Catequese do Papa Bento XVI sobre a Oração na Íntegra – Primeira Parte

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SOBRE A ORAÇÃO (1)

Queridos irmãos e irmãs, hoje, gostaria de iniciar uma nova série de catequeses. Após as Catequeses sobre os Padres da Igreja, sobre os grandes teólogos da Idade Média, sobre as grandes mulheres, gostaria agora de escolher um tema que está muito presente no coração de todos nós: é o tema da oração, de modo específico daquela cristã, a oração, isto é, que Jesus nos ensinou e que continua a ensinar à Igreja. É em Jesus, de fato, que o homem torna-se capaz de aproximar-se de Deus com a profundidade e intimidade da relação de paternidade e de filiação. Unidos aos primeiros discípulos, com humilde confiança dirijamo-nos então ao mestre e Lhe peçamos: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1).

Clique aqui para ler a Catequese do dia 12 de maio de 2011 Sobre a Oração (2)]

Nas próximas Catequeses, escutando a Sagrada Escritura, a grande tradição dos padres da Igreja, dos Mestres de espiritualidade, da Liturgia, desejamos aprender a viver ainda mais intensamente a nossa relação com o Senhor, quase como que uma “Escola de oração”. Sabemos bem, de fato, que a oração não é um dado adquirido: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo sempre novamente esta arte; também aqueles que são muito avançados na vida espiritual sentem sempre a necessidade de inscrever-se na escola de Jesus para aprender a rezar com autenticidade. Recebemos a primeira lição do Senhor através do Seu exemplo. Os Evangelhos descrevem-nos Jesus em diálogo íntimo e constante com o Pai: é uma comunhão profunda daquele que veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas aquela do Pai, que o enviou para a salvação do homem.

Nesta primeira Catequese, como introdução, gostaria de propor alguns exemplos de oração presentes nas antigas culturas, para fazer notar como, praticamente sempre e por toda a parte, somos voltados a Deus.

Começo com o antigo Egito, como exemplo. Aqui um homem cego, pedindo à divindade para restituir-lhe a vista, atesta algo de universalmente humano, qual seja a pura e simples oração de súplica da parte de quem se encontra em sofrimento, quando reza: “O meu coração deseja ver-te… Tu, que me tendes feito ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu te veja! Inclina sobre mim o teu rosto amado” (A. Barucq – F. Daumas, Hymnes et prières de l’Egypte ancienne, Paris 1980, trad. it. in Preghiere dell’umanità, Brescia 1993, p. 30). Que eu te veja. Aqui está o núcleo da oração!

Entre as religiões da Mesopotâmia dominava um sentimento de culpa misterioso e paralisante, não privado, contudo, da esperança de resgate e libertação da parte de Deus. Podemos assim apreciar esta súplica da parte de um crente daqueles antigos cultos, que soa assim: “Ó Deus, que és indulgente também na culpa mais grave, absolve o meu pecado… Olha, Senhor, ao teu servo exausto, e sopra a tua brisa sobre ele: sem demora, perdoai-lhe. Alivia a tua punição severa. Solto das amarras, faz com que eu volte a respirar; quebra a minha corrente, desata-me dos laços” (M.-J. Seux, Hymnes et prières aux Dieux de Babylone et d’Assyrie, Paris 1976, trad. it. in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 37). São expressões que demonstram como o homem, na sua busca por Deus, já intuía, ainda que confusamente, por um lado a sua culpa, e por outro os aspectos da misericórdia e da bondade divina.

No interior da religião pagã da Grécia antiga, assiste-se a uma evolução muito significativa: as orações, ainda que continuando a invocar o auxílio divino para obter o favor celeste em todas as circunstâncias da vida cotidiana e para conseguir alguns benefícios materiais, orientam-se progressivamente na direção de solicitações mais desinteressadas, que consentem ao homem crente aprofundar o seu relacionamento com Deus e tornar-se melhor. Por exemplo, o grande filósofo Platão reporta uma oração do seu mestre, Sócrates, tido justamente como um dos fundadores do pensamento ocidental. Assim rezava Sócrates: “Fazei com que eu seja belo por dentro. Que eu considere rico quem é sábio e que de dinheiro possua somente o quanto possa levar e conduzir à sabedoria. Não peço nada mais” (Opere I. Fedro 279c, trad. it. P. Pucci, Bari 1966). Desajaria ser, sobretudo, belo por dentro e sábio, e não rico de dinheiro.

Naquelas excelsas obras-primas da literatura de todos os tempos que são as tragédias gregas, após vinte e cinco séculos, lidas, meditadas e representadas, estão contidas orações que expressam o desejo de conhecer a Deus e de adorar a sua majestade. Uma dessas recita assim: “Sustento da terra, que sobre a terra tendes tua Sede, seja quem tu fores, difícil de se compreender, Zeus, seja tu lei da natureza ou pensamento dos mortais, a ti me dirijo: já que tu, procedendo por caminhos silenciosos, julgas os acontecimentos humanos segundo a justiça” (Euripide, Troiane, 884-886, trad. it. G. Mancini, in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 54). Deus permanece um pouco nebuloso e, todavia, o homem conhece esse Deus desconhecido e reza àquele que guia os caminhos da terra.

Também entre os Romanos, que constituíram aquele grande Império em que nasceu e se difundiu em grande parte o Cristianismo das origens, a oração, ainda que associada a uma concepção utilitarista e fundamentalmente ligada ao pedido da proteção divina sobre a vida da comunidade civil, abre-se por vezes a invocações admiráveis pelo fervor da piedade pessoal, que se transforma em louvor e agradecimento. Disso é testemunha um autor da África romana do século II depois de Cristo, Apuleio. Nos seus escritos, ele manifesta a insatisfação dos contemporâneos em relação às religiões tradicionais e o desejo de uma relação mais autêntica com Deus. Na sua obra-prima, intitulada Le metamorfosi, um crente dirige-se a uma divindade feminina com estas palavras: ‘Tu sim és santa, tu és em todo o tempo salvadora da espécie humana, tu, na tua generosidade, provê sempre auxílio aos mortais, tu ofereces aos miseráveis em trabalho o doce afeto que pode ter uma mãe. Nem o dia, nem a noite, nem momento algum, por breve que seja, passa sem que tu o preenchas com os teus benefícios” (Apuleio di Madaura, Metamorfosi IX, 25, trad. it. C. Annaratone, in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 79).

No mesmo período, o imperador Marco Aurelio – que era também filósofo pensador sobre a condição humana – afirma a necessidade de rezar para estabelecer uma cooperação frutuosa entre a ação divina e a ação humana. Escreve no seu Ricordi: “Quem te disse que os deuses não nos ajudam também naquilo que depende de nós? Começa portanto a rezar a eles, e verás” (Dictionnaire de Spiritualitè XII/2, col. 2213). Esse conselho do imperador filósofo foi efetivamente colocado em prática por inumeráveis gerações de homens antes de Cristo, demonstrando assim que a vida humana sem a oração, que abre a nossa existência ao mistério de Deus, fica privada de sentido e referência. Em cada oração, de fato, expressa-se sempre a verdade da criatura humana, que, por um lado experimenta a debilidade e indigência, e por isso pede o auxílio dos Céus, e por outro é dotada de uma extraordinária dignidade, porque, preparando-se  para acolher a Revelação divina, descobre-se capaz de entrar em comunhão com Deus.

Queridos amigos, nesses exemplos de orações de diversas épocas e civilizações, emerge a consciência que o ser humano tem de sua condição de criatura e da sua dependência de um Outro a ele superior e fonte de todo o bem. O homem de todos os tempos reza porque não pode prescindir de perguntar-se sobre qual seja o sentido da sua existência, que permanece obscuro e desconfortante se não é colocado em relações com o mistério de Deus e do seu projeto sobre o mundo. A vida humana é uma mistura de bem e mal, de sofrimento imerecido e de alegria e beleza, que espontânea e irresistivelmente nos impelem a pedir a Deus aquela luz e aquela força interior que nos socorrem sobre a terra e abrem uma esperança que vai para além dos confins da morte. As religiões pagãs são uma invocação que da terra espera uma palavra do Céu. Um dos últimos grandes filósofos pagãos, que viveu já em plena época cristã, Proclo de Constantinopola, dá voz a essa expectativa, dizendo: “Incognoscível, ninguém te contém. Tudo aquilo que pensamos te pertence. São de ti os nossos males e os nossos bens, de ti depende toda a nossa vontade, ó inefável, que as nossas almas sentem presente, a ti elevando um hino de silêncio” (Hymni, ed. E. Vogt, Wiesbaden 1957, in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 61).

Nos exemplos de oração das várias culturas, que consideramos, podemos ver um testemunho da dimensão religiosa e do desejo de Deus inscrito no coração de cada homem, que recebem cumprimento e plena expressão no Antigo e no Novo Testamento. A Revelação, de fato, purifica e leva à sua plenitude o desejo ardente originário do homem por Deus, oferecendo-lhe, na oração, a possibilidade de uma relação mais profunda com o Pai celeste.

No início deste nosso caminho na “Escola da oração”, desejamos então pedir ao Senhor que ilumine a nossa mente e o nosso coração, para que o relacionamento com Ele na oração seja sempre mais intenso, afetuoso e constante.  Mais uma vez dizemo-Lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1).

No término da catequese o Papa saudou os países de língua portuguese:

Uma cordial saudação para todos os peregrinos de língua portuguesa, com menção particular dos fiéis de Salto de Pirapora e as Irmãs Franciscanas Catequistas do Brasil e do grupo “Ajuda à Igreja que sofre” de Portugal, que aqui vieram movidos pelo desejo de afirmar e consolidar a sua fé e adesão a Cristo: o Senhor vos encha de alegria e o seu Espírito ilumine as decisões da vossa vida para realizardes fielmente o projeto de Deus a vosso respeito. Acompanha-vos a minha oração e Bênção.

Fonte: Santa Sé

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