprio ter).

O homem moderno, indiferente à religião, e extremamente consumista, é também um indivíduo frustrado, que carece de sentido, que está angustiado, incompleto. De tanto confiar no ter, de tanto lhe carecer o sentido sobrenatural da vida, a dor, a enfermidade, a brevidade da vida, os sofrimentos de todo tipo que assolam a vida humana se tornaram para ele um verdadeiro dilema.

Cada vez pessoas mais jovens adquirem essa síndrome do indiferentismo religioso e da busca desenfreada do ter. Cresce ao mesmo tempo os jovens sufocados pela dependência química, pelo hedonismo, pela falta de expectativa de vida, e pela depressão e doenças associadas à ansiedade. Não é raro que essa negativa crescente entre a juventude esteja associada a carência religiosa e as exigências do ter que impõe a sociedade consumista, exigências que quando não se estão ao alcance do indivíduo, e que quando demonstram sua ineficácia de saciar os anseios humanos, frustram deixando-os sem expectativa de vida gerando um descompensamento quando se esperava estabilidade, satisfação e saciedade.

Acresce a todas essas circunstâncias a péssima formação da consciência e da vida moral da nossa juventude, o que a experiência religiosa na maioria das vezes acaba por suprir pela sua doutrina e exemplo. Mas com o já citado indiferentismo religioso essa ordenação da vida do indivíduo por essa experiência, principalmente na dos jovens, torna-se menos frequente.

Esse consumismo é fruto também de um materialismo marcante, o qual indica erroneamente que o homem se realiza somente no que é estritamente humano e material, e não precisa de Deus, pois, como dizem os marxistas e alguns filósofos modernos, a religião foi o instrumento instituído pelos fracos, pobres, subordinados ao poder de outrem para poder vencê-los pela força retórica de doutrinas religiosas e crendices. Muitos cientistas modernos declararam o fim da religião nos tempos modernos, e o que vemos, mesmo diante de tanto indiferentismo religioso, é a evolução de um pluralismo religioso sem igual na história das sociedades. Que significa isso? Será um afloramento do senso religioso do ser humano? Ou será que isso aponta para um aparecimento de seitas e sectarismos religiosos que pretendem adaptar-se as novas exigências materialistas, egoístas e absolutas do homem moderno traindo severamente os princípios da própria religião?

O hedonismo, que é a cultura do prazer e o culto ao corpo, também é outra frente que desafia os valores próprios da vida cristã. Novamente a carência da dimensão religiosa torna o hedonismo um fator alternativo que pretende ineficazmente compensá-la, mesmo que ainda inconscientemente. Com isso, o que quero dizer é que tanto o hedonismo, como o consumismo, o culto ao dinheiro e o materialismo surgem como formas alternativas e inconscientes de canalizar ou direcionar as afeições religiosas do homem para uma compensação devido a falta dessa mesma experiência.

É possível considerar que o indiferentismo religioso é uma das principais causas do colapso sócio-cultural do nosso tempo. O homem criou uma verdadeira cisão entre a sua experiência religiosa e a sua vida concreta. A bandeira do secularismo infelizmente entrou em nossas igrejas e lares. Certo que se pode considerar a secularização por uma perspectiva positiva, por exemplo, a da separação entre Estado e Igreja, que, porém, teve um processo doloroso e traumático com a radicalização de algumas posturas, como no caso do secularismo.

O que é o secularismo? É a separação entre a experiência transcendente que se obtém pela esfera religiosa e a vida concreta, afetando o estilo de vida, a moral e os costumes provocando a perda de autenticidade da vida religiosa, que passa ser mais uma idéia etérea e inatingível do que um itinerário de vida real, daí o clubismo religioso, o isolamento, a indiferença com a pastoral e com o serviço da evangelização, o atrofiamento da moral e dos princípios religiosos, o desinteresse pela doutrina e pelos sacramentos. Uma forma clássica de pensar o secularismo é pela expressão farisaísmo tantas vezes condenado no Evangelho por Jesus Cristo.

O que temos hoje é um verdadeiro neognosticismo, e um resultante neopaganismo, sobretudo, moral e cultural. Porque o neopaganismo seria dele resultante? Porque o conceito gnóstico da experiência religiosa cristã gera dispersão dos valores fundamentais dessa experiência, compromete-os seriamente, relativizando a vida sacramental, a catolicidade, a Tradição, o anúncio da fé, dando largas ao secularismo, agravando o indiferentismo religioso. Nestas circunstâncias, defender a moral cristã e uma cultura que nela se embase torna-se cada vez mais difícil, pois existe um enfraquecimento da experiência da fé cristã que começa desde dentro da Igreja pela mediocridade da vida religiosa de muitos cristãos.

Com tantos desafios o que fazer, o que deve produzir a experiência da nossa fé no Cristo Ressuscitado? Como fazer frente e resistência a eles? Como travar esta guerra? Se assim considerarmos que o indiferentismo religioso, o qual também pode ser denominado de neognosticismo, como fonte precisa da crise existencial do homem moderno, temos um objetivo (alvo) no centro da nossa mira. Agora com que armas atingir esse objetivo? Para nós, resta-nos uma vida religiosa coerente e coesa, espírito apostólico, a constituição de uma sólida espiritualidade, catolicidade, ou seja, o esforço pela comunhão com a Igreja Universal, o cultivo da vida sacramental, principalmente, pela confissão e participação da Eucaristia, aprofundamento da doutrina e da fé que se dão também por um plano de vida cristã bem elaborado – consistente.

Com esse aparato temos um potente arsenal para atacar esse objetivo, e o primeiro campo desta batalha somos nós mesmos e não os outros. Conquistada esse primeira batalha, podemos ir a outros campos, mas sempre se assegurando de que o nosso campo esteja bem protegido contra os riscos de uma insurgência desses contravalores a nossa fé. Senão, pode acontecer que querendo salvar a outros não consigamos salvar a nós mesmos.

E assim sendo, ainda podemos fazer algumas considerações a esses desafios que nos alcançam. Contra o indiferentismo; assiduidade, interesse, responsabilidade e altruísmo (virtudes da fortaleza e caridade); contra o secularismo, a piedade (dom do Espírito Santo já dado no sacramento da Confirmação); contra o materialismo, a virtude da esperança cristã, que se volta ao transcendente, ao contrário do materialismo que se pauta na esperança no imanente, no material; contra o consumismo, a virtude da pobreza, contra o hedonismo, a castidade e relação justa entre as pessoas.

Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2011. Antonio Augusto da Silva Bezerra.

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