conversao_de_sao_paulo_1Nosso futuro está nas mãos de Deus. Paulo depois de anos de pregação entre os gentios e de assinalar a sua vida com o serviço integral ao Evangelho, encontra-se numa prisão já destinado a julgamento. Ali ele insiste em perpetrar a sua missão independente do cárcere, das restrições todas que lhe foram impostas a sua liberdade. Nessa solicitude que transcende as adversidades em atenção ao serviço do Evangelho, ele não deixa de assistir os fiéis da Igreja na medida de sua possibilidade.

Muitos pensam que a evangelização e o apostolado bem-sucedidos são aqueles que reúnem em torno de si grandes massas humanas, realizando grandes espetáculos e impressionando a vaidade dos homens. E Paulo dá testemunho de que o serviço ao Evangelho não está na quantidade de coisas que se pode fazer, mas na qualidade do serviço ao Evangelho, que deve ser significado, não por números de feitos pessoais, mas pelo amor a Deus e ao próximo, pelo amor ao Evangelho e às almas que anseiam por salvação. Perfeita solicitude como a do Bom Pastor nasce da fé que enxerga o socorro pelo qual gritam as almas perdidas nas trevas do erro pelos quatro cantos da terra.

Paulo queria seguir o grito dessas almas, e levar Cristo a elas. Seu desejo era ir muito além de Roma: queria ir aos confins da terra, e inclusive, deixou isso expresso às suas comunidades atentando sobre seus planos de ir até a Espanha, que na época era conhecida como o território limite do continente, daí ser tido como os confins da terra.

Mas Deus achou que bastava a Paulo chegar a Roma, permitindo que ali ficasse prisioneiro. Ele poderia murmurar, injuriar a Deus por não ter conseguido realizar seu sonho evangelizador. Mas não, seguiu com seus deveres apostólicos: Na prisão “ele recebia todos os que o procuravam, pregando o Reino de Deus. Com toda coragem e sem pôr obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor”, não deixando de considerar o sofrimento presente se enquadrava perfeitamente na sua história de salvação pessoal. No fundo, Paulo sabia que toda obra que ele havia realizado até ali pertencia a Deus. O que será dali para frente? Ele mesmo, o Senhor, se encarregará de zelar por sua própria obra que quis começar por seus servos eleitos.

Temos uma tendência ao fácil, ao cômodo. Não queremos muitas vezes considerar as duras exigências do caminho como componente do qual Deus queira se servir para realizar de modo diferente, do que podíamos nós em nossa limitação concebermos, a sua vontade salvífica. Se não entendemos, não significa que não devamos mais fazer o caminho. Não podemos desesperar. Dentro do horizonte de Deus, Ele que é o primeiro a ocupar-se da nossa salvação e felicidade, exatamente porque por primeiro nos amou, há um infinitude de possibilidades, e todas elas concorrem para a consumação da sua vontade. Para tanto, basta que o homem em todas as circunstâncias esteja aberto a todas as possibilidades as quais Deus nos ordena ou permite, e que Ele entende como meio eficaz de santificação.

Ser santo não é simplesmente fazer e fazer loucamente o que se quer, e se tornar um servidor autônomo do Evangelho. A santidade é dependência total de Deus. Mas como vou saber se o que estou fazendo é vontade de Deus ou não? Primeiro lugar, ore continuamente; segundo, faça tudo que ordena-nos o Evangelho para uma vida cristã digna desse nome; terceiro, siga amando e discernindo os sinais que Deus te dá ao teu próprio modo; e em último lugar, “tendo guardado as palavras e os fatos e neles pensado”, como Maria o fez, os santos todos fizeram, execute apaixonadamente o que Deus te ordenou. E se mesmo assim não tiver certeza, ainda pairar dúvidas? Ora, realizar a sua vontade é ato de confiança e abandono filial, é ato de fé. Dúvidas nos deixam inertes e estéreis. A fé nos move, a confiança filial tomada como roteiro de vida não ficará sem resposta diante de Deus.

Nós não deixamos de amar e de querer estar com alguém porque simplesmente não tenho absoluta certeza de que esse me ama de fato, não fazemos isso, pois senão nunca estabeleceríamos laços afetivos, amizades. Pessoas que assim agem desconfiadas com tudo e todos não vivem bem, adoecem, criam complexos, medos, tornam-se estéreis afetivamente. Não nos tornamos indiferentes a nossa mãe ou pai, por um dia que acordamos, levantamos, chegamos à sala de jantar e o café da manhã não estava pronto, pois esqueceram de lhe preparar, e duvidamos do seu zelo e amor para conosco por um devaneio matutino e espontâneo que nos vem a cabeça. Sabemo-nos amados, ainda que situações externas pareçam desfavoráveis dando-nos às vezes a sensação de abandono e esquecimento. Não podemos deixar que nos enganem os nossos sentidos a ponto de desacreditarmos de que Deus nos ama e está conosco, de que estamos realmente sós, esquecidos e abandonados, e que isso não é simplesmente uma sensação.

A fé vem os sentidos completar. É ela o suporte que nos mantém prontos para Deus mesmo quando os sentidos conflagram contra a nossa esperança, ânimo e virtude.

Diz o salmo “quem tem reto coração a de ver a sua face” . Tendo entregando nas mãos de Deus a nossa vida, resta-nos ter retificado o coração, justificado e santificado dia após dia, pois quanto aos dias vindouros, enquanto trabalhamos duro, Deus reservará o que lhe aprazer.

Pedro preocupa-se demais com o futuro, querendo saber o que será de João, e Jesus declarando o que reserva a ele e a João, deixa claro que a cada um compete o que Deus lhe ordena de modo pessoal, e que cada um, com sua própria tarefa, no seu próprio ofício e vocação, fará e dará de si para buscar e anunciar o Reino de Deus. Daí já não importam os números, sejam de obras realizadas, de anos vividos, de pessoas que se converteram com seu trabalho, de filhos que se gerou para a Igreja e o mundo, de orações, liturgias das quais se participou, pois o que prevalece não são esses valores quantitativos, mas sim o acolhimento dócil e amoroso à vontade de Deus, que pode compreender tais valores quantitativos ou, simplesmente, não, por restrições que podem nos ser impostas pelas adversidades da própria vida.

Dessa liturgia saíamos proclamando fielmente que o que nos resta, o que nos basta é fazer sua vontade, no cárcere ou nas praças, em casa ou na Igreja, na pastoral ou entre amigos, num leito de hospital ou na cátedra de uma universidade. A realização da vontade de Deus não está circunscrita a um lugar no espaço ou a um tempo específico somente, pois ela deve ser um compromisso por toda a vida permanente e itinerante segundo a “Dinamis” do Espírito: “O vento sopra aonde quer, mas não sabe de onde vem nem pra onde vai”. Para seguir, escutar e amar a Deus todo tempo é tempo, toda hora é hora, e em qualquer lugar do mundo até que deixe de peregrinar sobre a terra deverá ser lugar de exercer nossa missão.

Rio de Janeiro, 04 de junho de 2011.

Antonio Augusto da Silva Bezerra.

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