Quando somos iniciados na fé cristã pelos sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia tornamo-nos exigidos interiormente por um chamado divino a contínua busca de conversão pela revisão de vida (exame de consciência) e participação ativa dos sacramentos, principalmente, os da Confissão e da Eucaristia. Para além disso, uma outra exigência interior emerge diante dessa experiência de conversão, de fé e amor a Deus, o apostolado, ou seja, o anúncio da vida e do mistério de Jesus Cristo, o anúncio do Evangelho e dos valores que nele tem fonte e nele se justificam.

A vida cristã, portanto, deve ser pensada em todas as suas dimensões e traduzidas num plano concreto de vida, do qual você não pode abrir mão. Que tomemos como exemplo o Frei Galvão que depois de se consagrar a Virgem Maria assinou o seu atestado de consagração com o próprio sangue para garantir o fiel compromisso. Tenhamos por imitação esse heroísmo dos santos, mas do que propriamente copiar os seus gestos que apenas isso retratam.

Nesse plano de vida devemos incluir: revisão contínua do nosso processo de conversão, participação da vida da Igreja pelos sacramentos e pela atuação pastoral de qualquer natureza, e formação cristã permanente para aprofundar o conhecimento dos elementos da fé e para a elaboração do pensamento crítico da fé.

Mas esse programa de vida deve ser posto de forma organizada, com vida de oração, leituras de espiritualidade e de doutrina programadas, procurando participar mais e melhor dos sacramentos e obter efetiva participação da vida comunitária, dedicando um pouco do seu tempo para cada coisa. Ponha isso no papel, programe de modo pontual, e leve a prática concreta, que isso nem seja para você e nem venha se tornar uma utopia, mas encare tudo com valentia, otimismo, hombridade, com o afã de um guerreiro.

Deixe de dizer que falta tempo, seja organizado(a), e verá que com um pouco de sacrifício você conseguirá arranjar um tempo diário para realizar não tudo, mas vários aspectos do seu plano de vida programado. Trabalhe com otimização do tempo. Em termos de vida interior, espiritualidade e oração, é necessário que sempre haja um tempo diário para isso, principalmente para o exame de consciência para voltar-se continuamente a Deus e retomar o processo de conversão. Quanto a participação dos sacramentos, se possível, todos os dias, participar do Santo Sacrifício (Missa), e semanalmente, receber o sacramento da confissão. Se não for possível participar todos os dias da Missa por qualquer impossibilidade, dedique um ou dois ou três dias na semana (além do Domingo que é dia santo de preceito) para esse encontro esponsal de amor de Cristo e da Igreja, que é seu Corpo, do qual você é membro.

Daí tendo já feito essa introdução sigamos agora com alguns tópicos que você pode destacar para elaborar o seu plano de vida cristã e o pensamento crítico da fé para o serviço do apostolado e da evangelização.

Vida Cristã

  • Caráter testemunhal: revisão contínua do processo de conversão. Exame de consciência sempre renovado.
  • Participar ativamente dos sacramentos, inserir-se na vida pastoral da Igreja de alguma forma, elaborar atividades locais ou até mesmo virtuais, mas claro sem deixar a ambiência da vida comunitária.

 O Desenvolvimento da Inteligência Crítica da Fé

  • Ter em conta a ação da Graça divina que inspira o coração do homem e o santifica nas verdades da fé. Contar com o seu auxílio e invocar a ação do Espírito Santo sempre em qualquer atividade de formação cristã pedindo para que ele nos ilumine e nos ajude a melhor entender e amar os divinos mistérios.
  • Desenvolver os elementos fundamentais da fé católica, aprimorá-los, descobrir autores cristãos até então desconhecidos. Recorrer às fontes da Tradição da Igreja e ao Magistério.
  • Aprofundamento doutrinal. Propor-se a ler os documentos da Igreja, acompanhar os novos trabalhos, pesquisas e disposições da Igreja em termos de doutrina.
  • Reservar algumas horas na semana para estudar e pesquisar, e não abrir mão disso, considerando tal atitude como ato de fé e amor a Deus.
  • Trabalhar a formação cristã com o mesmo amor com que trabalhamos para sustentar nossa família, para elaborar o nosso sucesso profissional e os nossos objetivos pessoais, e até mais que isso, pois o apostolado é imprescindível e irrevogável para o fiel cristão, e o apostolado necessita de formação permanente.
  • Interagir com a cultura, com a sociedade, com a arte e com o meio secular de modo positivo e otimista, purificando cada um dos elementos que se encontrarem no caminho, separando o joio do trigo.
  • Aprimorar a linguagem e os conceitos para alcançar o maior número possível de pessoas e grupos, a fim de que o testemunho de sua fé gere clareza e objetividade, e não confusão e perturbação, e ao invés de ajudar acaba por agravar mais ainda a dúvida das pessoas.
  • Participar esporadicamente de um curso de doutrina, atualização, seminários fornecidos por institutos católicos e universidades.
  • Estar atualizado sobre os problemas sociais e políticos, éticos e morais, e construir o pensamento crítico com base na doutrina e nos valores cristãos, e para isso é preciso se aprofundar em cada problema específico.
  • Ser otimista de sua própria capacidade de investir no pensamento crítico e contar com o apoio de alguém mais experiente no serviço da Igreja e de sua sagrada doutrina, verificando se essa pessoa realmente é prudente, sábia, confiável, idônea e está em consonância com a voz da Igreja.
  • Colocar paixão, solicitude e emoção no serviço da evangelização, e abandonar aquela velha idéia errônea de que o serviço da evangelização está reservada aos religiosos, bispos, padres, diáconos e seminaristas, e demais ministros.
  • Afirmar o conceito de estado permanente de missão e evangelização como um dever fundamental de todo cristão, principalmente, os leigos que estão inseridos no meio secular.
  • Ser criativo pastoralmente, elaborar propostas e encontros cristãos, debates, palestras, organizar isso junto às pastorais e ao padre ou com outros lideres da comunidade. E não se poupar nem se esquivar dessa exigência pastoral, pois através desse serviço muitos serão despertos para a necessidade de formação cristã permanente.
  • Diante dos novos problemas que emergem dentro da vida social e da nova cultura, que tendem a varrer os valores primordiais da fé cristã, não se portar com passividade, mas com espírito de defesa desses mesmos valores não deixando de, se possível, estabelecer diálogo.
  • Prudente e sábia tolerância fixada nos valores e não num puro respeito humano, ou seja, respeitar o outro sem ser omisso e sem abandonar o serviço à verdade cristã, deixando claro a sua postura, afim de que até mesmo o outro possa conhecê-la melhor, em suas razões, princípios, abrindo espaço para o devido entendimento da verdade cristã.
  • Não se esquecer de deixar o outro falar, de ouvir o outro. Do que você ouvir do outro, a partir disso tente desconstruir o seu pensamento a partir dos próprios princípios que ele utiliza na sua defesa, estabelecendo clareza tanto na linguagem como conceitual que lhe falta no discurso e da qual ele acaba se servindo consciente ou inconscientemente para defender a sua postura. Pois é verdade que muitas das posturas da nova cultura, que se caracterizam por um forte radicalismo, estão fundadas na falta de clareza conceitual, numa incompreensão do que é verdadeiro e do que é falso. Isso se dá devido ao pluralismo atual, fazendo que na sociedade os conceitos e as palavras ganhem cada vez mas sentido ambíguos gerando confusão, e na confusão aceitação passiva, pois a sociedade por uma formação escassa acaba desprovida de suas próprias defesas.
  • Categorias de leitura cristã que você deve procurar para sua vida cristã, na espiritualidade e no processo contínuo de conversão, e para o serviço da evangelização, no conhecimento da doutrina e na elaboração crítica da fé: Sagradas Escrituras, livros de comentários das Sagradas Escrituras, Liturgia das Horas, livros de espiritualidade devidamente recomendados, os livros e biografias clássicos dos santos, documentos magisteriais, tais como cartas, exortações apostólicas, catequeses e encíclicas do Papa, o Catecismo da Igreja Católica, manuais de teologia, textos acadêmicos de teologia bem recomendados, assim como de filosofia cristã (leitura facultativa que, porém, ajuda no pensamento crítico).

Com grande estima,

Antonio Augusto da Silva Bezerra

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