MEMÓRIA DE SÃO FELIPE NÉRI – QUINTA-FEIRA DA V SEMANA DA PÁSCOA

Leitura dos Atos dos Apóstolos (Atos 15, 7-21)

Naqueles dias, 7depois de longa discussão, Pedro levantou-se e falou aos apóstolos e anciãos: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu, do vosso meio, para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. 8Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. 9E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé. 10Então, por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? 11Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”.
12Houve então um grande silêncio em toda a assembleia. Depois disso, ouviram Barnabé e Paulo contar todos os sinais e prodígios que Deus havia realizado, por meio deles, entre os pagãos. 13Quando Barnabé e Paulo terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: “Irmãos, ouvi-me: 14Simão acaba de nos lembrar como, desde o começo, Deus se dignou tomar homens das nações pagãs para formar um povo dedicado ao seu Nome. 15Isso concorda com as palavras dos profetas, pois está escrito: 16“Depois disso, eu voltarei e reconstruirei a tenda de Davi que havia caído; reconstruirei as ruínas que ficaram e a reerguerei, 17a fim de que o resto dos homens procure o Senhor com todas as nações que foram consagradas ao meu Nome. É o que diz o Senhor, que fez estas coisas, 18conhecidas há muito tempo’.
19Por isso, sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. 20Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue. 21Com efeito, desde os tempos antigos, em cada cidade, Moisés tem os seus pregadores, que lêem todos os sábados nas sinagogas”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 
Salmo Responsorial (Salmo 95)
 
Refrão: Anunciai as maravilhas do Senhor entre todas as nações.
Anunciai as maravilhas do Senhor entre todas as nações.— Cantai ao Senhor Deus um canto novo, cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira! cantai e bendizei seu santo nome!
— Dia após dia anunciai sua salvação, manifestai a sua glória entre as nações, e entre os povos do universo seus prodígios!
— Publicai entre as nações: “Reina o Senhor!” Ele firmou o universo inabalável pois os povos ele julga com justiça.
 
Evangelho de Jesus Cristo segundo João (Jo 15, 9-11)
 

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.

– Palavra da Salvação.
– Glória a vós, Senhor.

 
Comentário
 
Cristo nos amou por primeiro, e é por isso que alegres caminhamos nessa peregrinação sobre a terra anunciando o que cremos, mesmo em meio a tantas tribulações, muito próprias à vida humana, e certamente aumentadas pelas exigências da nossa missão. Trabalhamos incansavelmente para manter a lâmpada da fé acesa nos corações – trabalho apostólico apaixonado. Esse amor de Cristo, que nos inebria, nos move a solicitude no serviço do Evangelho. Amamos porque amados: exatamente por termos sido amados, que seguimos amando e anunciando o amor por todos os lugares que passamos – e assim se produz um santo, amando a semelhança de Cristo, a ponto de, se necessário for, padecer até a morte para ser fiel a esta sagrada norma de vida.

Não precisamos inventar o amor, para que o outro sinta-se amado, precisamos ter Cristo e sê-lo para outro a fim de comunicar único e verdadeiro amor. Pensamos que nosso amor é fruto de uma coletânea de gestos esporádicos de afeto e estima – e amor é muito mais que isso! Pois tantos estimando muito, declarando por aí pelas praças radical afeto pelo outro, na tribulação denuncia o seu desafeto e a falta de estima pelo abandono.

Portanto, não adianta encarar o amor como um gesto normativo, que deva se manifestar com centenas de palavras barrocas, cartões, e outras tantas dezenas de ligações, lembranças e presentes. O amor é sim uma norma de vida devida a todo cristão, é seu itinerário a Deus, à santidade. Mas quem ama não o faz por um puro ato normativo, ato único de justiça. Pois não se ama alguém porque se deve amar aquela pessoa, porque é um direito dela e simplesmente é um dever seu, sim, também é, e bem sabemos do amor como um dever, mas só se ama autenticamente porque se quer o bem efetivo e afetivo daquela pessoa que é objeto do seu amor em qualquer que seja a sua condição.

E amor não é cumplicidade, como muitos pensam por aí, nem é romance sentimental que assistimos nos filmes e novelas. O amor é um ato sobrenatural que passa pela razão, que julga a necessidade do outro e nos move ao seu encontro e até mesmo em seu auxílio no perigo e no erro. Sobrenatural, pois todo amor se origina e se justifica em Deus, Amor Supremo, e corresponde a um movimento da razão porque não está limitado aos sentimentos e agrados pessoais, mas se torna manifesto em sua totalidade na renúncia pelo outro, na superação de dificuldades pessoais, na necessidade de transcender mais para amar mais.

Certa vez quando falava sobre alguns aspectos doutrinais da Igreja no que concerne a moral e aos costumes cristãos refutando algumas posturas que atentavam contra a fé da Igreja, e me interpelaram dizendo, “mas Cristo amou a todos sem distinção, acolheu a todos, até a morte, e morte de cruz”. Concordei plenamente, pois de fato fora essa a vida de cristo para nós, só amor. Mas reformulei as palavras dele da seguinte forma: “Absolutamente, caríssimo, por amar imensuravelmente é que Cristo não quer ver o homem entregue ao erro para se perder pelo seu fechamento ao projeto divino de salvação: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (João 15, 10). Ora, quem ama não pode deixar o amado se destruir pelo erro, perder a sua vida e sua alma pela carência da verdade, mas evocará aquele que ama para se aproximar de um lugar seguro, onde seja conservada a sua dignidade e seja preservada a sua vida destinando-a à salvação. E se Igreja pela sua doutrina, em uma coisa ou outra diz não, assim o faz porque ama e ansiosamente quer conduzir todo homem à salvação, maior ainda é seu dever para com seus filhos gerados pelo batismo. A Igreja, fiel a Cristo, não pode se furtar a seu dever amar pelo anúncio verdade única que poderá libertar efetivamente o homem. Quando erámos pequenos, nossos pais disseram tantas vezes não, exigiram de nós coisas que não queríamos fazer, e não duvidamos que eles nos amassem de fato, pois tínhamos, ao menos de modo inconsciente, que tudo se fazia por zelo, cuidado e amor a nós, que ainda indefesos nada podíamos fazer por nossa própria conta. A Igreja é a mãe que nos ajuda a viver a prática da fé cristã quando nós sozinhos não temos condições de vivê-la por nossa própria conta. A morte de cruz é prova de amor inestimável, amor que renúncia, amor que supera a dor, amor que sobrevive a tribulação e humilhação, e somos capazes de amar a Deus, deixando de querer fazer o que nos der na telha para seguirmos os seus desígnios de salvação, pois o seu Filho já nos deu o exemplo: “permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (João 15, 10). Portanto, façamos o mesmo, dando prova de amor inestimável, e não diferente”.

Jesus ama todo homem, mas não ama seu pecado, perdoa-os todos, mas não entra em cumplicidade com erro, mas atraí a verdade que liberta o homem de seu pecado. Não, ele não condenou a pecadora perdoada, mas não disse que estava ela certa em cometer adultério, não entrou em cumplicidade com ela, mas deu apenas o que ela tanto queria amor e perdão por suas fraquezas. E ter que pensar assim supõe humildade de se reconhecer pecador e de deixar ser forjado por Deus. Daí que insistimos: amor não entra em cumplicidade com o erro, mas está sempre com um olhar mais acima, como quem observa com olhar de águia, para vir em auxílio na dor e no erro, e ajudar o outro alcançar o bem que lhe urge.

Em geral, temos um conceito mal formulado da bondade das coisas, do amor, e ainda de felicidade, talvez devido a problemas de ordem cultural. É preciso resgatar o valor cristão de cada um desses elementos que são importantes chaves de leitura para melhor entender a nossa existência, e o sentido que mais corresponde a vida humana na consideração integral de todas as suas dimensões.

“Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (João 15, 11). Mas ao contrário do que nos adverte aquele que nos amou, queremos construir uma vida feliz sem Ele como centro de tudo, a nossa meta em tudo. Que mais queremos, se Ele nos garante alegria plena?

Mas permanecer no seu amor por seus divinos mandamentos é muito difícil, então é melhor que façamos a nossa doutrina pessoal e abrirmos a nossa própria igreja, e alcançar alegria plena deste modo é exigente demais, logo, pensando assim, às vezes inconscientemente, passamos a vida toda nos escondendo de nós mesmos, muitas vezes até mesmo disfarçando o drama pessoal proclamando uma falsa aceitação, gritando nas portas por aí, “eu sou pecador mesmo, por isso não sou hipócrita, não vou a Igreja rezar para continuar pecando do mesmo modo”. Se se reconhece de tal modo pecador, porque não reconhecer a necessidade de ser imediatamente amado e perdoado, e voltar a Deus. Mas até para querer ser amado torna-se difícil, pois todo amor gera apelo de correspondência, e como muitos entendem a vontade Deus como um fardo e não querem correspondê-la, relegam Deus ao esquecimento, de tal modo que não se comprometam. E aí, a indiferença destruindo a comunicação preciosa do amor de Deus, e alegria sempre mais distante de chegar à plenitude. Fica o homem como cachorro correndo atrás do próprio rabo mendigando felicidade que sabe não poder ter fora de Deus.

É esse amor que aprendemos na escola de Cristo, que moveu os apóstolos a tomarem a sábia e prudente decisão em torno da questão da necessidade ou não da circuncisão dos cristãos de origem pagã, pela qual julgaram não ser necessário, pois lhes bastava a graça de Cristo para alcançar a salvação pela fé em Cristo Senhor, como declara Pedro: “Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles o acreditam” (Atos 15, 11). “Então, por que vós colocais Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais, e nem nós mesmos tivemos força para suportar?” (Atos 15, 10). O amor apostólico supera todas as formalidades, todos os legalismos desnecessários à natureza própria da experiência da fé. Eles conseguem transpor todo legalismo em vista de enunciar o que é propriamente essencial ao depósito da fé cristã, e não simplesmente por julgar a lei ou tradição de seus pais desprezíveis. O amor apostólico aí se caracteriza em zelar pelo depósito da fé, reconhecendo o que lhe é próprio, acolhendo os gentios, facultando os aspectos acidentais da realidade que orbita em torno experiência da fé cristã, sem nunca atropelar a verdade dessa mesma fé, pois fazê-lo seria falta de zelo e amor pelos que lhes foram confiados por Deus aos seus cuidados.

Viver ao arranque de um coração apostólico amante, à semelhança de Paulo, Barnabé, Tiago e Pedro, à semelhança de os todos santos aclamados e exaltados pela Igreja, à semelhança de São Felipe Néri que hoje celebramos, é dar tudo de si para “dia após dia anunciar a sua salvação, e manifestar a sua glória entre as nações, e entre os povos do universo seus prodígios, publicar em toda terra: “Reina o Senhor” (Salmo 95, 2-3) gloriosamente por seu divino amor”!

Virgem Santíssima que em tudo soubeste amar com perfeição, ensina-nos os primeiros passos para levarmos a cabo em nossa história pessoa um verdadeiro itinerário de amor.

Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para sejamos dignos das promessas de Cristo por um coração configurado ao seu amante dos homens. Amém.

Rio de Janeiro, 26 de maio de 2011.

Antonio Augusto da Silva Bezerra.

Comentários

Comentários