Familiaris Consortio – A Missão da Família Cristã no Mundo de Hoje

1.      Luzes e Sombras da Família de Hoje

A exortação apostólica Familiaris Consortio procura pôr em destaque o valor transcendente do matrimônio e da família cristã no mundo contemporâneo diante da desconstrução dos valores morais e sócio-culturais dentro da sociedade moderna. Os desafios são crescentes, e com isso a fidelidade aos valores que constituem o fundamento da instituição familiar torna-se sempre mais exigente.

O documento deixa claro ao longo de sua abordagem que o matrimônio e a família cristã são uma extensão do serviço da Igreja à pessoa humana e à sociedade através do caráter evangélico fundante desta instituição sagrada: “A família cristã, de fato é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à pessoa humana em crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação progressiva, à plenitude da maturidade humana e cristã” [1].

Por um lado, os problemas que desafiam os valores da família cristã conferem uma condição de possibilidade para a existência de uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimônio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos, à redescoberta do valor social e eclesial da família. Pois quanto maiores se tornam as dificuldades para viver esses valores no ambiente sócio-cultural tanto mais autêntico será o seu acolhimento e introjeção no seio da vida familiar. Porém, não faltam sinais de degradação preocupante desses mesmos valores fundamentais: uma errônea concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva.

 2.      O Desígnio de Deus sobre o Matrimônio e sobre a Família

Para que a família cristã cumpra fielmente os desígnios de Deus no que concerne ao matrimônio e à vida familiar é preciso ter a clara consciência de que ela constitui a imagem do amor de Deus pela humanidade, o sinal de comunhão entre Deus e os homens, e ainda, o sacramento de Jesus Cristo em seu amor esponsal pela Igreja. Nessa união de amor esponsal da qual é sacramento o matrimônio nascem os novos filhos de Deus pela graça batismal, que jamais poderia se tornar uma realidade concreta se não fosse a consumação deste amor entre o homem e a mulher e a concomitante paternidade responsável. É nesse sentido que os cônjuges geram filhos para a Igreja assim como eles mesmos prometeram diante de Deus e dos homens quando sacramentaram a sua união pelo sagrado Matrimônio in eclesia. Deus se faz precisar do homem e da mulher para continuar a obra da criação através da abertura conjugal a procriação. Quando da união de amor conjugal emerge uma nova vida, não só os cônjuges estão ganhando o precioso dom da paternidade como também a Igreja acolhe em seu seio essa nova vida como dom precioso que Deus pela sagrada instituição do Matrimônio concedeu a Igreja, para que ela seja elevada a condição da filiação divina pelo batismo e assim santificada possa crescer em sabedoria e graça a fim de ser no mundo igualmente sinal de santificação.

 3.      Os Deveres da Família Cristã

Ora, o dever da família é o de tornar-se e conformar-se àquilo mesmo que ela é por sua própria natureza. No sentido de dar atenção aos aspectos fundamentais da natureza desta instituição sagrada, “e partindo do amor e em permanente referência aos deveres da família, o Sínodo pôs em evidência quatro deveres gerais da família: a formação de uma comunidade de pessoas, o serviço à vida, a participação no desenvolvimento da sociedade e a participação na vida e na missão da Igreja” [2].

O documento igualmente ressalta o devido cuidado que a Igreja, bem como a sociedade, deve ter para com a dignidade da mulher.  “Existe uma persistente mentalidade impugnada que desconsidera o ser humano como pessoa, tratando-o como coisa, como objeto de compra e venda, ao serviço de um interesse egoísta e exclusivo do prazer, sendo que a primeira vítima de tal mentalidade é a mulher”[3].

Contudo, existe na sociedade também uma nova abertura positiva ao papel da mulher dentro da vida social, que não está apenas restrito ao ambiente familiar, mas também consiste colaborar com o homem na construção de uma sociedade mais justa e humana. Porém, há de se chamar a atenção para que um aprofundamento mais amplo da “teologia do trabalho” possa esclarecer o significado do trabalho na vida cristã e determinar o laço fundamental que existe entre o trabalho e a família, e, portanto, o significado original e insubstituível do trabalho da casa e da educação dos filhos [4].

Do mesmo modo como se deve atentar para a dignidade da mulher, é preciso estar atento aos direitos da criança:

 “O acolhimento, o amor, a estima, o serviço multíplice e unitário – material, espiritual, afetivo, educativo – a cada criança que vem a este mundo deverão constituir sempre uma nota distintiva irrenunciável dos cristãos, em particular das famílias cristãs. Deste modo as crianças, ao poderem crescer “em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens”, darão o seu precioso contributo à edificação da comunidade familiar e à santificação dos pais” [5].

 A família cristã esteja sempre a serviço da vida através da procriação pela qual se tornam cooperadores de Deus na obra da Criação e da atenta realização de sua missão de evangelização na formação da consciência de cada indivíduo que constitui a família, para isso é sempre mais necessário estar em comunhão profunda com os ensinamentos da Igreja conhecendo melhor a doutrina, a Tradição e aquilo que orienta o Magistério da Igreja.

Dentre tantos deveres a serem postos pela própria natureza da instituição familiar, está aquele da participação da família no desenvolvimento da sociedade reconhecendo a sua função social e política e a dimensão da experiência de comunhão e participação que formam e preparam o homem para a vida em sociedade:

 “Pois desde que o Criador de todas as coisas constituiu o matrimônio princípio e fundamento da sociedade humana, a família tornou-se a célula primeira e vital da sociedade. A família possui vínculos vitais e orgânicos com a sociedade, porque constitui o seu fundamento e alimento contínuo mediante o dever de serviço a vida: sae, de fato, da família os cidadãos e na família encontram a primeira escola daquelas virtudes sociais, que são a alma da vida e do desenvolvimento da mesma sociedade” [6].

 4.      A Dimensão Eclesial da Família Cristã

A família cristã deve ser entendida numa dimensão eclesial de participação e comunhão na vida da Igreja e na sua missão. É preciso não só criar um ambiente familiar favorável aos valores humanos, como também é necessário enxertar na vida familiar o espírito de comunhão eclesial através de uma objetiva formação religiosa cristã, tornando seus membros conscientes da realização plena da vida familiar na vida da Igreja.

 Em atenção a essa necessidade de preparar a família cristã na participação e comunhão na vida da Igreja e na sua missão, o documento termina fazendo vários apontamentos para a implementação, manutenção e desenvolvimento de uma pastoral familiar, que insira de uma maneira mais autêntica na dimensão eclesial a família cristã, a fim de que ela cumpra mais perfeitamente a sua missão no mundo.


[1] João Paulo II, Papa, Familiaris Consortio, pág. 6.

[2] Idem, pág. 33.

[3] Idem, pág. 43.

[4] Idem, pág. 44.

[5] Idem, pág. 49.

[6] Idem, pág. 77.

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