Roma, 20 de abril de 2011 – Na audiência geral desta quarta-feira santa, o Papa aludiu a radical diferença entre a morte de Jesus e a de Sócrates, filósofo que foi sentenciado a morte por envenenamento. O sentenciamento do filósofo à morte se deu devido a insistente propagação de sua filosofia e doutrina que contrariavam a cultura e a sociedade de seu tempo através de conceitos claros de justiça, bem e verdade. O comportamento do filósofo despertou inveja e muita animosidade entre alguns do povo que resolveram levá-lo ao tribunal. Sócrates preferiu tomar a sicuta (veneno mortal) a negar a sua filosofia. A história de Sócrates inspirou uma obra muito conhecida de Platão, seu fiel discípulo, intitulada como, “O Julgamento de Sócrates”.

O Papa afirmou que, mesmo havendo algumas semelhanças históricas, “a morte de Jesus tem uma diferença essencial da de Sócrates”. Qual é essa diferença, segundo o Papa?  Sócrates, mesmo tendo sido sentenciado a morte, aceita tudo impertubavelmente, permanece em paz diante das falsas acusações e insultos, mas os motivos para essa paz de espírito da parte de Sócrates é de um puro desejo de ataraxia (termo fiosófico que designa a um estado de ânimo em que a pessoa permanece impassível, impertubável, em paz diante de todo sofrimento e todo drama da existência, como, por exemplo, a morte). Essa ataraxia emergia do desejo único da felicidade pela paz de espírito através do simples indiferentismo ao mal e ao sofrimento próprios do condicionemento histórico do homem. Enquanto o motivo que movia Jesus Cristo a aceitação de toda humilhação, insultos e sofrimentos impostos sobre Ele até o padecimento da morte, sem sequer reclamar ou murmurar, era o desígnio salvífico de Deus para os homens que se realizara no seu próprio Sacrifício Santo onde ele assumiu todo nosso sofrimento, enfermidade e dor, o pecado dos homens e a condição última do drama da existência humana, a morte.

Sócrates aceitou a morte de modo impertubável pelo puro conceito de virtude grega, em busca de sua própria paz pela ataraxia, assim pretendo alcançar felicidade. Enquanto Cristo sofreu desde a agonia no Getsêmani até o Calvário pela nossa paz, para que encontrássemos n’Ele a felicidade, a salvação e a virtude. Cristo não se entrega à morte por uma simples doutrina filosófica ou por qualquer ciência humana, mas o fez em vista da instauração definitiva do seu Reino Salvífico. Outra diferença está no fato de que a morte de Cristo não é apenas um sentenciamento, é uma entrega, pois Ele mesmo diz: “O Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la de novo. Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente. Tenho poder de dar a vida e tenho poder de retomá-la. Esse é o mandamento que recebi do meu Pai” (Jo 10, 17-18).

 “Podemos admirar Sócrates, mas a missão de Jesus Cristo por sua Paixão foi diferente: a aceitação de sofrimento que lhe fora imposto não era a paciência emsimesmada, mas tratava-se de carregar por ele todo  o sofrimento da humanidade e abrir as portas do céu, que até então estavam fechada para o homem”, afirmou Bento XVI. O Pontífice deixou claro que é justo admirar Sócrates, que morreu com “tranquilidade”,  porém os cristãos devem procurar  entender o verdadeiro sentido do sofrimento em Cristo Jesus, que sofreu “profunda angústia e dor” até a hora de sua morte, dando a todo sofrimento um sentido redentor e salvífico.

Antonio Augusto da Silva Bezerra

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