Uma onda de perseguições religiosas e de confronto direto aos cristãos se expande de modo massivo em toda a região do Oriente Médio, acirrando ainda mais a difícil convivência mulçumano-cristã, que teve um período de estabilidade significativa, mas que entrou em degradação nas últimas décadas pelo aumento da presença de radicais islâmicos nos territórios de predominância mulçumana. Curioso é que na mídia se ouve pouquíssimo sobre o assunto, se é que alguma coisa realmente tem sido divulgada pela mass-media, que muitas vezes move-se mais pelos interesses do Estado e do mercado do que propriamente pelos problemas de ordem social e humana.

Analisemos a situação. Foi bem conhecida de todos nós através da enxurrada de informações midiáticas aquela polêmica que girou em torno da iraniana condenada à morte por adultério, Sakineh Ashtiani, presa desde 2006. Ora, justa é toda divulgação  midiática que decorre do desejo de defesa aos direitos humanos – isso é louvável. Mas acho que não foi esse o caso. Muito mais do que estarem preocupados com uma mulher em risco iminente de vida pela condenação de um tribunal cívico-religioso, Sakineh foi aproveitada como um lobby para jogos políticos entre o Ocidente e o Irã, que estão durante anos numa reiterada disputa sobre a questão nuclear. Com esse lobby a frente ocidental americana e européia queriam desestabilizar a popularidade do governo iraniano, evocando manifestações populares de grupos religiosos mulçumanos mais progressistas, e menos ortodoxos. Além disso, uma vez a mídia tendo comprado o lobby, a pressão ocidental se tornou mais forte ainda em relação ao Irã caracterizado por ele de radical, retrógrado e desumano. Em minha opinião, não concordo com a condenação de Sakineh, nem com as posturas realmente radicais do Irã, mas o que me preocupa aqui é razão pela qual há tanto alarde para uma questão humanitária que envolve a vida de Sakineh, enquanto na mídia não há nenhum alarde quanto à contínua perseguição religiosa contra cristãos no Oriente Médio, que tem levado a grandes perdas. Grupos inteiros de cristãos são mortos ou atacados, presos e maltratados, isso quase todas as semanas, e na mídia o silêncio sarcástico de quem se diz preocupar-se com questões humanitárias. Você já ouviu falar de Sakineh, essa figura envolvida pelo sensacionalismo da mídia ocidental, mas, provavelmente, não ouviu falar de uma mulher chamada Asia Bibi, cristã que fora também condenada à morte no Paquistão, e não por adultério, mas simplesmente por professar a sua fé de modo público.

Asia Bibi tem 45 anos, professa a fé cristã-católica, e fora condena a morte por blasfêmia. Ela estava sendo continuamente pressionada no trabalho a deixar o cristianismo e abraçar a fé mulçumana. Tendo se fatigado da insistência, ela declarou veementemente num ato de sincera confissão religiosa: “Jesus está vivo, mas Maomé está morto. Nosso Cristo é o verdadeiro profeta de Deus!” O suficiente para que fosse levada ao tribunal e fosse sentenciada à morte. Asia Bibi está gravemente enferma e tem sofrido contínuos maus-tratos na prisão, precisando de cuidados médicos urgentes, e nem o direito a essa assistência ela tem tido.

E cadê os tão preocupados humanitaristas? Onde estão os gritos vorazes do Ocidente por justiça e liberdade religiosa quando se trata de um cristão, e não apenas de uma oportuna ocasião para eles propagarem interesses e jogos políticos ocidentais? Estão preocupados com os direitos básicos do ser humano ou com a ocidentalização do Oriente? Então, se não é uma questão humanitária, por favor, não nos ofendam com essa ridicularização a nós que estamos aqui como expectadores da política global. Mas, se estou enganado, e de fato se preocupam com questões humanitárias, pergunto: um cristão humanitariamente falando vale menos do que qualquer outro cidadão, seja ele mulçumano, judeu, ou seja lá qual for a sua proveniência religiosa? Bem, pergunto isso porque, se for realmente preocupação humanitária, é o que está parecendo. Porém, prefiro não acreditar que a elite global tenha tantas preocupações humanitárias assim, e com certeza tem muito mais com a geopolítica, as dominações regionais e econômicas, a emancipação de riquezas, a derrubada de governos. Porque, se acreditar que eles tenham realmente preocupações humanitárias, terei que acreditar que nós cristãos não fomos catálogos como portadores desses mesmos direitos. E ainda falta saber a quem exatamente a grande mídia tem servido: aos interesses de uma elite, de uma agenda econômica e política ocidental, ou a serviço dos interesses sociais, do bem comum e dos direitos humanos.

AsPontifícias Obras Missionárias no Paquistão, junto ao Bispo de Multan, Dom Andrew Francis, Presidente da Comissão para o Diálogo Inter-religioso da Conferência Episcopal do Paquistão, tomaram a iniciativa de criarem um dia de oração mundial por Asia Bibi, relegada ao esquecimento pela mídia ocidental. Fora escolhido o dia 20 de abril, quarta-feira santa, como um dia específico de oração universal por ela. E a Santa Sé ainda insiste que todos os cristãos orem continuamente por ela e por todos os outros cristãos perseguidos no Oriente Médio. Portanto, irmãos, continuemos a orar fielmente, por nós e por toda a Igreja universal, principalmente por esses irmãos perseguidos.

Grande abraço a todos.

Antonio Augusto da Silva Bezerra

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