Visão Geral: Pré-Estréia e Filme

Bem, como o prometido a vocês no post anterior, trago algumas informações sobre a pré-estréia no Odeon Petrobras e também trago a crítica ao filme.

A sessão começou com breves palavras de Dom Orani, que ressaltou o caráter de uma mensagem religiosa e humana no filme, falando especialmente da típica simplicidade da vida monástica que marca muito a trama do filme.

O filme é realmente bom. Não é como essas monstruosas produções de Hollywood. A técnica de produção dele é diferente da que costumamos ver nos nossos cinemas. É um filme de categoria cult.

A trama do filme é muito boa, bem como a articulação da idéia de uma vida pacata, tranquila e simples da vida monástica, que começa a ser  perturbada pela violência de uma guerra civil na Argélia na década de 90.

Uma coisa muito eloqüente no filme é a maneira como se coloca todos os acotencimentos da trama em total sintonia à oração dos salmos e às leituras das Sagradas Escrituras na liturgia, apresentando uma conexão profunda entre vida e culto.

Crítica à técnica do filme

Nos primeiros minutos de filme as imagens estáticas e de pouco movimento dão angustia ao expectador, e isso é intencional. Por que é intencional? Já explico. Nós estamos acostumados a uma técnica de câmera com muitos movimentos com uma diversidade de planos e enquadramentos, e no início do filme, a produção trabalha muito com plano geral (enquadramento de câmera que abrange todo o cenário e as personagens nele presentes), com poucos closes (enquadramento feito sobre uma personagem ou objeto específico), e também poucos planos americanos (enquadramento de câmera que foca a personagem da cintura para cima). Além da técnica de câmera, temos outra coisa que angustia, que é o cenário simples e humilde no qual se desenvolve o filme, sem nenhuma suntuosidade. Então, por que isso seria intencional? Creio que a idéia é dar exatamente ao expectador a noção de pouco movimento e estaticidade para realçar o silêncio, a simplicidade de um estilo de vida que não mais levamos nas grandes cidade, que, inclusive, quando vemos um filme que retrata essa idéia ficamos impacientes esperando o clímax (ponto alto da trama do filme) para vermos movimento, ação, o que inclusive é mais trabalhado da metade do filme até o final. O mesmo vale para a produção do cenário.

Principais idéias trabalhadas no filme: solidareidade, caridade, tolerância religiosa, fidelidade a fé, ao culto e a vida religiosa, o drama da vida religiosa em meio aos desafios humanos e a disposição a entrega total da vida pela fé e pelo valor da missão através do martírio. Essas são as idéias que regem a trama do filme.

Uma das cenas que mais impressionam e que eu acho ser um ponto alto do filme é a celebração da comunidade monástica ao decidir continuar o dever missionário mesmo com o risco iminente da morte, do martírio e de muitos outros perigos que assombram a vida simples daqueles homens. A cena tem como trilha sonora o “Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. Nela há uma interpretação sem igual. Mistura-se no semblante das personagens drama e alegria e o expectador vagueia entre um sentimento e outro.

Em relação a trilha sonora do filme, é de se estranhar que numa boa parte do filme não se toca trilha sonora alguma, e a primeira cena que tem de fato uma trilha sonora é a composta por um cântico monástico em que o frei Christian (Lambert Wilson) está caminhando pensativo e sozinho numa área campestre onde tem um lago, e inclusive, cisnes que alçam vôo no encerramento da cena, a qual tem relação íntima com a cena da celebração que tem como trilha sonora o “Lago dos Cisnes”. Justamente nas duas cenas conexas entre si é que aparecem as trilhas sonoras. Os cisnes alçando vôo do lago, que o frei Christian contempla durante a cena, representam numa perfeita imagem os monges que diante da voz da consciência da fé se sentem interpelados à decisão de dar mais um passo na sua entrega. Nesse sentido, o vôo é a celebração da consciência livre e aberta para Deus e para a entrega da vida como dom. Acho que a razão do filme custar a ter a composição de cenas com uma trilha sonora é também a mesma da utilizada para as técnicas de produção do cenário e das tomadas de câmeras, de tal forma que só se tocam as trilhas sonoras nas cenas que se comunicam com os pontos de clímax do filme.

O filme retrata também a tolerência religiosa, cultural e social dos monges que se relacionam perfeitamente com a comunidade mulçumana, assitindo-os na saúde e com trabalhos sociais que não faziam nenhuma distinção de pessoa, raça ou cor.

O frei Christian tem um Alcorão em sua cela monástica o qual utiliza como um dos seus principais instrumentos pastorais para dialogar com a religião mulçumana, ressaltando os ricos valores religiosos do livro tantas vezes derturpados dentro da própria cultura mulçumana. Os monges também num atitude de solicitude, atenção e acolhimento participam das festas e celebrações daquele povo, visitando as suas casas, cantando e se alegrando com eles.

Quanto a cena final do filme, não é daquelas que esperamos ver, muitos até exclamaram frustrados no Odeon: “Ah”! Porém acho que a cena final, sobre a qual não darei detalhes, senão perde a graça, com seu tom cinza, frio e gélido do inverno evoca a idéia do caráter obscuro da intolerância religiosa e da violência em nome da religião. A colunista Susana Schild do Segundo Caderno do Globo, na edição do dia 14 de abril,  intitulou a sua matéria sobre o filme compreendendo extamente essa idéia que a cena final quer dá: “A intolência é cinza”.

A história é um fato real ocorrido na decáda de 90 na Argélia que se vê no meio de uma guerra civil modificando todo cenário de estabilidade social e política,  donde também acabaram por envolver problemas religiosos suscitados pelo radicalismo islâmico, e nesse caso, pela Jihad Islâmica que tenta de todo modo dominar politicamente o país.

Por enquanto isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre o filme, que merece realmente um análise mais profunda. Digo a vocês que vale a pena ver. Notifico que aqui no Rio de Janeiro não passará em todos os cinemas, posso passar posteriormente aqui no Blog os lugares de exibição.

Grande abraço.

Antonio Augusto da Silva Bezerra.

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